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Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica

Husserl (IFP:108-110) – Contingência da «tese» do mundo

Capítulo II - Consciência e efetividade natural (§46)

quarta-feira 13 de outubro de 2021

HUSSERL, Edmund. Ideias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica: introdução geral à fenomenologia pura. Tr. Márcio Suzuki. Aparecida: Ideias & Letras, 2006, p.

Toda percepção? imanente? garante necessariamente a existência? de seu objeto?. Se a apreensão? reflexiva se dirige a meu vivido?, apreendi um “algo ele mesmo” absoluto?, cuja existência não pode por princípio? ser? negada, ou seja, é impossível? por princípio a evidência? de que ele não seja; seria um contra-senso? tomar por possível? que um vivido assim dado? na verdade? não seja. Por maior que seja a extensão? inapreensível do fluxo de vividos, do meu fluxo de vividos, isto é, do pensante, por desconhecido que ele seja nos trechos já transcorridos ou por vir, assim que dirijo meu olhar para a vida? fluindo em seu presente efetivo? e nela apreendo a mim mesmo? como o puro? sujeito? desta vida (devemos mais tarde? nos ocupar particularmente do que isso quer dizer), eu? digo de maneira cabal e necessária: eu sou?, esta vida é, eu vivo: cogito?.

Faz parte? de todo? fluxo de vivido, e do eu como tal, a possibilidade? de princípio de alcançar essa evidência; todos trazem em si mesmos a garantia? de sua existência absoluta como possibilidade de princípio. Mas não é possível, poder-se-ia perguntar, que um eu tenha apenas ficções em seu fluxo de vivido, não é possível que este seja constituído de nada? mais que de intuições fictícias? Tal eu depararia, pois, somente com ficções de cogitationes?, suas reflexões seriam, pela natureza? desse meio? de vivido, exclusivamente reflexões na imaginação?. — Isso é, no entanto, contra-senso manifesto. Mesmo que aquilo que é vacilante seja um mero ficto, o vacilar ele mesmo, a consciência? fictícia ela mesma não é uma consciência fingida, e faz parte de sua essência?, como de todo vivido, a possibilidade da reflexão? perceptiva, da reflexão que [109] apreende a existência absoluta. Não há contra-senso na possibilidade de que todas as consciências alheias, cuja existência ponho por experiência? empática, não existam. Minha emparia e minha consciência em geral? estão originária e absolutamente dadas, não apenas segundo a essência, mas segundo a existência. Só para o eu e para o fluxo de vivido em referência? a si mesmo subsiste essa situação? diferenciada, somente aqui há e tem de haver algo como percepção imanente.

Em contraposição? a isso, faz parte, como sabemos, da essência do mundo?-de-coisas? que nenhuma percepção, por perfeita que seja, dê um absoluto cm sua esfera?, e a isso está essencialmente ligado que toda experiência, por mais ampla que seja, deixa aberta a possibilidade de que o dado não exista, a despeito da consciência constante da presença? dele mesmo em carne? e osso. Vale aqui a seguinte lei? eidética?: a existência da coisa jamais é uma existência exigida como necessária pelo dado, mas de certo modo? é sempre contingente?. Quer dizer: sempre pode ser que o transcurso posterior da experiência obrigue a abrir mão daquilo que já está posto com legitimidade empírica. Aquilo foi, diz-se depois, mera ilusão?, alucinação?, mero sonho? concatenado etc. Acrescente-se que nessa esfera de dados está constantemente aberta a possibilidade de algo como uma mudança? de apreensão, a alteração? de uma aparição numa outra que não se coaduna coerentemente com ela e, assim, a possibilidade de que posições de existência empírica posteriores influam sobre posições de existência anteriores, pelo que os objetos intencionais destas sofrem ulteriormente, por assim dizer, uma transformação? — eventos estes que estão por essência excluídos da esfera de vivido. Conflito, ilusão, ser outro? não têm espaço? na esfera absoluta. Ela é uma esfera de posição? absoluta.

Assim, pois, está de todas as maneiras claro que tudo aquilo que está para mim aí no mundo-de-coisas, é por princípio somente realidade? presuntiva; mas está claro, ao contrário, que eu mesmo, para quem aquilo está aí (por exclusão daquilo que é “por mim” atribuído ao mundo-de-coisas), mais exatamente, que minha atualidade? de vivido é efetividade absoluta, dada por tuna posição incondicionada, pura e simplesmente insuprimível.

A tese? do mundo, que é uma tese acontingente”, contrapõe-se, portanto, a tese de meu eu puro e da vida do eu, que é uma tese “inecessária”, pura e simplesmente indubitável. Toda coisa dada em carne e osso também pode não ser, mas não um vivido dado em carne e osso: tal é a lei de essência que define? essa necessidade? e aquela contingência?.

A necessidade de ser de cada vivido atual não é, por isso, manifestamente uma pura necessidade de essência, ou seja, particularização eidética pura de uma lei de essência; é a necessidade de um fato?, que assim é chamada porque [110] uma lei de essência toma parte no fato e aqui, inclusive, na sua existência como tal. Na essência de um eu puro em geral e de um vivido em geral se funda a possibilidade ideal? de uma reflexão que possui o caráter? eidético? de uma tese de existência evidente e insuprimível. [1]

A reflexão que acaba de ser feita também torna claro que nenhuma prova? imaginável tirada da consideração empírica do mundo nos certifica, com segurança absoluta, da existência do mundo. O mundo não é duvidoso no sentido? de que podería haver motivos racionais consideráveis contrapondo-se à enorme força? das experiências coerentes, mas no sentido de que uma dúvida? é pensável, e o é porque jamais está excluída a possibilidade do não ser, como possibilidade de princípio. Por grande que seja, toda força empírica pode ser aos poucos contrabalançada e sobrepujada. Isso em nada altera o ser absoluto dos vividos, aliás, eles sempre permanecem como pressuposto? de tudo isso.

Nossas considerações atingem, assim, um ponto? culminante. Alcançamos os conhecimentos de que precisamos. Nos nexos eidéticos que se abriram para nós já estão contidas as premissas mais importantes para as conclusões que pretendemos tirar sobre se o mundo natural? inteiro pode ser separável por princípio do domínio da consciência, da esfera de ser dos vividos; conclusões nas quais, como podemos nos convencer, finalmente ganha legitimidade um dos cernes das meditações de Descartes? (cujos objetivos eram inteiramente outros), que ainda não se revelou em toda a sua pura força. Posteriormente, sem dúvida, ainda serão necessários alguns complementos, de resto fáceis de fazer, para atingir nossas metas últimas. Nós tiramos preliminarmente nossas consequências num âmbito de validez limitado.


Ver online : Ideias para uma fenomenologia pura


[1Trata-se, portanto, de um caso bem relevante entre aquelas necessidades empíricas mencionadas no § 6, ao final do segundo parágrafo, p. 40 deste trabalho. Sobre isso, cf. também a Terceira Investigação, no volume II da nova edição das Investigações Lógicas.

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