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Sempre o Mesmo acerca do Mesmo.

Eudoro de Sousa (HCSM:181-184) – falácia da fórmula "do mito ao logos"

Uma resposta o segundo questionário de Ordep

sexta-feira 8 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 181-184]

Não obstante a fortuna que ganhou o pensamento implícito na fórmula «Do Mito ao Logos» (como se sabe, este é o título de um célebre trabalho de Wilhelm Nestle, que o mais sucintamente designava os primórdios do processo evolutivo do pensamento europeu) [181], da mitologia para a filosofia, ainda ninguém conseguiu ver distintamente o caminho recto ou sinuoso e, portanto, traçá-lo em plano bem definido. Em momento algum, a filosofia grega nos aparece como abstracção do mito helénico ou pré-helénico, como transposição pura e simples da mitologia em logomitia. Mas entre elas alguma relação tem de existir, pois seria inverosímil que o mesmo povo mentalmente vivesse em dois mundos diferentes, estranhos e incomunicáveis (no que lhe dou toda a razão, Ordep Serra diz: «será o mundo que o Pai Oceano cinge, o mesmo que o Indiferenciado envolve? Pode-se viver de igual maneira num e noutro? Do meu ponto de vista, o deixar-se arrebatar por essas duas imagens leva à experiência de qualquer coisa dilacerante. Acredito que a frase heraclitiana citada acima — «o sábio único quer e não quer ser chamado de Zeus» — é das que não se podem ouvir sem terror e tremor). Supondo, todavia, que o mito e o logos são efectivamente incomunicáveis e estranhos um ao outro, ainda podemos pensar que, apesar da incomunicabilidade e estranheza, alguma relação entre elas subsiste (daí a exigência da complementaridade que não é senão uma das formas que pode assumir o nosso anseio de unidade). Para o que teremos de enunciar uma ou algumas hipóteses preliminares. A primeira é esta: que a inverificável comunicação directa, entre a mitologia e a filosofia, indirectamente se estabeleça através de um tertium quid, e seja, este, a religião. A segunda, que lhe é subsidiária, consiste em acolher provisoriamente a suposição de que, em seus primeiros passos (aqueles de que a história procura os vestígios mais certos), a filosofia grega ainda não fosse tão lógica e a mitologia já não fosse tão mítica, a ponto de uma e outra se recolherem em si, a uma distância impossível de percorrer. E a terceira é que algum demônio astucioso, não sabemos porque maléfico desígnio, tenha querido ocultar-nos o facto possível de que todas três — religião, mitologia e filosofia — de mãos dadas, dançam em ronda por todo o vasto terreiro da história antiga (e por que não da moderna?).

E talvez haja lugar para todas estas hipóteses. Firmemo-nos, por ora, nas consequências a extrair das duas primeiras, embora um pressentimento nos deixe entrever que, afinal, não haveria três hipóteses, mas três aspectos de uma só (duas, já demos por suposto que são interdependentes). A mitologia grega, originalmente mitologia que emerge da religião grega, não seria qualquer mitologia, mitologia num conceito demasiado abrangente, mas tão-só aquela que a religião dos gregos podia gerar, e outro tanto se diga da filosofia grega, a qual, como filosofia emergente da religião, não seria qualquer [182] filosofia, pura e simplesmente filosofia, mas só aquela que da religião dos Gregos podia ter nascido. Contudo, acrescente-se que a religião grega também não podia ser qualquer religião, mas aquela somente, que, por natureza sua, tinha de chegar a ser tal, qual efectivamente foi, no fim do seu milenário desenvolvimento — queremos dizer, desnudada de todas as insígnias do sagrado (diria agora: da complementaridade, da imanência e transcendência), uma filosofia saudosa da religião, ou seja, da sua própria origem, como facilmente se verifica nas últimas sobrevivências do pensamento pagão, nomeadamente, nos mais conhecidos representantes do neo-platonismo.

Que a filosofia grega nos pode aparecer como forma sui generis da consciência religiosa, inclusive, como pretendendo substituí-la, é o que se nos mostra em vários momentos da sua história, em especial, no princípio e no fim, se é que, a propósito de «filosofia grega», ainda se pode falar de um fim ou de um término. Mas a lição mais instrutiva que desse fenômeno nos é dado extrair, é que houve outrora uma religião, i. é, certa consciência da presença dos deuses no mundo, ou além dele, que nasceu fatalmente destinada a vir a ser aquilo que nós denominamos «filosofia». Nada mais natural do que suspeitar que a mitologia também estava comprometida nesse destino. Não sendo, ela mesma, uma filosofia (porque se o fosse, jamais teria nascido a filosofia que se nos tornou familiar), já trazia em si, desde as origens, uma característica que a distingue de todas as demais, designadamente, das mitologias dos povos que nunca filosofaram (à maneira tradicional, entenda-se!). Com efeito, traço notabilíssimo da mitologia dos Gregos é a possibilidade manifesta e profusamente manifestada pela história da sua cultura, de transmutar-se, toda ela, em poesia e história profanas, e isto, desde épocas muito remotas. Noutros termos: característica da mitologia grega, traço que a distingue de todas as outras e, em especial, das mitologias de todos os povos chamados «primitivos» ou «atrasados» e, em parte, das grandes civilizações próximo-orientais, é o gradativo ou brusco processo de separação da imagem mítica e do acto ritual. É um processo diabólico, no étimo sentido da palavra, mediante o qual nasce uma literatura que, em todos os gêneros, por muito tempo ainda será «mitográfica» ou «mitológica», e uma parte da religião, que vai morrendo a golpes de rotina. Por isso, subsiste inteira a veracidade de Schelling  , quando assevera que a poesia grega nasceu com a mitologia, dando, assim a mais funda razão a Heródoto, o qual afirmara que Homero   e Hesíodo   outorgaram a «teogonia  » aos Helenos, i. é, a história (poética) dos deuses, ou, [183] numa palavra, a mitologia. Mas note-se bem: isto só o podemos asseverar dos Gregos; só da mitologia grega é que está certo o afirmar-se certa co-naturalizade ou co-essencialidade entre mito e poesia, já que a maioria dos poetas gregos nunca cessaram de cantar os seus deuses. Aliás, se assim não fosse, que seria da poesia grega?

A religião grega, aqui, suposta matriz da mitologia e da filosofia, constitui-se, pois, como uma religião que, toda ela, se oculta em sua progénie. Dir-se-ia até que o próprio ser da religião grega reside nesse mesmo ocultar-se em sua descendência. E, inversamente, na Grécia, a mitologia e a filosofia não emergem à luz do sol (história, consciência), senão enquanto a religião imerge nas sombras da noite (pré-história, inconsciente). A poesia e a filosofia devoram a religião, nutrem-se do materno corpo de seu próprio ser. É o reverso do que se nos depara no hesiódico mito de Crono, que não entendia como persistir e subsistir, sem que devorasse seus próprios filhos.

A mitologia grega é, pois, a mitologia que surge (por hipótese ainda não confirmada, e não sabemos se confirmável) de uma religião, cuja essência implica o vir a ser uma filosofia. Ora, ao que nos dizem, a filosofia que a religião grega veio a ser — foi, sucessivamente, uma fisiologia, uma antropologia e uma teologia. E esta é uma das diferenças entre a mitologia e a filosofia: o que a filosofia há-de ser sucessivamente, é-o a mitologia simultaneamente. Mas nem assim se pode afirmar que a filosofia se deduz ou decorre da mitologia. Pois não é esta uma imagem do natural mais uma imagem do humano mais uma imagem do divino. Não é uma soma da qual, por subtracção, se obtém uma ou outra das parcelas.