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A Filosofia como Ciência de Rigor

Husserl (FCR:53-54) – Valor supra-histórico da filosofia

quarta-feira 13 de outubro de 2021

HUSSERL  , Edmundo. A Filosofia como Ciência de Rigor. Tr. Albin Beau. Coimbra: 1992, p. 53-54

O matemático também não irá dirigir-se à História para receber ensinamento sobre a verdade? das teorias matemáticas; não lhe há de ocorrer relacionar a evolução histórica das noções e dos juízos matemáticos com a questão da Verdade. Como havia, pois, o historiador de decidir sobre a verdade dos sistemas filosóficos existentes, ou até sobre a possibilidade? de uma ciência filosófica, em si de valor?? E que havia ele de trazer para abalar a fé do filósofo na sua ideia?, que é a de uma Filosofia? verdadeira? Quem nega um determinado sistema?, assim como quem nega toda a possibilidade ideal? de um sistema filosófico, precisa de apresentar razões. Os factos históricos da evolução, mesmo os mais gerais do modo? da evolução de qualquer sistema, podem constituir razões e até boas razões. Mas as razões históricas não podem originar senão resultados históricos. Pretender fundamentar ou refutar ideias? com factos, é um contra-senso? — ex pumice aguam, segundo a citação de Kant   [1].

Por conseguinte, a História não tem argumentos relevantes a opor, nem à possibilidade de valores absolutos em geral?, nem à possibilidade de uma Metafísica absoluta, isto é científica, e de outra Filosofia, em especial. Até como História, nunca pode apresentar razões para a afirmação de que até agora? não tenha havido nenhuma filosofia científica, — as suas razões pode ir buscá-las apenas a outras fontes de inteleccão [54], e estas parece que já são filosóficas. Pois é claro ainda que a crítica filosófica, desde que realmente pretenda ser? d-valor, é filosófica, implicando no seu sentido? a possibilidade ideal de uma Filosofia sistemática qual ciência de rigor. A afirmação absoluta de toda a Filosofia científica ser quimérica, em virtude? das tentativas pretendidas no decurso de milênios tomarem provável a impossibilidade? intrínseca desta Filosofia, não só é errada, porque não seria boa indução concluir dos poucos milênios de cultura? superior? para um futuro? ilimitado?, — é um contra-senso absoluto? como 2 x 2 = 5. E é-o pela razão aludida. Se a crítica filosófica depara com algo cuja refutação possa ter? valor objectivo?, haverá também campo? para fundamentações de valor objectivo. Se, porém, se provou que os problemas não foram postos exactamente, deve ser possível acertá-los e deve haver problemas acertados. Se a crítica prova? que a Filosofia histórica opera com conceitos? confusos, confundindo conceitos e sofismas?, isto implica — quando não se quer cair em absurdidades — a distinção, clarificação e diferenciação ideal dos conceitos, a possibilidade de se chegar, no campo dado?, a conclusões certas, etc. Toda a crítica justa, penetrante, ela própria, já oferece os meios do progresso?, indicando idealiter os fins e os caminhos certos, e assim, uma ciência de valor objectivo. Naturalmente poderia objectar-se ainda que a insustentabilidade histórica de uma realização espiritual como facto nada? tem com a insustentabilidade no sentido do valor; o que, como todo? o exposto até aqui, tem a sua explicação em todas as esferas de valor pretendido.


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[1Dilthey refuta igualmente o cepticismo historicista; mas «u não compreendo como ele pode julgar que a sua análise, tão instrutiva tia estrutura e do tipismo das ideologias, lhe haja proporcionado razões decisivas contra o cepticismo. Pois, como está exposto no texto, uma ciência moral, mas empírica, não pode argumentar nem contra, nem a favor de algo que pretenda ter valor objectivo. O caso modifica-se — e parece ser isto que ultimamente preocupa o seu pensar — quando a orientação empírica que mira à compreensão empírica, é substituída pela orientação, fenomenológica que mira o Ser.