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O MITO DO PROGRESSO

Barbuy: Progresso (10) - progresso indefinido

“Revista Brasileira de Filosofia”, vol. I, fasc. 3, 1951

quinta-feira 7 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

BARBUY  , Heraldo. O Problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio, 1984, p. 116.

      

10. Mas a ideia do progresso ilimitado, não é apenas uma adulteração do testemunho bíblico do paraíso perdido: e também uma grotesca materialização da doutrina católica da salvação  . O Cristianismo instaurou uma noção   do progresso toda espiritual, como de uma purificação e ascensão   para o alto: tal é também a fisionomia das torres góticas que se afilam na proporção em que ascendem. Mas a ideia cristã do progresso é a de um progresso individual, pelo aperfeiçoamento   interior, na ascensão vertical em que consiste o cumprimento do destino sobrenatural; o homem  , o mais perfeito dos seres materiais e o menos perfeito dos seres espirituais, composto de alma   e corpo, ponte de passagem entre o mundo da matéria e o universo   do espírito  , é dotado de superiores faculdades intelectivas, anorgânicas, que não se explicam pelo corpo e que imprimem na sua essência   e destinação superior para a Suma Verdade   a que tende a Inteligência   e para o Sumo Bem, a que tende a Vontade. [1] Não tendo a vida humana um fim unicamente terreno e sim um fim sobrenatural, o selo do homem não é a sua politicidade como quiseram as teorias antropocêntricas, nem a sua economicidade como pretenderam as teorias materialistas e sim a sua religiosidade: o homem age para um fim último que não é terreno e o sentido legítimo do seu progresso é o da sua ascensão para o último fim. E este fim não é em essência coletivo ou social — porque a sociedade sendo meio e não fim, não é nada mais que uma unidade   de ordem — e sim individual, porque só a pessoa   é substância e só a pessoa tem um fim.

No entanto, a perspectiva essencialmente moral, vertical e definida que o Cristianismo formulou do progresso foi adulterada pelo mito   de perfectibilidade indefinida, como logo se vê: este mito transpõe a doutrina da ascensão individual na direção   do reino celeste, para o exclusivo domínio   do coletivo [117] e do social, desnaturando a essência mesma da sociedade, como a desnaturou todo sociologismo, depois de haver desnaturado a essência mesma da pessoa. Desde então, o progresso deixa de ser espiritual, vertical e pessoal para se reduzir a um único progresso material, horizontal e social. A transpolação é clara porque: a noção cristã da projeção   da pessoa para o alto se traduz aqui no mito da projeção da sociedade para a frente. Ora, o termo do progressismo social é um paraíso terrestre em que facilmente se trai a adulteração da doutrina cristã do reino celeste. O progressismo, longe de conseguir abolir a crença no reino celeste, nada mais faz do que desfigurá-lo, recalcando-o nas dimensões sociais, políticas e econômicas da existência terrestre.

De modo que, o mito do progresso indefinido, defraudando a dupla afirmação   religiosa do paraíso perdido pelo pecado   e do reino celeste havido pela redenção, procurou inutilmente fornecer um sucedâneo para instituições religiosas que teve a ilusão   de destruir através do racionalismo e do naturalismo-científico.


[1Como disse Santo Tomás numa das muitas passagens sobre o fim último do homem: “Impossibile est beatitudinem hominis esse in aliquo bono create Beatitudo enim est bonum perfectum, quod totaliter quietat appetitum; alioquin non esset ultimus finis, si adhuc restaret aliquid appetendum. Obieetum autem voluntatis, quae est appetitus humanus, est universale bonum, sicut obieetum intellects est universale verum. Ex quo patet, quod nihil postest quietare voluntatem hominis, nisi bonum universale; quod non invenitur in aliquo creato, sed solum in Deo, quia omnis creatura habet bonitatem participatam. Unde solua Deus voluntatem hominis kopiere poste. (Summa theol, 1, 2 q. 2 a 8).