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Barbuy: Valor e Transcendência

“Revista Brasileira de Filosofia”, vol. X, fasc. 1, 1960

sexta-feira 8 de outubro de 2021

BARBUY  , Heraldo. O Problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio, 1984, p. 239-247

1. Toda teoria? psicologista e relativista do valor?, leva à negação deste último. O valor é um fenômeno da experiência vital, que não comporta explicações fora da Transcendência e da objetividade?. A fenomenologia? permite estabelecer que a nossa vivência íntima do valor é uma vivência da sua objetividade. Metafisicamente o valor é objetivo?: a distinção entre? valor e ser, tão vivamente estabelecida na filosofia? mais autêntica dos valores, não poderia encontrar explicação fora da identificação do Valor e do Ser no Absoluto?; além disso, o valor é objetivo porque o homem? que o realiza, realiza a sua própria essência. Culturalmente os valores são objetivos, porque a própria variação da tábua dos valores de uma cultura? para outra, não poderia dar-se fora da objetividade do valor: o que varia de cultura a cultura não são os valores, mas a perspectiva? particular? em que cada cultura se coloca diante deles. O mesmo se pode dizer da lei? moral?; a universalidade da lei moral não é atingida pelas aplicações variadas e opostas que se dão dela. Cada indivíduo, cada cultura tem uma vivência particular dos valores; esta aparência de pluralismo? nasce, não da relatividade? dos valores, mas da multiplicidade? das captações parciais duma realidade? total. [1]

Poder-se-ia opor à objetividade dos valores, o não serem eles captáveis pelo conhecimento? intelectual, mas pela intuição emotiva, os intentionales Fühlen; a intuição emotiva porém é uma forma? de conhecimento tão válida, ou mais válida que o conhecimento racional?. A experiência augustiniana da iluminação interior e a base emotiva das mais profundas percepções do absoluto, bem como toda a experiência mística atestam a objetividade da intuição emocional?. Não é outra a intuição de São João da Cruz  , que fala? em abater a inteligência, certamente para sentir os eflúvios do sagrado? e do divino. A música não se compreende, sente-se; a grandeza? de uma página wagneriana não pode ser traduzida por nenhum discurso? racional. O valor é objeto? dessa intuição emotiva, graças à qual se pode captar, num momento? de inspiração, o sentido? do transcendente? [2].

Mas, a intuição emocional nem sempre exclui o conhecimento intelectual; pode-se compreender? o que se sente; e pode-se sentir o que se compreende. Em suma?, se a Escolástica sublinhou demais o caráter? intelectual de todo conhecimento, — se ignorou o valor da vida? emotiva — não devemos também confundir o intelectualismo? escolástico com o racionalismo? dos tempos modernos. A palavra? Intelligentia inclui em si o sentido da Intuição, querendo dizer intus legere, ler dentro. Intuição vem de in-tueri, que significa olhar dentro, tendo um sentido correlato ao de inteligência; e em alemão, o termo? intuição, Anschauung?, conserva ainda esta acepção original, significando visão. Não se deve pois separar, nem opor a intuição e a inteligência. Esta oposição foi um dos mais graves erros de Bergson  , que confundiu a inteligência com a razão científica. O intelectualismo escolástico nada? tem de parecido com o racionalismo científico. Todavia, esse? mesmo intelectualismo escolástico, que só acredita na intuição intelectual e na intuição sensível e desconhece a intuição emotiva, não daria conta da captação emotiva dos valores.

O valor é objeto daquela particular intuição espiritual que se encontra nos místicos, nos poetas e nas almas inocentes. A captação emotiva do valor, tal como a demonstraram N. Hartmann   e Max Scheler  , não invalida, mas antes, confirma a objetividade dos valores. [240]

2. Suponho que a objetividade do valor implica a sua transcendência. Porém não há termo de uso? mais largo e mais ambíguo que o de transcendência. Frequentemente, os filósofos de procedência kantiana têm afirmado a transcendência do valor. Mas é preciso saber? de que transcendência se trata. Se a transcendência for entendida em sentido kantiano, como sinônimo de incognoscível, o valor não pode ser transcendente, porque então não seria conhecido; mas como o valor é valor para o sujeito? pessoal ou geral? que o conhece, como esta relação com o sujeito cognoscente é da essência do valor, a conclusão kantiana há de ser, sempre, que os valores são imanentes. A imanência dos valores é inevitável em toda a tradição kantiana. Em Kant   não são apenas os produtos da razão prática que constituem valorações subjetivas; é valoração subjetiva também o objeto da razão pura, porque se todo objeto é determinado pelo sujeito, todo objeto afinal é valoração do sujeito. Tudo é imanente?, não só o reino? da Cultura, mas também o reino da Natureza?. Se tudo é imanente, as cousas perdem o seu significado? próprio, como portadoras de valor, para revestirem os significados que lhes são atribuídos pelo sujeito. Este humanismo? elimina a significação da realidade cósmica e metafísica e pretende tornar o homem o único ser significativo, porque portador da significação dos objetos. É um humanismo inevitável em qualquer teoria kantiana, em qualquer teoria positivista, empirista ou racionalista. — Separado da Natureza, o homem se vê cercado de objetos feitos pela ciência e pela técnica. Podemos lembrar aqui a distinção estabelecida por Heidegger   entre objeto e cousa: interpreto essa distinção, tomando o objeto pelo correlato da razão científica, e a cousa como um centro de significações metafísicas. O objeto é um produto lógico, científico, humano; não tem outro? valor, senão aquele que o homem lhe atribui; a cousa, ao contrário, é portadora de valor, como um foco de significações e de sentidos que o sujeito descobre. Transformada porém a cousa em objeto científico e os fenômenos em fatos? amorfos, fatos e objetos são entidades mortas, que o homem fecunda pela valoração. Uma vez que as ciências da natureza desconheceram e negaram a Natureza, essa fecundação dos objetos e dos fatos pela valoração humana é uma tese? frequente nas teorias do valor. E se é o homem que fecunda os fatos e os objetos pela sua valoração, o valor é então subjetivo?.

Quando se negaram as metafísicas tradicionais, quando se negou o realismo? da cousa, negou-se também a objetividade do real?. Negada a objetividade do real, é contraditório afirmar a objetividade dos valores, exceto como objetividade projetada pelo sujeito, objetividade subjetiva. Esta falsa objetividade se encontra por exemplo? na moral de Kant  : se o imperativo? categórico se funda só na razão humana, se não resulta do acordo? entre as normas da razão e o fundamento? metafísico do dever?-ser, então esse imperativo é subjetivo e não objetivo. O mesmo sucede com os valores: é contraditória a afirmação da transcendência do valor em qualquer teoria que não rejeite os postulados kantianos. Estes postulados, que traem o mais profundo? antropocentrismo?, geraram todas as teorias humanistas do valor.

O humanismo das teorias do valor se revela nas classificações que fazem dos mesmos. Esse humanismo penetra até as teorias metafísicas do valor. Nessas classificações, o valor se apresenta como o que deve ser conhecido, admirado e amado pelo homem, como se o valor valesse porque o homem o ama e não inversamente. Nas teorias subjetivistas, o valor perde a subsistência e se torna simples? produto da vida biológica, ou das operações humanas valorativas.

Mas o valor, ao contrário, se manifesta dotado de insistência metafísica; manifesta-se, digamos, qual um modelo? transcendental?, apreendido imediatamente pela vivência emotiva, sem que isto elimine a sua cognoscibilidade intelectiva. Nesta perspectiva metafísica o valor vale por si e eu? me descubro e me reconheço nele. É, como diria Santo? Agostinho, uma iluminação, por onde transluz o supremo sentido do sagrado e do divino. O homem se realiza em função do valor e não inversamente. O valor não vale porque eu o queira, mas eu o procuro porque ele vale. Tal é uma tese inteiramente válida até o momento em que não incorre no erro? de substituir o ser pelo valor. Menos incorreto seria converter o valor nalgum dos transcendentais? da metafísica medieval, do que ontologisar o valor, pondo-o no lugar? do Ser e tornando inexplicáveis o Ser e o valor. Toda teoria que se recusa a admitir a identificação do ser e do valor no Absoluto, se revela ainda mais incoerente, quando a mesma teoria que sustenta a objetividade do valor, separa o valor e o ser, e declara até mesmo a irrealidade do valor.

Suponho que o valor é uma realidade mais real que a do mundo? contingente?. Que é o modelo, a imagem? que se identifica com o Ser Absoluto. Nega-se porém a realidade do valor quando se opõe o ser ao valor, sob fundamento de que o valor não é, mas vale; e vale como norma? ideal?, ou como condição de possibilidade?, como algo que está fora da existência e da realidade. Em Kant   também, Deus?, a liberdade? e a imortalidade? são postulados da razão prática, são valores, mas isto não quer dizer que existam. Suponho que entre o valor e o ser relativo? ou contingente, há uma distinção, mas não pode haver separação. Scheler  , Hartmann   e Johannes Hessen sabem que o valor só se manifesta aderido a um ser e que sem o ser o valor não se manifesta.

A teoria das relações e das distinções entre o ser e o valor só pode ser exata até o ponto? em que não se confunde o ser com o atual. Parece-me que tal confusão vem de Leibniz  : segundo Leibniz  , o objeto da filosofia não é o ser, mas o possível, porque o possível é mais do que o ser, abrange o que é e o que pode vir a ser. Mas isto é uma concepção que confina o ser ao atual; que supõe que o possível ainda não é ser, mas apenas condição de possibilidade lógica. Ora bem, alargadas as bases desta condição de possibilidade (que também se estenderá ao a-lógico) ela se tornará o mundo dos valores; e esse mundo dos valores será visto, não como distinto, mas como separado do ser, isto é, do atual. — Esta tese poderia ser facilmente refutada pelo filósofo aristotélico sob o justo argumento? de que ela se funda na ignorância de que o ser não é só o atual, mas também o possível.

Suponho que uma filosofia de tipo? aristotélico não está particularmente aparelhada para acolher uma teoria dos valores, porque o aristotelismo? leva a identificar, no contingente e no relativo, o valor com o ser. O valor se apresentará como determinação ou qualidade? do ser, (ou antes, nos quadros da filosofia escolástica, o valor se apresenta como relação de conveniência entre o sujeito e a cousa valiosa; o valor não é o bem? na teoria escolástica, como facilmente se poderia julgar. O bem é o ser como portador de valor e o valor é a própria relação de conveniência; o valor em sentido estrito? é a ratio? boni, ou a razão formal? da bondade?; o valor é uma relação, nos quadros da escolástica, mas uma relação real, não uma simples relação de razão. Onde não houver uma relação real, também não haverá um valor real. É o caso por exemplo da relação de igualdade? entre duas moedas, citado pelos teóricos do valor. A relação de igualdade entre duas moedas é uma relação fundada no real, porque pode haver também duas moedas que não sejam iguais. Entendo portanto que nem todos os argumentos que se têm lançado contra o aristotelismo e o tomismo? na teoria dos valores, são igualmente válidos.) — Em Aristóteles   e em Santo Tomás o ser não é só ato?, mas também é a potência, graças à qual o ato se realiza. Quando se diz que os valores são princípios condicionais, pode-se também entender esta afirmação no sentido de que os valores são potências tendidas para o ato, de que os valores dão a configuração, os limites? e a possibilidade de sua própria realização no existente atual; e, uma vez realizados, ou convertidos em atos, são como formas que dão significado à matéria. — O argumento anti-aristotélico parece que se funda aqui numa confusão do ser com a sua existência efetiva, confundindo-se então o ser com o simples ser fático. É comum a muitos filósofos confundirem o real com o sensível, o ser com os seus acidentes, ou com o que está sujeito às determinações de espaço e tempo?. Mas uma noção assim restrita do real empobrece extraordinariamente o real, reduzindo-o ao que é petrificado e morto e deixando escapar exatamente o que é mais real do que a realidade espacio-temporal?, isto é, deixando escapar o fundamento metafísico do real.

Toda a teoria que não afirmar a plena realidade do valor no Absoluto incorrerá numa separação incabível entre o ser e o valor; é verdade? que não falar?ão em separação mas em distinção; e todavia, tratarão a distinção como se fosse separação; a confusão entre distinção e separabilidade, que vem de Duns Scott e que foi consagrada por Descartes  , tem longa história na filosofia moderna. E por isso é que muitos teóricos, ao dizerem que o ser e o valor são apenas distintos, em verdade os tratam com separáveis e separados.

Ora bem, depois das sutis elaborações da filosofia escolástica, que soube claramente ver o que é distinção e o que é separação, podemos dizer que o ser e o valor são distintos, mas não são separáveis. A essência e a existência são distintas mas inseparáveis; e essa distinção mesma desaparece no absoluto, onde o valor se identifica com o Ser. E nunca se deve esquecer? que, mesmo para os filósofos augustinianos, a distinção entre ser e valor é de ordem? lógica, não de ordem ontológica, e menos ainda de ordem metafísica.

3. Toda separação entre ser e valor vem da negação da transcendentalidade? do ser, tal como essa transcendentalidade foi compreendida pelo realismo tradicional. Desde que a filosofia moderna negou a transcendentalidade do ser, impôs essa absurda separação entre valor e ser. Se o valor está separado do ser, o ser não é transcendental, em sentido metafísico, porque o ser então não abrange tudo, não abrange o valor; e não abrange o valor, porque o valor é concebido, não só como separado do ser, mas também como irreal?. São numerosas as teorias que afirmam a irrealidade do valor. E resultam de uma posição que isola necessariamente o valor e o ser e que poderia ser criticada como arbitrária sob vários pontos de vista: porque os valores, mesmo puros, não estão separados do ser. No Absoluto o valor e o ser são uma só identidade?, e, no concreto? imediato?, o valor só se manifesta quando aderido a um ser, quando um ser se torna seu portador, ou a sua expressão. Ou ainda, se é segundo os valores, ou os modelos externos que a realidade se faz, então os valores são mais que reais, porque é segundo eles que a realidade se faz. São proto-formas ou proto-tipos do real. São a realidade do real. O belo? modelar é mais real que o belo sensível, porque é segundo ele que o belo se realiza no sensível.

Além disso, se o valor é irreal, não se vê como possa ser objetivo e transcendente, exceto no sentido duma transcendência idealista, uma transcendência posta pelo próprio homem. Ora, suponho, a partir da realidade do valor, que é o Transcendente que põe o homem e não o homem a transcendência. Uma transcendência posta pelo homem não tem nenhum alcance metafísico; torna-se mero sinônimo de exterioridade?.

A separação entre ser e valor, juntamente com a confusão entre separação e distinção, vem de uma atitude? que rejeita a existência do absoluto e portanto a possibilidade de fundar o valor no Ser Absoluto.

Ora, se o valor não se fundar metafisicamente no Ser Absoluto, ele se torna imanente, torna-se uma projeção da subjetividade?, de base lógica ou psicológica. Novamente se cairá numa confusão inevitável entre valor e consciência do valor. Abolida a transcendência metafísica, a imanência do valor se torna irremediável; e a vivência do valor não se explicar?á sequer a si mesma, porque não saberá como é que, sendo imanente, se sente a si mesma como em contato com a transcendência. Negado o Absoluto, será inútil evitar o relativismo? e as insuficiências da subjetividade, eliminando o arbítrio da consciência individual, para transferi-lo à consciência de uma cultura ou à consciência do homem em geral. A consciência do homem em geral, ou a consciência de. um grupo? social?, é tão subjetiva como a consciência do indivíduo particular; porque, afinal, a consciência do homem coletivo é apenas uma abstração operada sobre as consciências individuais. A consciência coletiva é uma comunhão de consciências individuais, que não têm suporte?, nem realidade fora destas últimas. — O valor é qualitativo e inespacial, exatamente como a consciência, e, por isso mesmo, o qualitativo e o inespacial do valor, não excluem, por si, a subjetividade do valor, nas teorias que negam o Absoluto. Objetivo não é sinônimo de supra-individual. A única verdadeira objetividade do valor só se pode por com a objetividade e a transcendência do Absoluto, entendidos estes termos fora de qualquer idealismo.

Os grandes teóricos do valor, que foram Max Scheler   e Nikolai Hartmann  , (este último apesar do seu ontologismo?) revelaram suficientemente que, numa teoria dos valores que queira torná-los objetivos, o indivíduo particular ou geral que os avalia não tem importância fundante. Os valores são metafísicos e meta-humanos. São princípios modelares que se fundam no Ser Absoluto e permanecem indiferentes? à corrupção das cousas em que se exprimem.

4. Em suma, parece-me que as meditações axiológicas a que se têm entregue os pensadores deste século, mostraram a impossibilidade? de conciliar a realidade dos valores com qualquer subjetividade antropocêntrica. A filosofia dos valores, para fundar os valores, teve que transpor os limites do racionalismo, do empirismo?, do positivismo? e do idealismo. Teve que afirmar o Espírito?, sem o qual os valores são inexplicáveis. Teve que restaurar a dignidade? da intuição emocional no conhecimento de certas realidades, que a inteligência por si não pode apreender?. Teve que afirmar a existência do Ser Absoluto, sem o qual não se poderia compreender a unidade? metafísica do valor e do Ser.

Por isso disse Johannes Hessen: “Uma filosofia dos valores que não procurasse achar a relação que existe entre os valores e o Ser Absoluto, ou aquela realidade última a que as religiões chamam Deus, seria incompleta”. — E seria também impossível, acrescentamos.


[1Usamos aqui a palavra objetivo, não no sentido de objeto como construção do espírito, mas no sentido de cousa, como realidade exterior e independente do sujeito. O realismo tradicional não era realismo do objeto, mas da cousa. O objeto das ciências é pura construção do espírito e por isso os termos “objeto” e “objetivo” se prestam a grandes equívocos.

[2Não entramos, aqui, na distinção, que certamente existe, entre intuição emotiva e intuição mística. Esta última tem relação com o mistério da Graça.

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