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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:164-171) – esquema do Jogo de Luz

Clareza e Obscuridade: um mito para compreender a consciência

domingo 10 de outubro de 2021

[FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 164-171]

Voltemos às duas linhas, de tamanhos diferentes ou iguais, do Capítulo anterior. O que as torna “evidentemente” identificadas como “de igual tamanho”, ou “de tamanhos diferentes”? A adoção, sem questionar?, de teorias, que funcionam como pontos cegos que permitem ver. Essas teorias foram postas por mim num continuum, das incorporadas biologicamente e muito resistentes a fatores cognitivos às projetadas exossomaticamente como objetos? intencionais (intensões, Sinne, proposições, etc.), que se tornam elas próprias “fatores cognitivos”, como, p. ex., “crenças”. Em qualquer ponto? deste continuum, uma teoria? só se torna transparente, ou seja, só faz aparecer? evidências, se estiver na função, no lugar?, do ponto cego. Qualquer dúvida? — deslocamento da teoria, do lugar do ponto cego para o lugar do que pode aparecer, ou lugar do fenômeno —, qualquer dúvida as torna opacas, “visíveis” elas mesmas, em vez daquilo que víamos através delas. Mesmo nos casos em que a Primeira e a Segunda Naturezas tomam as decisões por nós — virtualmente todos os casos — pode aparecer “o que duvida?” e ficar perplexo diante do que ele chamará de uma “ilusão perceptual”. Mas ele devia saber? que há uma ilusão muito mais profunda, que é a que o faz pensar? que a “ilusão perceptual” poderia “resolver-se” empiricamente?, quando, na verdade?, a “ilusão perceptual” é produzida por um ponto cego muito próximo, no continuum dos pontos cegos, à posição de maior resistência a pontos cegos não incorporados, ou seja, maior resistência aos pontos cegos potenciais, que chamamos de “fatores cognitivos”. (Esbocei, no Capítulo precedente, um modelo? geométrico, composto? de círculos, raios etc., para investigar essa questão, se o leitor quiser a ele voltar).

A “jogada” enigmática na nossa movimentação da estrutura? simbólica do jogo? de luz? consiste, portanto, numa Identificação Primária. Esta, por sua vez, tem uma estrutura. O jogo é como um fractal. Nesta estrutura, o lugar da transparência é necessariamente ocupado por pontos cegos, e o lugar da opacidade é necessariamente ocupado pelo que aparece, pelo que se percebe, pelo que se conhece, pelo fenômeno, pelos objetos, enquanto objetos do que chamamos de “atitudes proposicionais”.

A movimentação do jogo é “arborescente”, mas, digamos, assimétrica, tendendo para o lado da consciência, e como que se volta sobre si mesma, em círculos, em colapsos (pontos) ou em espirais: [164]

O arco da inferior do esquema? acima representa o fechamento de um círculo que tende para o atrator de ciclo limite?, se o tornarmos independente? da condição inicial, ou seja, autônomo na sua repetição.

Nenhuma compreensão da consciência pode excluir a compreensão da loucura? (psicose?) e a compreensão da Sabedoria?. A primeira, é loucura mesmo; a segunda, rege-se pelo dictum?: o que é loucura para os homens é sabedoria para Deus? e o que é loucura para Deus é sabedoria para os homens. Não pretendo, aqui, fazer uma incursão pelo “saber médico”e investigar a psicose — embora deva confessar que suspeito não ser a psicose tema? de propriedade? exclusiva daquele saber, ou mesmo do “saber psicanalítico”. Mas, ainda assim, ouso especular que a raiz? de todas as formas? de psicose deve estar? na tomada, pelo organismo? humano?, de uma identificação como absoluta. O homem comum, dito? não-psicótico — ou apenas “naturalmente” neurótico — , em algum sentido?, por mais recôndito, se leva totalmente a sério. “Sabe”, de algum modo?, ainda que inarticulado, que toda identificação é falsa. E nisto consiste a base do que chamamos de sua “saúde mental?”. Mas não me ocuparei como já disse, da psicose, e sim da consciência humana comum, chamando apenas a atenção do leitor, para algumas características esquemáticas da “consciência do sábio”. No caso do sábio que se extingue (Sabedoria imperturbável, compreensão “auto-colapsante”), temos o recolhimento do círculo no ponto (atrator de ponto). No caso do Boddhisattva, cada movimento? da estrutura secundária inclui toda a parte? superior? da Árvore, rompe o círculo e “sai de si”, numa espiral. Como veremos adiante, na tradição Zen, o sábio e o Homem Comum são misteriosamente idênticos.

No lugar da transparência, portanto, o ponto cego é substituído por “eu?” — os pontos cegos substituem-se, persistentemente, por “eu”, “eu”, “eu”... —, e, no lugar da opacidade, a aparência é substituída por um único “Eu”, um Ente?, uma Entidade?, virtualmente real?, existente, fora do Ser. Eis o esquema: “eu”₁ (a), “eu”₂ (b) etc.; (a = b) → “Eu”. O círculo se fecha, ainda que o sujeito? creia em coisas? como Atman?, Ego Puro?, Eu Transcendental? etc.: “Eu₁” (a), “Eu₂” (b) etc.; (a = b) → “Eu”; “Eu₁” (a), “Eu₂” (b) etc.; (a = b) → “Eu”. Não se trata de uma iteração de n itens, mas da repetição circular, que tenderá para um atrator de ciclo-limite, que não depende das condições iniciais. No caso, por exemplo?, da nirvana? como “extinção pelo sopro”, na ortodoxia Theravada (Hinayana), o atrator será o ponto sem extensão. No caso do ideal? do Boddhisattva (Mahayana), o atrator dependerá infinitamente das condições iniciais, e será “estranho”, ou “caótico”, subordinando-se à irreversibilidade do tempo?, mas irrepetível. O ciclo torna-se, aqui, uma espiral. Os três “Restos”, a Inconsciência como opacidade, a Aparência, que é sua consequência, e a Realidade?, que é como um “em-si?”, uma existência cuja virtualidade? não se compreende, compõem o que chamo de o “Inconsciente? Total”, como se fosse a totalidade? do que está fora do Ser.

No caso do Boddhisattva, esse? Inconsciente Total é integrado na espiral; no caso do sábio que se extingue, o Inconsciente Total se extingue com ele; no caso do homem comum, o Inconsciente Total se divide em dois “Inconscientes” Fechando-se um círculo que tende para um atrator de ciclo, a Identificação é completamente inconsciente (e a psicose consistirá na incompreensão total deste fato?): de um lado — digamos, do lado esquerdo —, temos a “forma de [166] inconsciência” que se torna “sujeito” — a iteração do “eu”’; do outro? — direito? —, temos o que lhe aparece como real, como existente, sobretudo ele mesmo! — p. ex., a Primeira e a Segunda Naturezas etc. —, objeto da ciência, mas que nada? mais é do que a manifestação do lado esquerdo. (O Inconsciente, caro amigo, está na cara.)

Essas substituições na Estrutura da Identificação Primária — por contraste com a “estrutura” pura do jogo de luz — têm o efeito? de uma Ilusão aparentemente irresistível, e persistente (no caso padrão, do atrator de ciclo limite). Não podia ser de outro modo, pois as subestruturas da Identificação Secundária são aquela “jogada” enigmática na estrutura translúcida da Consciência como transparência imutável, que estávamos procurando compreender?. Se a Consciência é imutavelmente translúcida, porque então o jogo não teria parado ali, porque não interrompemos ali nossa investigação, e nos conformamos com o misterium tremendum?

A Filosofia? pode ser experiência de iluminação, e, como dyana, extinguir-se em Samadhi. A “movimentação” desse mito?, embora seja uma imagem?, uma metáfora que sugere a linearidade do tempo, é apenas um artifício do pensamento? filosófico. Se pensamos: “A consciência é ...”, já estamos em movimento e já temos uma estrutura. Compreendemos que, na estrutura do jogo de luz, a consciência é imutavelmente translúcida, imperdível etc. e, na verdade, lá ficamos, aí ficamos, aí estamos, na dimensão eterna desta compreensão.

Acontece que, além de eterna, ou a-temporal?, essa compreensão, como já dizíamos no início deste Capítulo, é infinita. O que compreendemos como “Estrutura da Identificação Primária” é, portanto, como jogo de luz, inerente ao que compreendemos como “Estrutura pura” da Luz. (Ignoro se meu mito deve alguma coisa ao livro Tibetano dos Mortos. Se há dívida, é inconsciente...) A impressão de movimento é, por um lado, microscópica: cada substituição como que aumenta o que compreendíamos, para que dele nos possamos distanciar. Por outro lado, é possível também a impressão telescópica, em que o mesmo movimento faz com que o aumento? permita que nos aproximemos do que compreendíamos. Eis a fractalidade da compreensão, ou sua “invariância escalar”.

Mas nossas últimas substituições podem ter? parecido ao leitor um tanto abruptas. A primeira, “Translucidez = Ponto Cego + Aparência”, e a segunda, “Ponto Cego = “eu-indexical” + “Eu existente”, comportam-se como se fossem as Condições Iniciais, das quais não dependem os dois tipos de subestruturas circulares da Identificação Secundária, a saber, o movimento circular que tende para o atrator de ciclo-limite (padrão) e o movimento circular de auto-extinção que tende para o atrator de ponto (o sábio que verdadeiramente morre). Já a subestrutura da Identificação Secundária que se caracteriza pelo tipo? de movimento “circular” que tende para o atrator caótico, ou estranho (o sábio que vive no mundo? como “ninguém em particular?”), depende infinitamente da Condição Inicial, ou Estrutura da Identificação Primária. Por isso ela é absolutamente imprevisível e engrenada na irreversibilidade do tempo, mas de modo a torná-lo irrepetível. Consequentemente, “arrebenta” o círculo em espiral. O homem comum é como um atrator de ciclo-limite; o sábio que se extingue é como um atrator de ponto; e o Buda   é como um atrator estranho. A movimentação simbólica na estrutura da identificação, nos dois primeiros, é como uma “roda que gira desengrenada do Ser (Bhavacakka)” — daí, talvez, a impressão que tivemos de suas substituições abruptas no jogo de luz.

Quanto à ajuda que pedi à Física, remeto o leitor a COVENEY & HIGHFIELD 1990, trad. bras. 1993 e à literatura lá discutida. Os autores tem uma mentalidade? demasiadamente cientificista e defendem a tese?, errônea, de que o tempo não é “subjetivo?”, mas “real”. Apesar disso, o livro é magnífico. Aqui vai como definem os autores, no Glossário, o que nos interessa:

Atrator: maneira de descrever o comportamento? a longo prazo de um sistema? dissipável, no espaço de fases. O equilíbrio e os estados estacionários correspondem a atratores de ponto fixo; os estados periódicos pertencem aos atratores de ciclo-limite e os estados caóticos correspondem a estranhos atratores. Estranho atrator. um atrator que tem uma dimensão fractal (fracionária); descreve a dinâmica caótica dos sistemas dissipáveis. (p. 321)

É claro que também podemos pensar em termos de “repulsores”. [1]

No caso do sábio, seja o que se extingue, seja o que vive, quando o lugar da consciência é ocupado pelo que é, ao mesmo tempo, cego, e um ponto, o mundo aparece como uma esfera? luminosa, dentro da qual tudo se recolhe num centro. Quando o lugar da opacidade é ocupado pelas aparências, o “eu” desaparece como em um ponto sem dimensão, fora do qual tudo se ilumina. Mas — hélas! — essa problem?ática toda vem sendo muito mal? compreendida na história da Filosofia ocidental. A infinita fractalidade microscópica e a infinita fractalidade telescópica da Identificação Primária escaparam, por exemplo, a Descartes  , cujo círculo de Identificação é, afinal, o do homem comum. Para Descartes  , como para o homem comum, vulgar?, a estrutura do jogo de luz enrigece-se, a ponto de lhe estancar a fluidez do movimento. Eles estão sempre a um passo da psicose. Uma das implicações mais nítidas do jogo, a suprema fórmula (mahavakya) não-dual do Vedanta?, “Tat tvam asi?”, “Aquilo és tu” [2], ao invés de significar que eu sou? o mundo, ou que o mundo sou eu, tem, no pensamento de Descartes  , sua perversão exemplar?. Ao evoluir para a hipérbole, sua dúvida “metódica” o põe, finalmente, diante de si — como objeto, compreendemos nós — na qualidade? de “Pensador”— a rigor, “Pensamento”. Mas “Descartes  ” não se recolhe ao centro do mundo?. Pelo contrário, no seu pensamento, o “colapso” da Função da Identificação Primária, ou substituição da translucidez pelo ponto cego, é um colapso total (ele é, digamos, o primeiro “fenomenólogo” da história!): a Ilusão torna-se independente de sua fonte? e, como tal, incompreensível.

O círculo de Identificação Secundária, em Descartes  , fecha-se na equação “Eu sou”, não o Mundo!, mas o “Pensador”, enquanto “substância pensante”. Trata-se de um caso do círculo “Eu-Existo”. Como pode a grande fórmula não-dual inverter-se em dualismo?? Em vez do desaparecimento do “eu” como um ponto sem dimensão, fora do qual, como eu disse, tudo se ilumina — pois quando temos um “Iluminado”, não é o Eu que se ilumina! —-, em vez do desaparecimento, o “Eu” aparece, na origem? da Filosofia Moderna, per absurdum, como uma “substância”, fora da qual tudo se obscurece. A “substância extensa”, incluindo o corpo? humano, aparece como uma [169] máquina de sombras, mai assombrada pela assombração da “alma?”, de modo que o sentir é concebido como uma forma obscura de pensar. A “unidade? [transcendental] da representação”, dirá Kant  , (cito-o de memória), é tomada no pensamento como “representação [substancial?] de uma unidade”. Mas, no caso do homem comum, não há “ponto”, pois o ponto não teria dimensões. No caso do homem comum — o caso de Descartes   —, o ponto expandiu-se em círculo, as identificações são circulares, tendo este círculo o raio de suas “teorias”, incorporadas ou exossomáticas. O Boddhisattva não é “ninguém em particular” porque não é persona?, não é sujeito, de modo que ali, de fato, temos o ponto. Digamos que o sábio seja um verdadeiro? indivíduo, não uma “pessoa?”. Mas o homem comum “não se recolhe”, de modo que suas identificações, completamente inconscientes, vão determinando um “Eu” de tamanho variável, como um círculo — ou uma esfera —, cujo raio aumenta ou diminui: às vezes “identifico-me” com meu “centro de prazer?”, e uso? ò meu corpo; outras vezes, “identifico-me” com alguém, ou a família, ou um partido político, ou uma ideia? e, então, ultrapasso a minha pele. “Aquilo por que morrería”, “aquilo por que daria a vida”, determina o raio do círculo em que vivo, sem poder saber realmente onde estou, embora esteja sempre certo disto pela urgência do desejo?. O homem comum é como uma ampulheta de abertura variável, por onde passa o tempo, de Inconsciência para Inconsciência.

Esgotado o tempo — pois, pace Freud  , a Inconsciência é o que tem duração, portanto “sofre” a passagem do tempo, na Ilusão da Permanência —, esgotado o tempo, “morre-se”, é-se “enterrado” onde sempre se esteve, na natureza?, por exemplo, e o que resta é um círculo oco. Esta “forma humana” — a ampulheta — pode, evidentemente, manifestar-se de maneira estupidamente brutal: há “ampulhetas” que são verdadeiros “cilindros”.

Já a forma humana do Boddhisattva só poderia ser representada — se pretendermos fazer uma analogia? — por um ponto sem dimensões, onde a Luz se recolhe. Não tendo dimensões, pelo ponto não passa o tempo. É neste sentido — e só neste! — que “O Sábio” independe de seu corpo. Não passando o tempo, o sábio age, jamais reage: é pura espontaneidade?. Não passando o tempo, o sábio não é sujeito (não há círculo no lugar do centro). Não passando o tempo, o sábio está no eterno — não se diz “sempre” está no eterno, pois isto seria absurdo?: o eterno não está no tempo. Não passando o tempo, nada é permanente: o sábio não se repete. Não passando o tempo, o sábio não tem inconsciente: é pura consciência. Sua inserção [170] no mundo — ele está em toda parte, em todo tempo — seria como uma “ampulheta estrangulada”, do nosso ponto de vista, evidentemente. Mas sendo o Inconsciente totalmente integrado à consciência do sábio, a figura? tende para um círculo (em três dimensões, uma esfera), cujo centro, para explorarmos mais as metáforas da Física contemporânea, é uma “singularidade?”. Nada mais próximo, como representação, da Luz de que partimos, incolor, difusa, infinita, sem fonte, sem objeto para iluminar etc. Mas nós o vemos como “fonte” de Luz (Sabedoria) â qual nada se opõe, ou seja, a Luz que, ao iluminar o mundo, atravessa-o, revelando-o a nós como transparência perfeita.


Ver online : LUZ


[1Quanto aos fractais, remeto o leitor a PENROSE 1989, trad. bras. 1991, Caps. 3 e 4 e, é claro, a MANDELBROT etc., lá citados.

[2Chandogya Upanisad, VI, 10, 3; RADHAKRISHNAN 1953.

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