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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:156-161) – identificação – consciência-inconsciência

Clareza e Obscuridade: um mito para compreender a consciência

domingo 10 de outubro de 2021

[FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 156-161]

Ora, o falso? sempre é dualidade? — dizemos que ele “gera” dualidade apenas porque estamos num jogo? de luz?. Essa falsidade? se chama “Identificação”, e esta é a primeira dualidade: de um [156] lado, “isso que se identifica”; de outro?, “aquilo com que isso se identifica”. Mas não havia, no nosso jogo, no sentido? próprio? de “havia”, um “eu?”: nosso objeto? de investigação?, desde o início, foi a consciência?. Sendo o pensamento? e a palavra? já artifícios, estamos movimentando uma estrutura? simbólica?, como se descêssemos uma escada para inspecionar um porão. (Será que poderemos, depois de chegar lá embaixo, jogá-la fora? Não! Não pretendo “jogar fora” nenhum “degrau “ da fenomenologia? da experiência? consciente?, exceto pseudo-objetos, ou impossibilia, do tipo? “quadrados redondos”). Agora? há um “eu”, que aparece no jogo, ou seja, o objeto, o “eu” que vai desmaiar etc. (Pois já compreendemos que o que “desmaia” sou eu, não a consciência.) Mas em lugar? de que aparece esse? “eu”? Não pode ser? no lugar da consciência, ou seja, agora, da transparência?, pois a transparência é imutável. Lembre-se de que substituímos a Luz pela transparência, o que é coerente. Mas seria violar as regras do jogo, como se ele fosse um “vale tudo”, substituir a transparência pelo “eu”.

Este segundo movimento? parece incompleto: falta? um elo na cadeia, um degrau na escada. Ainda não chegamos ao porão. Repito: se, por um lado, essa investigação é fenomenológica, por outro, é trans-fenomenológica. Não tente o leitor descobrir o que quero dizer com isto nos seus arquivos mentais de cultura? filosófica. Estou inventando mesmo. Por isso lhe pedi, já no Prefácio, que me emprestasse sua atenção?, ao invés de me conceder a honra? de uma “atitude?”. Vamos tentando descobrir o que é isso, juntos. Investiguemos.

Enquanto “fenomenólogo”, tenho a última palavra sobre o que me parece: basta usar os famosos parênteses?, ou operar a (na verdade? insustentável) suspensão. Mas enquanto filósofo?, não submisso a nenhuma tirania? metodológica, aquela “última palavra” não tem para mim infalibilidade papal. Penso falsamente que perderei a consciência; compreendo que não posso perdê-la; compreendo que, no lugar dela, o que perderei é o “eu”, que “apaga”. A consciência como tal é transparência imutável, logo não é ela que tem objeto. “Eu” posso “visar” um objeto. Meu “estado? mental?” tem objeto: “a perda da minha consciência”. Mas quando o compreendo, o objeto muda: de “minha consciência”, torna-se “eu”, a perda de “mim mesmo?”. (É isto, o Falso: aquilo que, compreendido, nunca é o que era). É esse “eu” que vai, digamos, “mudar de estado”, não a consciência. [157]

Temos, na estrutura do mito?, os seguintes elementos?: a consciência como transparência imutável; a mente inconsciente?, ou, quiçá, “intencionalmente consciente”; um pensamento, um juízo?, portanto uma identificação; o Falso; um “eu” que não é imutável, que pode perder-se. Será que estamos diante de uma “jogada” de luz em que a translucidez é “esquecida” e substituída por outra coisa?? Mas qual delas? Se alguma coisa ocupou o “lugar” da consciência, então foi a “inconsciência”, como já vimos. Mas “inconsciência” é algo meramente negativo?: “ausência? de consciência”. E já sabemos que não pode haver ausência de consciência. Não pode haver inconsciência real? sem que se pressuponha um “quem” e um “de que” (seria trivial dizer que uma pedra é inconsciente). Pode haver inconsciência em quem erra, ilude-se, ignora, correspondendo então esta inconsciência à “consciência” intencional?, fenomenal, de uma ilusão?. (Já sabemos que as ilusões podem ser mais ou menos irresistíveis aos “atos” intencionais ou ao “conhecimento?” teórico? — lembre-se o leitor das linhas de tamanhos, ou diferentes, ou iguais, do Capítulo precedente). A inconsciência é irreal?. Em última análise?, é ilusória. Deve ser um “efeito? de luz”, já que o jogo é de luz. Mas, como compreendê-lo?

Se um dos nossos elementos é um juízo, então um dos nossos elementos é uma identificação. Como vimos no Capítulo precedente, as identificações materiais são verdadeiras quando seus dois termos projetam um ente?, uma realidade?, uma existência?, fora do Ser, fora dos fenômenos. Estes são momentâneos, instantâneos, não tem duração?, por isso estão fora do tempo? e do espaço?. Aquelas, as “realidades”, as “entidades”, as “existências”, estão no tempo e no espaço. Mas “estar? no tempo e no espaço” é, paradoxalmente, só poder ser percebido como objeto-momentâneo, jamais enquanto ente temporal? e espacial — estes são “inesgotáveis” em suas determinações, ou seja, no que os individua. São as intensões da intencionalidade?. Perceber — instantaneamente — é projetar algo como permanecendo, durando, no tempo; de algum modo?, portanto, “idêntico? a si mesmo”. Nossa lista de “quadrados redondos” ou impossibilia, já verá o leitor, vai aumentar. Além? da impossível? “consciência de estar perdendo a consciência”, havemos de acrescentar à lista a impossível “consciência de si”. [1] [158]

O tempo, o espaço e a realidade são virtuais [2]. Não terá o leitor se dado? conta da “enormidade” do que investigamos no Capítulo precedente?! Nada? mais estamos fazendo, nesses últimos parágrafos, que colher o que lá semeamos. Pace Platão?, não podemos ter? consciência intencional de entes enquanto entes, mas somente enquanto objetos-momentâneos, ou “fenômenos”. Pace Platão?, os entes, ainda que ideais?, é que estão — são concebidos como estando — no tempo e no espaço. Se temos consciência deles, então essa consciência deve ser alguma forma? de “consciência não-intencional” — pode-se ter consciência intencional da “brancura”, da “humanidade?” etc.? Só se for “não-preenchida”, mas essa “jogada” não vale, por tudo que já disse sobre os estratagemas ad hoc de que se urde o noema? husserliano. Pace Aristóteles?, não é possível? ter consciência intencional de uma essência? real, ou de um indivíduo? (substância? primeira) enquanto ente. Se para isso fosse preciso um intelecto? agente?, então nosso intelecto não seria “agente”. Se a predicação essencial? nos dissesse o que um fenômeno? seria se existisse, então ela pode errar, além de poder “acertar” quando o fenômeno não existe (Papai Noel é um ser humano? etc.). Pace Descartes?, acabamos de ver que nem todo? estado mental é “consciente” (intencionalmente), e que a consciência mesma não é um estado, ou não tem estados; que nem todos os estados da “forma de inconsciência” que chamamos de “consciência intencional” são intencionais. Pace Husserl?, além do que já dissemos sobre o seu erro? fundamental, podemos acrescentar que a “intencionalidade” foi por ele mal? concebida e que, de qualquer modo, não há maneira de concebê-la que a fizesse por-nos em contato com “essências?”.

Perguntávamos pela última “jogada”... falsa; e pelo que nos acontece sob o nome? de “inconsciência”. Afinal, estamos, o leitor e eu, conscientes disso tudo, se é que estamos investigando juntos o que chamávamos de “consciência”. As pistas são diversas: non confundar in aeternum! (Estamos juntos nisto: não escrevo para lhe ensinar alguma coisa). O que “nos” acontece sob o nome de “inconsciência” é, em si mesmo, ilusório, não é real. A pista mais forte chama-se “Identificação”. Mas a “jogada” que estamos tentando enxergar na estrutura do mito não pode consistir numa identificação material vulgar?, a = b. Não havia “ninguém” lá, na translucidez. Portanto, não há ninguém para pensar?, errar, julgar falsamente que a = b, expulsando assim do Ser uma existência. [159]

Vulgarmente se pensa que “identificação” só pode ser um ato? intencional, dirigido “para fora” — o policial nos interpela: “Identifique-se”; eu “identifico” um objeto etc. Mas deve haver uma Identificação Primária, inconsciente, pela qual é necessário? que, ao dizer “eu”, eu não saiba o que faço, ou seja, não conheça quem o diz, não tenha consciência intencional de quem o diz. O leitor já deve ter notado que, de modo nenhum a verdadeira consciência é a mesma coisa que consciência não-intencional. Tampouco o fato? de eu vir opondo a verdadeira consciência à consciência intencional, de eu vir chamando “consciência intencional” de “forma de inconsciência”, implica o inverso, ou seja, que toda consciência não-intencional seja consciência. Temos consciência não-intencional de entes, de existentes, de realidades, porque são virtualidades. Mas Husserl?, por exemplo?, incluiria isso que venho chamando de “consciência não-intencional”, entre os diversos “modos” ou “aspectos” não preenchidos do ato intencional que, para ele, era da consciência. O que eu estou chamando de “consciência como translucidez” não é, nem intencional, nem não-intencional. Deve ser o que nos permite compreender? a ambas, se o meu “mito” se prestar a isso.

Mas deve ser necessário, eu dizia, que eu diga “eu” sem conhecer quem o diz. Já vamos investigar esse ponto?. Mas podemos desde agora ver as consequências de encontrarmos resultados positivos em nossa investigação, ou seja, as consequências de ser necessário que quem diga “eu” não saiba quem fala?. Caso seja necessário que eu diga “eu” inconscientemente, sem saber? quem sou — não é o destino? da Filosofia? investigar quem sou eu; e não é a Sabedoria?, que não tem destino, o compreender a investigação? —, caso seja necessário dizer “eu” sem saber quem sou, então isto não será necessário apenas nos casos em que identifico objetos “vulgares”, como quando eu digo, “Eu vejo uma estrela”, mas também deve ser necessário quando eu identifico objetos tremendamente importantes, ou mesmo sui generis, como o objeto que sou “eu”. Atenção! Não é a consciência que se reflete a si mesma: este voltar de fora para dentro a identificação é ilusório, pois me põe para fora como objeto de identificação. Eis a Identificação Primária. Mas, caso isto seja necessário, então há, em toda Identificação Primária, um paradoxo?: se for necessário que eu não conheça quem eu sou? para que eu conheça o que quer que seja, para que eu conheça a mim mesmo é necessário que eu não conheça a mim mesmo. Se for necessário que eu esteja inconsciente de mim mesmo para poder estar consciente de “outra” [160] coisa, então no caso de essa “outra coisa” ser eu mesmo, só poderei estar consciente dela (de mim mesmo), se, e somente se, eu estiver inconsciente de mim mesmo. Ora, já sabemos que só me aparecem evidências quando não tenho consciência (intencional) das “teorias” que as fazem aparecer? (lembre-se o leitor das linhas e seus tamanhos). Não vale o mesmo para “teorias” a meu próprio respeito?, ou “teorias” sobre quem sou eu? Na compreensão? deste paradoxo está a resposta às nossas perguntas: como é possível o Falso (meu juízo: “vou perder a consciência”)? e como é possível a inconsciência, se a consciência é indestrutível? Responder a essas perguntas é compreender a “formação? do sujeito?” e a “aparição do mundo?”. (No budismo?, é contemplar os Doze Elos da Cadeia da Originação Dependente.) Mas, em Filosofia, responder a uma pergunta? é, por sua vez, compreendê-la.


Ver online : IDENTIFICAÇÃO


[1A identidade formal a = a é um caso “degenerado” da identidade material, a = b, no mínimo porque os tokens da primeira são distintos. Aqui eu fico com Hegel, etc.

[2V. Cap.4, adiante, para minha versão mais, digamos, “científica” desta afirmação.

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