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Horizonte e Complementaridade

Eudoro de Sousa (HCSM:114-115) – noûs, dianoia, pistis, eikasia

Ensaio sobre a relação entre mito e metafísica, nos primeiros filósofos gregos

sábado 9 de outubro de 2021

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 114-115]

RESUMO DE REPÚBLICA VI, apenas de 508a-511e

66. «Imagina, por exemplo?, uma linha seccionada em duas partes, em dois segmentos desiguais; secciona novamente, segundo a mesma razão?, cada um dos dois segmentos, o do gênero? visível e o do gênero inteligível?. Assim considerada uma relação? recíproca de claridade e de obscuridade, obterás no visível o teu segundo segmento, as cópias; por ‘cópias’, entendo eu?, em primeiro lugar?, as sombras projectadas; em segundo lugar, as imagens? reflectidas na superfície da água ou sobre todos os corpos que são ao mesmo tempo? compactos, lisos e brilhantes [...]. Representa-te, agora?, no outro? segmento, que se assemelha àquele, os animais da nossa experiência? e, em conjunto, todo o gênero do que se procria e se fabrica [...]. E aceitarias, ainda por cima, o falar? em uma divisão? do visível, relativa à verdade?, à ausência? de verdade? O que o opinável é para o cognoscível, a coisa? feita à semelhança? o seria em relação àquilo de que tem semelhança? [...] Examinemos, depois, de que maneira a secção do inteligível deverá, por sua vez, ser segmentada [...]. Numa das secções do inteligível, a alma?, tratando como cópias as coisas que anteriormente eram as que se imitavam, é obrigada, em sua investigação?, a partir de hipóteses?, a caminho, não de um início, mas sim de um término; mas, em contrapartida, na outra secção, avançando da sua hipótese ao encontro de um princípio? não hipotético, a alma, sem mesmo recorrer àquelas coisas que, na primeira secção, se tratavam como cópias, prossegue o seu inquérito por meio? das naturezas essenciais?, em si mesmas consideradas, e movendo-se por entre elas. — Essa linguagem? que falas [...] não a compreendo inteiramente. — Pois bem, recomecemos. Depois das explicações que vou dar-te, compreenderás melhor. Os que trabalham em geometria? e em cálculos [...] uma vez que tenham posto por hipótese a existência? do ímpar e do par, a das figuras, a de três espécies de ângulos [...] procedem, no que se refere a estas coisas, como em relação àquelas que sabem; manejando-as, para uso? próprio?, como hipóteses, acham que não têm de dar-lhes fundamento? [...] como se fossem claras para toda a gente; depois, tomando-as por ponto? de partida, percorrendo, daí por diante, o resto do caminho, acabam por atingir [...] a proposição? cujo exame se haviam proposto de início [...]. Além? disso, também deves saber? que eles recorrem a figuras visíveis e que sobre tais figuras constróem raciocínios, não tendo a estas em sua mente?, mas sim figuras perfeitas, das quais as outras são imagens, razoando sobre o quadrado em si, a diagonal em si, mas não em vista da diagonal que traçaram; e o mesmo quanto às outras figuras. Aquelas que modelam e desenham objectos que produzem sombras ou que se [114] reflectem à superfície das águas, são, por sua vez, tratadas por eles como cópias, quando procuram ver figuras absolutas, objectos cuja visão? a ninguém é possível?, a não ser mediante o pensamento? [...]. Assim, pois, enquanto chamava inteligível a este modo? de pensar?, dizia, por outro lado, que para conduzir a investigação nesse sentido?, a alma se constrange a recorrer a hipóteses, a não seguir na direcção do princípio, na medida? em que permanece impotente para ultrapassar o nível das hipóteses, e tratando como cópias esses objectos que, por sua vez, são copiados pelo que vem abaixo deles, tendo, estes objectos de que falo, obtido, em relação às mencionadas imitações, a fama de realidades evidentes [...]. Pois bem, compreende-me ainda, quando falo da outra secção do inteligível, aquela que o raciocínio? atinge por si mesmo, por virtude? do diálogo? (dialéctica), sem usar de hipóteses, como se elas fossem princípios, mas sim como o que efectivamente são, quero dizer, pontos de apoio para nos arremessarmos avante; a fim? de que, seguindo na direcção do princípio universal?, até o que é não hipotético, o raciocínio, uma vez este princípio por ele atingido, aplicando-se a seguir tudo o que se segue do princípio supremo, desça, no sentido inverso, a um término, sem recorrer a absolutamente nada? de sensível?, mas somente às naturezas essenciais, passando por elas para ir a elas — e é sobre naturezas essenciais que vem terminar o seu caminho [...]. Admite, ainda, que às minhas quatro secções corresponda, a existência, na alma, de quatro estados: ‘razão’ (noûs?), para o segmento superior?, ‘intelecto?’ (diánoia) para o segundo; ao terceiro, dá-lhe o nome? de ‘crença?’ (pistis?); e ao último?, o de ‘conjectura’ (eikasia). Ordena-os, depois, segundo uma proporção, dizendo de ti para ti, que o grau? de possibilidade?, para os segmentos, de participarem da verdade, é o mesmo que, para os estados correspondentes da alma, de participarem da certeza? [...]»

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