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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:153-56) – consciência intencional

Clareza e Obscuridade: um mito para compreender a consciência

domingo 10 de outubro de 2021

[FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 153-156]

Partimos da Luz. Agora? temos transparência?. Embora do ponto? de vista estritamente fenomenológico, a substituição? tenha sido total, como acabamos de notar acima, o que fizemos foi substituir [153] a Realidade? pela Aparência?. Mas uma tal substituição é uma implementação primária de uma distinção? entre Aparência e Realidade, o que necessariamente projeta a Realidade para fora da Aparência, assim como introjeta esta última na primeira. Algo, então, deve ter? restado, sobrado, como resultado dessa “conta”. Uma coisa? foi substituída por outra, mas não em pé de igualdade?. Embora não se distíngua da Luz?, “translucidez” já restringe o que no começo? era apenas luz. Tínhamos só Luz, agora temos “vidraça”. A substituição foi uma “determinação?” onde tudo estava “indeterminado?”. Para onde foi a “luz” que “sobrou”? Entenda o leitor que estou lidando de maneira mais radical possível? com o que os fenomenólogos chamam de “sentido?”. Metáforas quantitativas remetem, aqui, portanto, nossa atenção? a aspectos “puramente qualitativos” do que está em jogo?. [1] É fácil “calcular” o resto, pois estamos lidando com uma estrutura?: resta o que não é transparência, e, como a consciência? agora é transparência, resta o que não é consciência. Na terminologia? ontológica? que desenvolvi no último? Capítulo, resta o que já não aparece como “objeto?-momentâneo”. Ora, a consciência aparece como transparência. Logo, resta a “existência?”, a “entidade?”, a “realidade” dessa “consciência”. Mas, ainda de acordo? com o que vimos no Capítulo anterior, de tais coisas não temos consciência intencional?. Elas mesmas, portanto, estão como que no lugar? da inconsciência. Resta inconsciência.

Mas agora, poderíamos pensar?, temos uma primeira dualidade?. Sim, mas qual? Não se trata da dualidade Luz-transparência, pois, pelas regras do jogo, a substituição em si não gera dualidade, que é uma “categoria?” transfenomenal, mas, sim, fenômeno?, para nós que estamos investigando. E não pode ser? a dualidade que se costuma chamar de “intencionalidade?”, pois não temos (ainda?) nem a fonte? de onde parte? a seta, ou sentido-direção, nem o destino? para onde aponta a seta, ou seja, o sentido-intensão?. Nem a seta, nem o alvo, pois o alvo do sentido é, nesta jogada, inconsciência.

É só até aqui que chegamos, até agora, em nossa compreensão?. Mas então o que se chama de “intencionalidade” não pode ser um “estado? de consciência”. Se fosse um “estado”, haveria outros “estados”, o estado da consciência poderia “alterar-se” etc., mas nada? disso é possível. A inconsciência pode ser um estado da mente?, jamais da consciência. Lembre-se o leitor de que, ao “perder” o que ele [154] julgava ser sua consciência, esta, na verdade?, como que se deslocava, como vidraça transparente, de modo? que o que lhe aparecia era um “eu?” a ponto de “desmaiar”, “perder-se”, “apagar-se”. A situação? é dicotômica: até perder-se, havia consciência. É justamente porque pensávamos, erroneamente, que esta consciência era “consciência de algo”, ou seja, que estávamos a perdê-la, ou que ela estava a obscurecer-se, que não podíamos compreendê-la, isto é, que não podíamos compreender? sua verdadeira natureza? imutável e absolutamente translúcida. A consciência não pode ser compreendida se ela mesma ficar fora dessa compreensão, como “a consciência do compreendedor”. Compreender a consciência, caro amigo desconhecido, passa portanto, necessariamente, por “compreender o compreendedor”. Eis o caráter? paradoxal do nosso Arcano?, o Mito? do Jogo de Luz, ou da Clareza e da Obscuridade: Se há verdadeira compreensão, o compreendedor passa para o lado do “compreendido”.

O leitor poderia objetar, neste ponto, que sou eu que devo estar? fazendo tempestade em copo d’água, ou seja, que a intencionalidade só serve para os objetos da consciência, não para a consciência mesma; que a consciência, “por definição?”, não é objetivável, não aparece, não pode ser um objeto intencional, etc. Mas então eu redarguiria que o leitor, ou não deve estar levando a fenomenologia? e a intencionalidade a sério — pois, afinal, não pensa o leitor poder ter a experiência? de estar “perdendo” a consciência? Não é assim que lhe parece? —, ou então a intencionalidade não pode ser o que ele pensava que era, ou seja, algo que vai da consciência para um conteúdo da consciência. A intencionalidade não pode ser uma relação? entre a consciência e alguma coisa. Iteremos alguns dos nossos resultados até agora:

(1) Não podemos “perder” a consciência;

(2) A consciência é inalteravelmente transparente;

(3) Não há “estados de consciência”;

(4) A “intencionalidade” não é uma relação entre a consciência e algum conteúdo ou coisa. [155]

As expressões “intencionalidade da consciência” e “consciência intencional” traem, portanto, uma incompreensão do que seja consciência e do que seja intencionalidade. Haverá, talvez, intencionalidade, mas ela não pode ser da consciência. A “consciência intencional” não é consciente?, no verdadeiro? sentido do termo? “consciente”. Deve ser uma “forma? de inconsciência”. Investiguemos.

O que é que eu “tenho”, ou o que é que me “acontece”, quando eu tenho consciência de que vou perdê-la? E que dualidade teria surgido da primeira substituição, no jogo de luz? Que dualidade teria sido “aberta” pela substituição transfenomenológica da consciência como luz pela consciência como transparência, ou translucidez inalterável? Repare o leitor que, se tratássemos o campo? reduzido como hermeticamente fechado, nossa primeira substituição teria sido uma equivalência?, não sobraria resto, e o jogo terminaria ali mesmo, pois, ainda que continuássemos a ruminar o “noema?”, nenhuma dualidade (novidade) teria surgido. As duas perguntas, que ficaram pairando em suspensão, são interdependentes. O que me acontece quando eu tenho “consciência” de que vou perder a consciência não pode ser consciência, pois se esta é imperdível, não pode ser consciência de perder-se a si mesma. Desmaiar, morrer, dormir sem sonhar, etc., não pode ser perder uma coisa que, além? de inalterável, não era sequer um “estado” meu. Para onde ela foi? Deve estar lá onde sempre esteve. “Eu” é que desmaiei, etc. Não fosse assim, eu teria tido consciência de a estar perdendo. Mas já vimos que isso é impossível?. E sendo literalmente impossível, está banida do campo do que aparece. Até mesmo um fenomenólogo ortodoxo eliminaria do campo reduzido, p.ex., “quadrados redondos”, ainda que alguém insistisse que os quadrados lhe parecessem redondos...

Se o que eu tenho quando tenho “consciência” de que vou perdê-la não é consciência, então é inconsciência, uma “forma” de inconsciência, que chamamos de “consciência intencional”, que é um estado mental, que se expressa pelo juízo?, falso?, “Vou perder a consciência”, e que tem como objeto (objeto do estado mental) “a perda da minha consciência”. O juízo corrigido, verdadeiro, é: “Aquilo (o objeto) vai desmaiar, dormir, cair morto etc.”, “Vou perder-me a mim mesmo?”, ou “Vou perder meu senso? (exclusivo) de eu”.


Ver online : INTENCIONALIDADE


[1V. Cap.4, adiante.

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