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Sempre o Mesmo acerca do Mesmo.

Eudoro de Sousa (HCSM:257-258) – mito da separação

Filosofia Grega

sábado 9 de outubro de 2021

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 257-258]

4. CONCLUSÕES, RESUMIDAS, DE STAUDACHER, DIE TRENNUNG VON HIMMEL UND ERDE, TÜBINGEN, 1942 (HC, § 21)

O mito? da separação? das duas grandes regiões? cósmicas é universal?: Staudacher (1942) descreveu as variantes disseminadas pelo mundo? inteiro — tribos africanas, Egipto Antigo, Grécia Moderna, literatura babilónica e judaica, Hurritas e Fenícios, na índia, Sibéria, Ásia Oriental, Indonésia, Melanésia, Austrália, Nova Zelândia, Polinésia e no continente americano. A todos os mitos de separação é comum a ideia? de que o Céu?, antes do começo? da ordem? actual das coisas?, estava muito mais próximo? da Terra?, criando uma situação? muito desvantajosa para os homens, que só podiam deslocar-se rastejando e, não podendo desenvolver-se até à sua estatura normal?, se encurvavam lentamente. Falta? a vegetação e os homens definham de fome; as nuvens que preenchem o estreito espaço? entre os dois amolecem a terra, e a chuva devasta os campos de caça. Cita-se mesmo um caso em que o Céu chega a devorar os homens, correndo todos o perigo de serem exterminados. Quando o Sol? já existe, a sua forçada imobilidade acarreta imensas desgraças. Refere-se que um traço especialmente característico? do estágio anterior à separação é o da obscuridade perpétua e impenetrável. Por seu lado, também o sentimento? do Céu e da Terra é o de que a União? os prende e oprime: separarem-se é a solução. Móbil? principal do acto? decisivo parece que seja a «conquista da luz?». Antes de cometê-lo, os homens reúnem-se em concilio. Primeiro, ninguém se acorda sobre o modo? de proceder, ninguém ousa cumprir o grande trabalho?; são muitas as tentativas que falham, até que, finalmente, um o consegue, aplicando todas as suas forças. Quando o Céu se afasta, obedecendo a uma ordem, é necessário? o repetido pronunciamento da palavra? de comando. Umas vezes, a separação resulta do arremesso de pedras, de tiros de flecha?, ou por meio? de varas ou de estacas; outras, o Céu é repelido por grande fumaça, uma queimada, ou pelas artes de um feiticeiro. Todavia, o mais frequente é que a separação se efective por intervenção de um «ser» que pode dispor ou necessitar do auxílio de plantas, animais, homens ou deuses. A pessoa? do próprio? «separador» apresenta-se sob diferentes aspectos: o Sol representa muitas vezes esse? papel (Marduk é uma divindade solar). Em numerosos casos, a separação opera-se pelo corte do membro que, até então, ligava o Céu e a Terra (tubo, monte, árvore, liana, corrente, escada, arco-íris, menir, cordão umbilical). [257] Também este acto é caracterizado como enormemente difícil, por todos os meios de que dispõe a arte? narrativa dos «primitivos». Céu e Terra podem estar? ligados no corpo? de um ser vivente?, monstruoso (dragão, polvo), que o herói?-separador terá de matar. Também não é raro que o Céu e a Terra sintam a separação como aniquilamento e peçam misericórdia à pessoa que intenta separá-los. Caso único? é aquele em que o Céu deseja o próprio aniquilamento, no interesse? dos homens; poucos aqueles em que o Céu e a Terra se apartam espontaneamente e sem alheio auxílio; mas, aqui, sempre precede uma querela entre ambos. Ou o Céu se separa da Terra, indignado com a ingratidão e a pecaminosidade dos homens, ou foge, sabendo dos seus planos insidiosos. Terminado o drama da separação, removidos foram os males que antes pesavam sobre os homens: os habitantes da Terra obtêm sua liberdade? e poderão, daí por diante, desenvolver-se sem entraves; a Terra devém frutífera, nasce nova vida? vegetal? e animal?; cessa a fome e a chuva mortífera. Porém, o mais importante é o surgimento da luz e do sol, que separa o dia e a noite. Em algumas versões, à separação associa-se o motivo? do paraíso: a proximidade do Céu também apresenta suas vantagens, e os traços positivos da existência? anterior à separação resumem-se numa vida de delícias, em completa ociosidade. Neste caso, é claro que são inteiramente negativas as consequências da separação e o distanciamento do Céu e da Terra aparece como efeito? de algum equívoco? ou transgressão; digamos, de um pecado? original.

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