Página inicial > Modernidade > Lovejoy (GCS:34-35) – filosofia outra-mundana

A Grande Cadeia do Ser

Lovejoy (GCS:34-35) – filosofia outra-mundana

domingo 17 de outubro de 2021

LOVEJOY  , Arthur. A Grande Cadeia do Ser. Um Estudo da História de uma Ideia. Tr. Aldo Fernando Barbieri. São Paulo: Editora Palíndromo, 2005, p. 34-35

Tal é o credo? comum? na filosofia? outra-mundana?; ele é suficientemente familiar?, mas devemos tê-lo explicitamente perante nós como plano? de fundo contrastante para o que se segue. Este é um tipo? persistente e que foi, de uma forma? ou de outra, a filosofia oficial dominante de grande parte? da humanidade? civilizada ao longo da maior parte de sua história?, não preciso aqui recordar. A maior parte das mentes especulativas mais sutis e dos grandes mestres religiosos? se engajou, à sua própria maneira e com diferentes graus de rigor e meticulosidade, em desmamar o pensamento? do homem? ou suas afecções?, ou ambos, de sua mãe Natureza? — muitos dos quais, de fato?, buscando persuadi-lo de que ele precisa na verdade? voltar a nascer, em um mundo cujos bens? não são os bens da Natureza e cujas realidades ele não pode conhecer? por meio? desses processos? da mente? pelos quais ele trava conhecimento? com seu ambiente? natural e com as leis? às quais seus estados sempre mutáveis se conformam. Eu? disse “filosofia oficial” porque não há? nada?, pelo que suponho, mais evidente que o fato de que muitos homens, por mais que tenham professado aceitá-la e tenham até encontrado nos raciocínios ou na retórica? de seus expositores uma espécie? de pathos? metafísico? congenial e comovente — que é parcialmente o pathos do inefável? —, nunca acreditaram nela integralmente. uma vez? que nunca foram capazes de negar às coisas? descobertas pelos sentidos? uma espécie de realidade? genuína, imponente e verdadeiramente importante e nunca desejaram realmente para si mesmos o fim? que a outra-mundanidade lhes ofereceu. Os grandes metafísicos puderam buscar demonstrar? essa verdade, os santos puderam em alguma medida? dar forma às suas vidas? de acordo? com ela, os místicos? puderam voltar de seus êxtases? e relatar balbuciando uma experiência? direta desse contato com a realidade absoluta e com o único? bem satisfatório que ela proclamou; mas a Natureza em seu vigor? tem sido por demais poderosa para isso. Enquanto o homem comum pôde admitir a demonstração do metafísico, humilhar-se perante o santo? e crer, sem declarar compreendê-lo, no relato? do místico, ele continuou manifestamente a encontrar algo muito sólido e arrebatador no mundo em que sua própria constituição? estava tão profundamente enraizada e com o qual estava tão intimamente entrelaçado; e, mesmo? que a experiência tivesse aniquilado suas esperanças e que com a idade o gosto? da vida se tivesse tornado maçante e insípido, ele buscou conforto em alguma visão? de um melhor “este-mundo" por vir, no qual nenhum desejo? deveria carecer de satisfação? e seu próprio apetite? pelas coisas fosse permanentemente revitalizado. Esses fatos, deve-se observar? a propósito?, não significam que o caráter? e o tom gerais de uma sociedade? na qual, ao menos nominalmente, uma filosofia outra-mundana é amplamente aceita ou oficialmente dominante sejam pouco afetados por essa circunstância. O espetáculo da Europa medieval ou da Índia, antes ou mesmo desde sua infecção com a praga ocidental do nacionalismo?, é prova? suficiente do contrário. Onde alguma forma de outra-mundanidade é difusamente professada, a escala de valores? socialmente predominantes é bastante moldada por ela e os principais temas? e objetivos? do esforço? intelectual? recebem dela seu caráter. O homem “mundano" em uma tal sociedade costuma reverenciar — e normalmente é obrigado a apoiar — a minoria que, de maneira mais ou menos completa e sincera, se desviou da procura de bens temporais e se afastou da balbúrdia do mundo no qual ele está absorto de maneira nada desagradável?; e, por um paradoxo? conhecido, exemplificado frequentemente na Europa medieval, assim como na índia contemporânea, não é incomum que o poder? dirigente nos negócios deste mundo recaia, ou seja constrangido a isso, nas mãos? daqueles que dele se retiraram. O filósofo outro-mundano se faz governante, ou governante secreto do governante, o místico ou o santo se tornam os mais poderosos e, às vezes, os mais sagazes dos políticos. Talvez não haja nada mais favorável ao sucesso? nos negócios deste mundo do que um alto grau? de desapego? emocional? dele.


Ver online : A Grande Cadeia do Ser