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A Questão do Método na Filosofia Heideggeriana segundo Ernildo Stein

Beneval de Oliveira: Uma nova teoria do ser

quarta-feira 6 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Resenha da obra de Ernildo Stein  : ‘A questão do método na Filosofia. Um estudo do modelo Heideggeriano’

      

Ernildo Stein   termina seu livro [1], assinalando que a fenomenologia transcendental de Edmund Husserl   abriu o caminho   para a progressiva constituição de uma nova ontologia a partir da filosofia moderna. A ontologia clássica não alcançou grande maturidade no questionamento da questão do ser. Este era considerado como algo evidente   e universal  , sempre subsumido na interrogação pelo ente   finito, permanecendo de certo modo inefável e indefinível. Assim, a ontologia da tradição   carecia de radicalidade, distraindo-se com o problema dos entes.. O pensamento   moderno da subjetividade não foi capaz de reconstituir uma ontologia desde sua matriz inspiradora. Husserl com sua descoberta de intencionalidade e com a tematização do ente como de sua revelação, isto é, enquanto dado, descerrou o espaço para uma radical pesquisa ontológica". Diz, ainda, Stein "a teoria   heideggeriana do ser depende, em sua explicitação, diretamente da descoberta de Husserl. Pouco ter-lhe-ia válido o conjunto   de suas experiências, mesmo no que diz respeito ao problema da diferença   ontológica inspirado em Lask, sem a ideia da redução e constituição da fenomenologia husserliana. Seria através dela que a filosofia moderna daria como fruto  , na filosofia de Heidegger  , uma nova ontologia" [2].

Abandonando, porém, o abstratismo de Husserl, Heidegger mostrou que a fenomenologia precisava de uma nova ontologia. Ele criticava Husserl em dois   aspectos: a omissão do problema do ser daquele ente posto em parêntesis na redução e constituído na constituição e omissão do problema do ser daquele que personifica o homem  . Heidegger pergunta então como se dá o ser do ente em geral e como se dá o ser do homem. Isto de início se resumiria na problemática daquele ente através do qual se abre qualquer possibilidade de espaço em que algo se dá. Este é a abertura originária do Ser-aí   enquanto se compreende como ser, o que quer dizer, do Ser-aí enquanto Ser-no-mundo. No Ser-aí se abre a possibilidade de qualquer encontro. Esta é a palavra   que substitui, em Heidegger, a expressão   "imediatamente dado" de Husserl [3]. A diferença em tudo isso ficou em que Husserl permaneceu no Eu transcendental e Heidegger na temporalidade do mundo, onde o Ser-aí se projeta. Assim, a temática fenomenológica se situa, para Heidegger, da seguinte maneira:

1) O modo como se dão aos entes intramundanos não é a esfera   do simplesmente objetivo;

2) O modo como se dá aquele que constitui e seu ser não podem ser pressupostos como objetivos;

3) Não basta perguntar pelos diversos modos   como se dá o ente; o importante é perguntar como é possível o próprio   dar-se. Como é possível que algo esteja descoberto? perguntará Heidegger. O fato de algo estar descoberto; manifesto   e de poder ser encontrado se dá porque tudo o que encontramos é experimentado enquanto ente. Deste modo, a pergunta pelo sentido do ser e a pergunta pela abertura do Ser-aí coincidem. O sentido do Ser e a facticidade do ser-ai tornam-se questões inseparáveis. A questão do Ser residirá, então, para Heidegger na abertura do Ser-aí e na revelação do ente" [4].

Observa, ainda, Stein, que a obra de Heidegger em Ser e Tempo   mesmo inacabada, como o próprio filósofo afirma, foi o primeiro passo necessário para o projeto de superação da subjetividade pela radicalização e adentramento na metafísica ocidental. A continuação desta mesma tarefa constitui os elementos   modais da obra do segundo Heidegger. A interpretação   das obras posteriores que não levasse em conta os resultados da analítica existencial só levaria a equívocos. Até os últimos trabalhos a questão do sentido do ser se impõe como determinante e a estrutura   binária do método fenomenológico-hermenêutico comanda todas as análises" [5].

Diz, ainda, Stein : "Um dos últimos textos em que o filósofo expõe de maneira coerente e global sua visão   do fim da filosofia e da tarefa que resta para o pensamento é apresentado de maneira reveladora: "O texto que segue faz parte de um contexto maior. E a tentativa sempre repetida desde 1930, de dar uma forma mais radical ao questionamento de Ser e Tempo. Isto significa submeter o ponto de partida da questão em Ser e Tempo a uma crítica imanente. Através disto deve esclarecer-se em que medida a questão crítica que pergunta pela questão do pensamento pertence necessariamente e constantemente ao pensamento. Em consequência disto se modificarão o título da tarefa Ser e Tempo. E no fim da análise Heidegger pergunta: Seria a expressão para a tarefa do pensamento em vez de Ser e Tempo Clareira e Presença  ? (Sein und Zeit: Lichtung und Anwesenheit).

A nova teoria do ser, conclui Stein, que no segundo Heidegger conduz à própria supressão do termo "ser", recorre a nomes cada vez mais descomprometidos com a onto-teologia, para reduzir os riscos da subjetividade. O que Heidegger pensa com a palavra "clareira" não foi efetivamente tematizado por nenhuma ontologia; na medida em que ser é pensado como clareira, o que a ontologia visa constituir coincide com a radicalização da fenomenologia; o einai coincide com o phainestai.


BIBLIOGRAFIA

HEIDEGGER, Martin - L’être et le Temps - Paris - Gallimard - 1964. Estudo da primeira obra de Martin Heidegger em que são expostos os princípios básicos da sua filosofia do Sentido do Ser. Tradução do alemão por Rudolph Böhms e Alphonse de Waelhens. 327 pp.

HUSSERL, Edmund - Méditations Cartésiennes - Paris - Libraire Philosophique J. Vrin. 1969. Traduzido do alemão por Afile.- Gabrielle Peiffer e M. Emmanuel Levinas - 136 pp.

HUSSERL, Edmund - Ideas - General Introduction to pure phenomenology London - 1969 - Traslated by W. R. Boyce Gibson - George Allen Unwin. 466 pp.

LÉVINAS, Emmanuel - Paris - En découvrant l’existence avec Husserl et Heidegger - Librairie Philosophique J. Vrin. 237 pp.

LÉVINAS, Emmanuel - Théorie de l’intuition dans la phénomenologie de Husserl - 1970, Paris - J. Vrin. 234 pp.

RICOEUR, Paul - O Conflito das Interpretações. 1978 - Imago - Rio de Janeiro. Traduzido do francês por Hilton Japiassu. 419 pp.

STEIN, Ermildo - A questão do método na Filosofia. Um estudo do modelo Heideggeriano, 1973. Livraria Duas Cidades, São Paulo. 170 pp.

STEIN, Ermildo - Em busca de uma Ontologia da Finitude, 1969 - Revista Brasileira de Filosofia, São Paulo.


[1Ibid, p. 161

[2Ibid, p. 161

[3Ibid, p. 161

[4Ibid, p. 162

[5Ibid, p. 165