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Considerações sobre a crise do senso comum

Barbuy: senso comum (12) - monotonia

Revista Brasileira de Filosofia, vol. III, fasc. 4, 1953

quinta-feira 7 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

BARBUY  , Heraldo. O Problema do ser e outros ensaios. São Paulo: Convívio, 1984, p. 168-171.

      

12. A monotonia   nasce da planificação científica do tempo, da insensibilidade para o ritmo e a duração. Ela explica a soturna resignação das massas urbanas, a passividade das filas uniformes, engendra o coletivismo e esclarece a [168] ruptura intermitente de violências irreprimíveis: a monotonia explica as guerras internacionais, como explosões inevitáveis; tal a necessidade   incoercível de quebrar a monotonia, para saltar fora do círculo de ferro da igualdade de todos os momentos. É estreita a correlação entre a explosão das guerras internacionais e o universal   aborrecimento, que é consequência da monotonia. Por parodoxal que pareça, essas explosões irracionais significam ainda uma vontade de viver  , que se dissolve inteiramente quando a monotonia final estende sobre todas as cousas o silêncio da morte irremediável. As guerras precisamente, ou irrompem nos centros de condensação histórica ou em função desses centros, porque é neles que se torna mais insuportável o conflito entre a cultura e a monotonia. Tal é o extravasamento da luta   entre a reminiscência do heroico e o quotidiano da existência planificada; na superfície aparecem como guerras econômicas ou ideológicas; mas, na profundeza, é o lance para gerar algum acontecimento   numa época que tende a apagar até o sentido da acontecimento; quando se unirem todos os pontos do espaço matematizado, os fatos formarão uma rotina previsível, nada mais acontecerá e então a própria monotonia não poderá ser quebrada; mas enquanto houver um alento, este se converterá em desespero   e o desespero em conflito. É por isso que os conflitos que irromperam e os que irromperem neste século estarão em função da problemática interior europeia, onde se levanta o apelo de um sentido para a vida contra a subordinação do ser ao fazer. E este apelo se levanta pela densidade de uma cultura que é também uma densidade da história; mas a história deixará de existir quando nada mais acontecer e quando os fatos se tornarem objeto de estatística, não de poemas e sinfonias.

Anulando o qualitativo e o heterogêneo, a ciência fabricou uma ordem   mecânica, que decorre não da natureza das cousas, mas da natureza dela mesma e onde todas as peças devem funcionar, nas máquinas ou na sociedade, não importa, com o rigor   dos aparelhos de precisão: nada mais poderá então acontecer, cada qual será parte da consciência coletiva e a consciência coletiva será uma consciência de fabricação; monotonia significa uniformidade do mesmo tom. As grandes cidades prefiguram já esse paraíso terrestre assentado na produção e no consumo. Nunca a pessoa   humana se sentiu desagregar mais rapidamente na confusão anônima das [169] multidões urbanas, onde, à luz de lâmpadas elétricas e sob a pressão dos rolamentos mecânicos, uma gente sem nome vai demandando os umbrais da morte sem nunca ter conhecido o ritmo da vida.

Já não se sabe onde está a realidade, se nas teorias científicas que nos dizem ser o mundo real ou se no mundo em que nós nascemos, vivemos e morremos; a crise é tanto maior quanto mais é certo que estamos alienados no tempo físico e somos cada vez mais expulsos do tempo real. O homem   sofre e morre no tempo espiritual, mas é governado pelo tempo dos relógios. O relógio, imagem do tempo mecânico, físico, indiferente ao tempo vivo, estabelece uma ditadura crescente sobre a existência humana. Esta carinhosa invenção da Idade Média, que adornou as torres das catedrais góticas, se converteu, depois da descoberta do pêndulo, num instrumento de escravidão que prendemos aos nossos próprios pulsos e sob cujas agulhas vivemos em sobressalto. Compare-se a importância dos relógios nesta época com o fato de que, na velha cidade de Palas Atena, na idade dos filósofos, não havia provavelmente mais que dois   relógios de sol, ao redor dos quais os atenienses passavam distraídos, exaltados no ritmo de um tempo interior para o qual os relógios só tinham a importância que merecem. Hoje, porém, envelhecemos e morremos ainda no tempo espiritual, mas esvaímos nossa vida sob o domínio extenuante do tempo físico. Esta contradição produz uma crise que se manifesta, por exemplo, na incompreensível angústia da pressa; justamente quando os meios de comunicação e transporte se tornaram rapidíssimos, a angústia da pressa se exacerba. Não tinha pressa o homem de outrora que rodava sobre a nostalgia dos carros de bois. Mas é devorado pela pressa o homem atual que forjou velocidades incríveis. Quanto mais corre, mais pressa tem e no fundo é incapaz de explicar essa pressa; não sabe porque tem pressa; não sabe nem mesmo se tem pressa. No entanto, a tortura da pressa pode ser a tradução externa da necessidade de fugir   a si mesmo  , de não querer voltar a si mesmo, onde se encontra apenas o vazio   onde cada alma   está mortalmente ferida pela monotonia. A que fugimos? Fugimos a um mundo sem Deus   e portanto a uma vida sem significado e sem arte; fugimos a nós mesmos como se foge a um abismo   sem fundo; e fugimos em velocidades tão ilusórias e tão enormes que não somos capazes de viver nem a nossa [170] própria fuga; passamos por toda parte e nunca estamos em lugar algum. Mas, ainda uma última sombra de espiritualidade nos impede de fugir a nós mesmos; quando também esta sombra se apagar, desceremos àquela típica alegria do século XX, imbecil e coletiva, que repousa na completa alienação do indivíduo: uma alegria pré-fabricada ou uma alegria de jazz-band. [171]