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Schopenhauer (MVR:268-269) – olho cósmico

quinta-feira 20 de fevereiro de 2020

A natureza?, ao apresentar-se de um só golpe ao nosso olhar, quase sempre consegue nos arrancar, embora apenas por instantes, à subjetividade?, à escravidão? do querer, colocando-nos no estado? de puro? conhecimento?. Com isso, quem é atormentado por paixões?, ou necessidades e preocupações, torna-se, mediante um único? e livre olhar na natureza, subitamente aliviado, sereno, reconfortado. I 233 // A tempestade das paixões, o ímpeto dos desejos [1] e todos os tormentos do querer são, de imediato?, de uma maneira maravilhosa, acalmados. Pois no instante? em que, libertos do querer, entregamo-nos ao puro conhecimento destituído de Vontade?, como que entramos num outro? mundo?, onde tudo o que excita a nossa Vontade e, assim, tão veementemente nos [268] abala; não mais existe. Tal libertação do conhecimento eleva-nos tão completamente sobre tudo isso, quanto o sono e o sonho?. Felicidade? e infelicidade desaparecem. Não somos mais indivíduo?, este foi esquecido?, mas puro sujeito? do conhecimento. Existimos tão-somente como olho? cósmico UNO?, que olha a partir de todo? ser? que conhece, porém só no homem? tem a capacidade? de tornar-se tão inteiramente livre do serviço da Vontade. Nesse sentido?, as diferenças de individualidade? desaparecem tão completamente que é indiferente se o olho que vê pertence a um rei poderoso ou a um mendigo miserável. Pois felicidade e penúria não são transportadas além? daqueles limites. Note-se o quão próximo? de nós pode sempre se encontrar um domínio em que podemos nos furtar por completo à nossa penúria! Mas quem tem a força? para nele se manter por longo tempo?? Assim que surge novamente na consciência? uma relação? com a vontade, com a nossa pessoa?, precisamente dos objetos intuídos puramente, o encanto chega ao fim?. Recaímos no conhecimento regido pelo princípio? de razão?. Não mais conhecemos a Ideia?, mas a coisa? isolada, elo de uma cadeia à qual nós mesmos pertencemos. De novo estamos abandonados às nossas penúrias. — A maioria dos homens quase sempre se situa neste ponto? de vista, já que lhes falta? por completo a objetividade?, isto é, a genialidade. Eis por quê de bom grado nunca ficam sozinhos com a natureza; precisam de sociedade?, ao menos de um livro. Seu conhecer permanece servil à Vontade. Procuram, por conseguinte, só por aqueles objetos que têm alguma relação com o seu querer e, de tudo que não possua uma tal relação, ecoa em seu interior, semelhante? a um baixo fundamental, um repetitivo e inconsolável “de nada? serve”. Assim, na solidão?, até mesmo a mais bela cercania assume para eles um aspecto? desolado, cinza, estranho, hostil. (MVR?:268-269)


Ver online : O MUNDO COMO VONTADE E COMO REPRESENTAÇÃO


[1Sturm der Leidenschaften (tempestade das paixões) e Drang des Wunsches (ímpeto dos desejos), justamente termos que compõem o nome do movimento artístico ultra-romântico alemão, Sturm und Drang. Schopenhauer tem aqui em mente, sem dúvida, a inquietação romântica de seu período, cuja obra exponencial foi Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, que, lida por jovens impetuosos e atormentados, muitas vezes não correspondidos amorosamente (como o personagem principal do romance), desencadeou uma onda de suicídios na Europa. (N. T.)

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