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A Fenomenologia no Brasil

Beneval de Oliveira: Temática do Existencialismo Brasileiro

Conclusões

terça-feira 5 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

A Fenomenologia no Brasil, Beneval de Oliveira  , Pallas, 1983


O presente trabalho tem como objetivo enfocar a temática do existencialismo brasileiro. Neste sentido, procuramos pesquisar as origens dessa temática, a partir de uma reinterpretação da filosofia grega, dando ênfase, sobretudo, à ontologia de Martin Heidegger  , justamente por ter esse filósofo despertado maior atenção que os demais filósofos existencialistas entre os nossos estudiosos da matéria.

De outro lado, procuramos analisar a frio, o pensamento de nossos pesquisadores, sem nos deixar levar por inclinações de ordem preferencial.


Podemos concluir desta exposição que o existencialismo no Brasil promana de um movimento de pensadores que a partir de Nietzsche   e Kierkegaard  , aderiram a posições contrárias à absolutidade, à logicidade e à infinitude, tendo-se em vista o cansaço provocado por uma metafísica ultraracional, a uma logicidade inapelável em torno da dicotomia sujeito-objeto, a uma adequatio considerada ultrapassada para a explicação dos fenômenos do ser, enquanto verdade. O que se cuidava na metafísica tradicional era cultivar um substancialismo que, em nenhum momento, atendia às exigências do homem na busca de um real que satisfizesse a verdade filosófica, pois tudo estava encoberto ou estagnado em torno de um Ente, que não encontrava jamais o sentido do ser. Era o ente absoluto, opaco, artificial, totalmente endeusado.

Com a presença de Heidegger  , desde Sein und Zeit, a situação se clarificou, procurando-se dar novo sentido a , uma ontologia cuja marca estava centrada na finitude e na temporalidade do homem desbordado pelo seu caráter desvelante, isto é, o ser desvelando o ente.

Dai a atração despertada no seio do pensamento brasileiro pela filosofia da existência, de cujo futuro tanto se espera, pois ela abriu evidentemente horizontes para novas buscas seja no próprio campo heideggeriano, como acontece com Gerd H. Bornheim   e nos demais domínios da fenomenologia, como nos da hermenêutica, da psicoanálise, complementando-a.

Sentimos o desenvolvimento da filosofia heideggeriana, entre nós, com as novas interpretações dadas por Ernildo Stein   “Em busca de uma ontologia da finitude” e por Gerd A. Bornheim   que formulou mesmo incisivas críticas a Martin Heidegger   ao estabelecer a problemática da praxis, já que, no seu entender, Heidegger   mais se importou com o ser do que com o ente, deixando a ação, o agir, na órbita do imponderável, na atmosfera da inefabilidade, numa área de quase total abstratidade. O homem, em Heidegger  , tornou-se um “vizinho do ser”, ou num pastor do ser, conforme sublinhou Vicente Ferreira da Silva   em suas “Obras Completas”.


BIBLIOGRAFIA

  • 01) BINSWANGER, Ludwig - Discours, parcours, et Freud - Éditións Gallimard - Paris - 1970. Ensaios que entrelaçam uma série de discursos acerca da aplicação do Da-sein heideggeriano na Psicanálise.
  • 02) BINSWANGER, Ludwig - Introduction a L’Analyse Existencielle - Les Éditions de Minuit - Paris - 1971. Novos ensaios do autor da Daseinanalyse, estudando as relações existentes entre sonho e vigília, delírio e razão, afecções psicossomáticas e modos de ação psiquiátricas e psicoterapêuticas.
  • 03) BORNHEIM, Gerd A. - Dialética, Teoria, Praxis - Editora Globo - Editora da Universidade de São Paulo - Ensaio crítico da fundamentação ontológica da dialética. O autor faz uma crítica do problema da finitude em Heidegger, sobretudo, na questão da praxis.
  • 04) CARNEIRO Leão, Emanuel - Aprendendo a pensar - Vozes - Coletânea de artigos tendo como base o sentido existencial da vida.
  • 05) DUFRENNE, Mikel - Estética e Filosofia. Persepctiva - São Paulo. Estudo da estética fenomenológica com um capítulo destinado ao estudo do poeta grego Pindaro, através do livro de Jacqueline Duchemin Pindare poeta et prophète.
  • 06) DILTHEY, W. - Escritos Reunidos - E. Weniger, 1944 Leipzig - Embora sendo considerado um filósofo da vida, Dilthey pode figurar como um historiador da existência humana. Sua posição de filósofo histórico está bem definida neste trabalho.
  • 07) FERREIRA DA SILVA, Vicente - Obras Completas vol. 1. Edição da R.B.F. São Paulo, Coletânea de artigos de filosofia, dentre os quais se destacam os que estudam a filosofia existencial de M. Heidegger.
  • 08) GURWITCH, Georges - Las Tendências Atuales de La Filosofia Alemana - Aguilar Editores - Madrid. 1928. Estudos filosóficos em torno de Husserl, Sheler, Lask, Hartman e Heidegger, fazendo clara exposição dos temas da filosofia contemporânea.
  • 09) HEIDEGGER, Martin - L’Étre et le Temps - Gallimard - 1964 - Estudo da primeira obra de Martin Heidegger em que são expostos os principies básicos da sua filosofia do sentido do ser.
  • 10) HEIDEGGER, Martin - Chemins qui ne ménent nulle pari - alemão Holswege - Gallimard, Paris. Estudo de vários temas de filosofia existencial de Heidegger, incluindo “A origem da obra de arte” e a Palavra de Anaximandro.
  • 11) HEIDEGGER, Martin - Que é Metafísica. Duas Cidades. São Paulo, 1969. Textos de Heidegger desenvolvendo temas relacionados com a ontologia do prof. de Friburg.
  • 12) HEIDEGGER, Martin - Introdução à Metafísica. Tempo Brasileiro. Tradução de Emanuel Carneiro Leão. Livro básico para a compreensão do problema do esquecimento do Ser. Porque o ser e não apenas, o Nada?
  • 13) HEIDEGGER, Martin - Ensaios I. II e III Gallimard - Novos Artigos em torno da temática heideggeriana sobre finitude, temporalidade, a caverna de Platão, etc.
  • 14) LÉVINAS, Eminanuel - En Découvrant L’Existence avec Husserl et Heidegger - Vrin - Paris, 1974 - Conferências e Estudos em torno da fenomenologia de Husserl e Heidegger.
  • 15) RICOEUR, Paul - O Conflito das Interpretações Imago Editora, 1978 - Seu objetivo central consiste em enfrentar os grandes desafios do pensamento contemporâneo. Trata-se de assumir filosoficamente a tensão dos conflitos que nos envolvem no plano do pensamento.
  • 16) STEIN, Ernildo - Em busca de uma ontologia da Finitude. Este trabalho é parte de um Curso de Metafísica instituído pelo autor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1969. Pub. na Revista Brasileira de Filosofia.