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A Filosofia como Ciência de Rigor

Husserl (FCR:72-73) – O ideal do radicalismo

quarta-feira 13 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

HUSSERL  , Edmundo. A Filosofia como Ciência de Rigor  . Tr. Albin Beau. Coimbra: 1992, p. 72-73

      

Certamente precisamos também da História. Não ser  á ao modo dos historiadores, perdendo-nos nas continuidades evolutivas que estão na origem das grandes Filosofias, mas será, sim, para que a própria substância espiritual delas exerça sobre nós a sua acção sugestiva. De facto, estas Filosofias históricas exalam uma vida filosófica na plenitude   da sua riqueza   e do seu vigor de motivações vivas, desde que saibamos penetrar intuitiva mente   nelas, na alma   das suas palavras e teorias. Mas não é com as Filosofias que chegamos a ser filósofos. Não passar da História, preocupar-se com ela numa actividade histórico-crítica, e pretender chegar à Ciência filosófica, em elaborações eclécticas ou renascenças anacrônicas, não são mais do que tentativas desesperadas. Não é das Filosofias que deve partir o impulso da investigação, mas, sim, das coisas e dos problemas. A Filosofia, porém, é por essência uma ciência dos inícios verdadeiros, das origens, dos rizomata panton. A ciência do radical tem que proceder também radicalmente, e a todos os respeitos. Sobretudo ela não [73] deve descansar antes de ter chegado aos seus inícios, isto é aos seus problemas absolutamente claros, aos métodos delineados no próprio sentido destes problemas, e ao campo   ínfimo da laboraçao de coisas de apresentação absolutamente clara. Somente, nunca se deve renunciar à independência radical de preconceitos, — sendo, pois, mister deixar-se de identificar de antemão semelhantes «coisas» com «factos» empíricos e de ficar cego   perante as idéias, de ampla apresentação absoluta na ideação directa. Somos demasiado dominados por preconceitos que provêm ainda da Renascença. Aquele que é deveras independente de preconceitos, não se importa com uma averiguação ter a sua origem em Kant   ou Tomás de Aquino  , em Darwin ou em Aristóteles, em Helmholtz ou em Paracelso  . Não é preciso postular-se que se veja com os próprios olhos, mas antes que se deixe de eliminar o visto numa interpretação que os preconceitos impõem. Como nas ciências modernas mais impressionantes, que são as matemáticas e físicas, a parte exteriormente maior dos trabalhos segue os métodos indirectos, somos demasiado inclinados a sobrestimar os métodos indirectos e a depreciar o valor   das percepções directas. Mas é precisamente próprio da Filosofia, desde que remonte às suas origens extremas, o seu trabalho   científico situar-se   em esferas de intuição   directa, e constitui o maior passo a dar pela nossa época, reconhecer  -se que a intuição filosófica no sentido autêntico, a percepção fenomenológica do Ser, abre um campo imenso de trabalho e leva a uma ciência que, sem todos os métodos indirectamente simbolizantes e matematizantes, sem o aparelho das conclusões e provas, não deixa de chegar a amplas intelecções das mais rigorosas e decisivas para toda a Filosofia ulterior.


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