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Lógica Formal e Lógica Transcendental

Husserl (LFLT:369-370) – Relatividade das verdades

quarta-feira 13 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

    

Lógica   Formal e Lógica Transcendental, trad. S. Bachelard  , Presses Universitaires de France, pp. 369-370

    

O comerciante no mercado tem a sua verdade   — a do mercado; não será ela, na sua esfera  , uma boa verdade e a melhor que possa ser útil ao comerciante? Será ela aparência de verdade pelo fato do sábio  , noutra relatividade e julgando com outros objetivos e outras ideias, buscar outras verdades com as quais se pode fazer muito mais, mas justamente não o que é preciso fazer-se no mercado ? Devemos finalmente cessar de deixar-nos cegar pelas ideias ideais e reguladoras e pelos métodos das ciências «exatas», e em particular na filosofia e na lógica  , como se o em-si destas fosse realmente uma norma absoluta, tanto no que diz respeito ao ser do objeto como no que respeita à verdade. É o que se chama realmente, perante as árvores, não ver a floresta. É o que se chama não notar (para bem de uma realização   grandiosa do conhecimento, mas que guarda   um sentido teleológico muito limitado) os infinitos aspectos da vida e do seu conhecimento, os infinitos aspectos do ser relativo e, tomado unicamente por esta relatividade de ser racional, é não notar as verdades relativas deste ser racional. Mas filosofar sobre este assunto de antemão e superficialmente é um absurdo fundamental, cria um relativismo céptico absurdo e o não menos absurdo absolutismo lógico, sendo cada um espantalho para o outro, derrotando-se ora um ora outro e renascendo de novo, como as figuras num teatro   de marionetes.

Julgar numa evidência ingênua significa julgar sobre a base de uma doação da coisa «mesma» e submetendo-se à constante questão: o que é que devemos aí «ver» efetivamente e o que devemos chegar a exprimir fielmente? Trata-se, portanto, de julgar com o mesmo método que, na vida prática, segue o homem   avisado e previdente quando está seriamente empenhado em «chegar a descobrir como são efetivamente as coisas». É esse o começo de toda a sabedoria  , ainda que não seja o seu fim, e é uma sabedoria sem a qual, por muito que nos adiantemos na teorização, nunca podemos passar — sabedoria que, afinal, devemos também manifestar   na esfera da fenomenologia absoluta. Pois... a atividade   ingênua da experiência e a atividade ingênua do juízo   são atividades iniciais por necessidade   de essência  . Mas na seriedade   da tomada de consciência   não se trata de uma ingenuidade despreocupada, mas da ingenuidade da intuição original com a vontade de se basear puramente naquilo que ela realmente dá.


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