Página inicial > Antiguidade > Vernant (Mito) – Do Mito à Razão

Pensamento Antigo Ocidental

Vernant (Mito) – Do Mito à Razão

A formação do pensamento positivo na Grécia arcaica

terça-feira 5 de setembro de 2023, por Cardoso de Castro

      

A formação do pensamento   positivo na Grécia arcaica[[Publicado em Annales, Economies, Sociétés, Civilisations, 1957, pp. 183-206. (Também neste capítulo, aproveitamo-nos em muitos pontos do texto português publicado nas páginas 75-109 da obra acima citada: cf. p. 244, n." 1, N.T.).

      

O pensamento   racional tem um registro civil: conhece-se a sua data e o seu lugar de nascimento. Foi no século VI antes da nossa era, nas cidades gregas da Ásia Menor, que surgiu uma forma de reflexão nova, inteiramente positiva, sobre a natureza. Burnet exprime a opinião   corrente quando observa a este propósito: "Os filósofos jônios abriram o caminho   que a ciência não fez depois senão seguir [1]". O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaram assim o começo do pensamento científico, — poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos   ter-se-ia pela primeira vez libertado do mito   como as escaras caem dos olhos do cego  . Mais do que uma mudança   de atitude intelectual, do que uma mutação mental, tratar-se-ia de uma revelação decisiva e definitiva: a descoberta do espírito [2]. Seria por isso vão procurar no passado   as origens do pensamento racional. O pensamento verdadeiro não poderia ter outra origem senão ele próprio. É exterior à história, que só pode, no desenvolvimento do espírito, dar a razão de obstáculos, de erros e de ilusões sucessivas. Tal é o sentido do "milagre  " grego: através da filosofia dos jônios, reconhece-se a Razão intemporal encarnada no tempo. O aparecimento do logos introduziria portanto na história uma descontinuidade radical. Viajante sem bagagem, a filosofia viria ao mundo sem passado, sem pais  , sem família; seria um começo absoluto.

Nesta perspectiva, o homem   grego acha-se assim elevado acima de todos os outros povos, predestinado; nele se encarnou o logos. "Se inventou a filosofia, opinava ainda Burnet, deve-o às suas qualidades de inteligência excepcionais: o espírito de observação aliado ao poder do raciocínio" [3]. E, para além da filosofia grega, esta superioridade   quase providencial transmite-se a todo o pensamento ocidental, surto do helenismo.


No decurso dos últimos cinquenta anos, a confiança do Ocidente neste monopólio da razão foi todavia abalada. A crise da física e da ciência contemporâneas minou os fundamentos — que se julgavam definitivos — da lógica clássica. O contato com as grandes civilizações espiritualmente diferentes da nossa, como a da Índia e a da China, rompeu os quadros do humanismo tradicional. O Ocidente já não pode hoje considerar o seu pensamento como sendo o pensamento, nem saudar na aurora   da filosofia grega o nascer do sol do Espírito. Em uma época em que se inquieta pelo seu futuro e em que põe em dúvida os seus princípios, o pensamento racional volta-se para as suas origens: interroga o seu passado para se situar, para se compreender historicamente.

Duas datas escalonam este esforço. Em 1912, Cornford publica o seu livro From religion to philosophy, no qual pela primeira vez tenta estabelecer o liame que une o pensamento religioso e os começos do conhecimento racional. Só muito mais tarde, no fim de sua vida, voltou a ocupar-se   deste problema. E é em 1952 — nove anos após a sua morte— que aparecem, agrupadas sob o título de Principium   Sapientiae. The origins of greek philosophical thought, as páginas em que estabelece a origem   mítica e ritual da primeira filosofia grega.

Opondo-se a Burnet, Cornford mostra que a "física" jônia nada tem de comum com o que nós designamos por ciência: ignora inteiramente a experimentação e não é tampouco o produto da inteligência observando diretamente a natureza. Transpõe, numa forma laicizada e em um plano de pensamento mais abstrato, o sistema de representação que a religião elaborou. As cosmologias dos filósofos retomam e prolongam os mitos cosmogônicos. Dão uma resposta   ao mesmo tipo de pergunta: como pode emergir do caos   um mundo ordenado? Utilizam um material conceituai análogo: por detrás dos "elementos  " dos jônios, perfila-se a figura de antigas divindades da mitologia. Ao tornarem-se "natureza", os elementos despojaram-se do aspecto de deuses individualizados; mas permanecem as potências ativas, animadas e imperecíveis, sentidas ainda como divinas. O mundo de Homero  , ordenava-se por uma partilha, entre os deuses, dos domínios e das honras: a Zeus  , o céu "etéreo  " (aither  , o fogo  ); a Hades  , a sombra "nevoenta" (aer  , o ar); a Posidão, o mar; aos três em comum, Gaia  , a terra, onde vivem e morrem os homens [4]. O cosmo dos jônios organiza-se segundo uma divisão das províncias, uma partilha das estações entre forças opostas que se equilibram reciprocamente.

Não se trata de uma vaga analogia  . Entre a filosofia de um Anaximandro   e a Teogonia   de um poeta inspirado como Hesíodo, Cornford mostra que as estruturas se correspondem até no pormenor [5]. Mais ainda, o processo de elaboração conceituai que tende à construção naturalista do filósofo está já em gestação no hino religioso de glória a Zeus que o poema hesíodico celebra. O mesmo tema mítico de ordenamento do mundo repete-se aí, com efeito, sob duas formas que traduzem níveis diferentes de abstração  .


Ver online : Jean-Pierre Vernant


[1Early Greek philosophy, Londres, 1920, p.v. O obra foi traduzida em francês com o título: L’Aurore de la philosophie grecque.

[2Encontra-se ainda esta interpretação em Bruno Snell, cuja perspectiva é, no entanto, histórica: Die Entdeckung des Geistes. Studien zur Entstehung des europäischen Denken bei den Griechen, Hamburgo, 1955; trad. inglesa com o título: The discovery of the Mind, Oxford, 1953.

[3Op. cit., pág. 10. Como escreveu Clemence Ramnoux, a física jônia, segundo Burnet, salva a Europa do espírito religioso do Oriente: é a Maratona da vida espiritual ("Les interprétations modernes d’Anaximandre", Revue de Métaphysique et de Morale, n.° 3, 1954, pp. 232-252.

[4Ilíada, XV, 189-194.

[5Principium sapientiae, Cambridge, 1952, pp. 159-224. A demonstração é retomada por George Thomson, Studies in ancient greek society, vol. II, The first philosophers, Londres, 1955, pp. 140-172.