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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (FC:145-149) – compreensão e explicação

3.1. O que é “Compreender” ?

terça-feira 9 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 145-149

      

A Filosofia é a investigação do Ser enquanto Ser. Essa investigação não é “metódica”, pois todo método pressupõe o que deve ser investigado: o “eu” que aspira, e o tempo   de “tornar-se outra coisa”. [145] (Fosse “metódica”, a Filosofia seria uma “ciência” a mais, embora sua classificação devesse permanecer irremediavelmente ambígua.) A investigação filosófica tem, portanto, uma dimensão atemporal. Neste Capítulo, pretendo mostrar-lhe, caro amigo desconhecido  , que essa dimensão corresponde à atividade   da verdadeira consciência  , que tantos julgam erroneamente precisar do tempo, como o rio precisa do leu leito. E, ao final do Capítulo, se tudo der certo, já não seremos mais “desconhecidos”.

Sendo ato, a investigação filosófica é compreensão, ou seja, inclusão, pois, se pudéssemos falar, per absurdum, de um “objeto” de compreensão, este só poderia ser a exclusão ela mesma, ou seja, a exclusão do “compreendedor”. Ora, compreender a exclusão é nada excluir, sobretudo não excluir-se, como sujeito. A compreensão tem uma dimensão a-temporal, pois há de se compreender o tempo. Por exemplo: a representação (fenomenológica) do tempo, no cérebro  , não usa tempo cerebral, equivalente ao tempo representado, o que pode significar que a “realidade  ” do tempo percebido é virtual. Tem uma dimensão de “dessubjetivação”, pois há de se compreender o sujeito da compreensão. Por isso, o Ser enquanto Ser que a Filosofia há de compreender é chamado no Oriente de “Vazio  ”, e foi chamado, no Ocidente, de “Nada”. A pergunta pelo Ser nos remeterá, ao longo da investigação, à pergunta por quem faz a pergunta, não porque a pergunta pelo Ser seja uma pergunta pela Existência, mas porque a pergunta pelo Ser é a pergunta que nada exclui. Ora, a pergunta por quem faz a pergunta nos remete, por sua vez, à pergunta pela Consciência.

Ter um ponto de vista é “estar” num ponto, por exclusão de “estar” em qualquer outra parte. Se é “daqui” que investigo, é porque não é “daí”, e de nenhum outro lugar. (Veremos adiante, a propósito do que chamarei de “Falácia Descritiva”, que não é nada fácil conceber-se este “lugar”). Por isso, além do tempo, a Filosofia há de compreender o espaço. Por exemplo: a representação do espaço, no cérebro, não usa espaço cerebral, equivalente ao tempo representado, o que pode significar que a “realidade” do espaço percebido é virtual. Além da dimensão a-temporal — porque compreende o tempo —, e da dimensão a-subjetiva — porque compreende a subjetividade —, a Filosofia tem uma dimensão a-espacial, porque há de compreender o espaço. Compreender o tempo é compreender a dualidade que, ao abrir-se, põe de um lado “o que permanece” e, de outro, sua impermanência, ou o avesso da “duração”; compreender o espaço é [146] compreender a dualidade que, ao abrir- se, põe de um lado “o ponto de vista” que ocupo com inevitável sofrimento   e, de outro, o que ele exclui, ou seja, “o mundo”; compreender aquele que investiga é compreender a dualidade que, ao abrir- se, põe de um lado “o sujeito”, cujo “eu”, como veremos, é uma ilusão  , e, de outro, “o objeto”.

O ato de compreender, ou seja, a investigação filosófica, — essa atividade   privilegiada da consciência —, não é um “movimento  ” dialético. Cabe às ciências especularem sobre a “origem  ” das dualidades, por meio das “terceiras coisas” que se antepõem ou se pospõem às alternativas. A compreensão de uma dualidade não é uma “terceira coisa”, nem aquém, nem além da dualidade mesma, e muito menos um mero “momento” que possa vir-a-ser, por sua vez, um dos pólos de uma dualidade. Nem mesmo com esse tipo de “temporalidade” a compreensão tem a ver. Compreender uma dualidade é compreender a sua abertura, o seu abrir-se, sua polarização, as estruturas geradas por essa polarização, mas não é postular uma totalidade “anterior  ” que se abre, nem uma totalidade “posterior” a que se chega. Não se trata nem de um Em-si, nem de um Para-si, ou do Nada: esta é mais uma dualidade que se há de compreender. Tampouco o ato de compreender é “noesis  ”: trata-se de compreender se a polarização noemato-noética sequer faz sentido.

Não se vem, portanto, não se pode vir de algum lugar quando se compreende, e não se vai a lugar nenhum. Não se vem de uma “Consciência Luminosa” que se obscurece, nem se volta a ela quando se compreende. De algum modo, como veremos, é-se clareza   e obscuridade, agora. A compreensão não faz parte de histórias involutivas e evolutivas. De modo que não se era alguma coisa antes de compreender, e “Isso” não vem, pela compreensão, a ser outra coisa. Todas essas coisas são artes do pensamento, cujas artimanhas hão de ser compreendidas.

Insisto: não é o Ser — na verdade  , uma sublime invenção metafísica — que se abre em dualidades, e não é ao Ser que voltamos quando as compreendemos. Compreender não é um devir. Ao contrário, e mais uma vez: o devir é que há de ser compreendido. E compreender o devir não é pôr-se a “si” do lado do que não passa, do que é imutável  , ou imóvel, ou eterno. Pois assim jamais compreenderíamos a dualidade — o devir e o que sofre o devir. As explicações são sempre parciais, porque necessariamente pressupõem o que não é explicado e, por isso mesmo, torna possível explicar. Já a [147] compreensão é total, porque inclui a dualidade: a explicação e o que é pressuposto. Vai-se de explicação em explicação, de um ponto a outro. Não se vai de compreensão em compreensão a lugar algum. Toda explicação é um avanço crítico, correspondente a um recuo reflexivo. Já a compreensão não é um mover-se: é pura atividade. (Alguém pode estar a mover- se e estar inativo; ou imóvel e ativo.)

O que torna possível uma explicação é o que a torna necessariamente, parcial. Toda explicação é dedutiva, portanto tem pressupostos, e é por isso não se pode explicar tudo. Tampouco se pode explicar algo totalmente, pois um “conteúdo” não se esgota, uma intenção   (Sinn), um ente  , não se esgotam. Nem mesmo o “foco” do que se chama de “intencionalidade” pode limitar, delimitar  , definir, uma intenção. Além disso, explicar é tudo menos um “ato”, um agir. É sobretudo uma reação. Husserl   poderia ter dito, “reato”, um mover-se, um avanço crítico por meio de um recuo reflexivo. Explicações têm condições transcendentais. E há teorias da explicação. Mas não pode haver teoria   da compreensão.

Não é nem mesmo que só haja compreensão “da Totalidade”. Não é isso que quero dizer quando afirmo que só há compreensão total, e só há explicação parcial. É a compreensão que é total, não o seu “objeto”— uma presumida “Totalidade”—, pois há de se compreender a dualidade sujeito-objeto. A compreensão não compreende “Totalidade” alguma — trata-se de outra invenção metafísica —, do mesmo modo que as dualidades compreendidas não provêm de uma “Totalidade” que se abre.

Como é difícil, dados os nossos hábitos (tanto ocidentais quanto orientais), falar de compreender, sem se deixar enredar nas múltiplas teias dos “idealismos absolutos”, ou de seus inimigos íntimos, os “realismos transcendentais” dos fenomenólogos. Já vejo o leitor a perguntar, então, se pode haver mais de uma compreensão; se é possível compreender-se mais de uma vez; ou se é possível compreender mais de uma coisa; ou, ainda, se é possível “aprofundar”, em algum sentido, a compreensão. Digamos: há infinitas compreensões, que jamais se repetem; elas não se ordenam no tempo, embora sejam atividade precípua da verdadeira consciência; o que se há de compreender é infinito  , embora possa ser um grão   de poeira, um mosquito, ou uma montanha; e cada ato de compreender é “de uma vez por todas e de uma só vez”. Mas não pode haver uma “teoria” da compreensão: esta não pode objetivar-se; não é “datável”, não tem [148] história; não é “analisável”, não tem partes; não é “psicanalisável”, não tem inconsciente. Não quero para a Filosofia nada menos. Dir-se-ia que quero o impossível, se compreender não fosse ainda compreender o querer. Só se explica o possível. Só se “quer”, ou “deseja” o possível. De modo que, digamos: só há compreensão se ela for “impossível”.


Lembre-se o leitor que, em Ciência, trata-se de explicação, não de compreensão, pois só as explicações aumentam nosso "espaço de manobra" manipulador (o poder). Mas a parcialidade das explicações consiste, em ciência, em que uma coisa só se pode explicar em termos de outra coisa, jamais em seus próprios termos. (Ibid. p. 215-216)