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A Fenomenologia no Brasil

Beneval de Oliveira: Em busca da verdade do Ser

Temática do Existencialismo Brasileiro

terça-feira 5 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

A Fenomenologia no Brasil, Beneval de Oliveira  , Pallas, 1983


O presente trabalho tem como objetivo enfocar a temática do existencialismo brasileiro. Neste sentido, procuramos pesquisar as origens dessa temática, a partir de uma reinterpretação da filosofia grega, dando ênfase, sobretudo, à ontologia de Martin Heidegger  , justamente por ter esse filósofo despertado maior atenção que os demais filósofos existencialistas entre os nossos estudiosos da matéria.

De outro lado, procuramos analisar a frio, o pensamento de nossos pesquisadores, sem nos deixar levar por inclinações de ordem preferencial.


Como reinterpretação da filosofia existencial na antiga filosofia grega não vemos como dissociada do sentido de finitude e temporalidade, na revelação da physis (ser), não só na poesia pindárica, como nos fragmentos anaximândrico, parmenídicos e heraclitianos. Estes discursos estão sempre contidos na temática do velho professor de Freiburg, o Ser, o Vir-a-ser, o Ser e a aparência, bem como o Ser e pensar inspirado no platonismo e o Ser e Dever Ser inspirado na filosofia moderna.

Antes de mais nada é preciso explicitar, embora em rápidos traços, o pensamento desvelante, apofântico do “Ser-Ai” heideggeriano.

No “Ser e Tempo”, Heidegger   inicia o seu discurso, assinalando que a questão do ser caiu no esquecimento, ainda que em nossa época tenha por um progresso aceitar de novo a metafísica.

Mas assinalamos, uma metafísica de pura entificação, que a partir de Platão e Aristóteles   vai achar supérflua a questão de se encontrar o sentido do ser. Assim, ela pensa o ente enquanto ente, diz Heidegger   “pois em toda parte, onde se pergunta o que é o ente, tem-se em mira o ente enquanto tal. A representação metafísica deve esta visão à luz do ser. A luz, isto é, aquilo que tal pensamento experimenta como luz, não e em si mesmo objeto de análise; pois este pensamento analisa e representa continuamente e apenas o ente sob o ponto de vista do ente”. [1]

Por sua vez, na “Introdução à Metafísica [2] Heidegger   começa esta pergunta, “Porque há simplesmente o ente e não antes o Nada? Eis a questão. Certamente não se trata de uma questão qualquer, essa é evidentemente a primeira de todas as questões. A primeira, sem dúvida, não na ordem da sequência cronológica das questões. Em sua caminhada histórica através do tempo o homem e os povos investigam muito. Pesquisam, procuram e examinam muitas coisas antes de se depararem com a questão, “Porque há simplesmente o ente e não antes o Nada”. Muitos nunca a . encontram, não no sentido de a lerem e ouvirem formulada, mas no sentido de investigarem a questão, isto é, de a levantarem, de a colocarem, de se porem no estado de questão. E não obstante todos são atingidos uma vez por outra, talvez mesmo de quando em vez, por sua força secreta, sem saberem ao certo o que lhes acontece. Assim, num grande desespero, quando todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo sentido, surge a questão. Talvez apenas insinuada, como uma badalada surda, que ecoa na existência e aos poucos de novo se esboroa”.

Respondendo à questão, Heidegger   ele mesmo assegura que “no sentido correto de sua investigação, devemos eliminar a preferência de qualquer ente em particular, inclusive a referência ao homem. [3]

Sim, porque até agora, a metafísica entificava o ser. Ela não levava o ser mesmo a falar, porque não considerava o ser em sua verdade e a verdade como o seu desvelamento. A essência da verdade para a metafísica clássica sempre apareceu apenas na forma derivada da verdade do conhecimento. Jamais respondeu a verdade do ser porque nem a suscitou como questão, ela não o problematizou, porque sempre pensou que o ser representava o ente enquanto ente. Isto é o que nos diz, muito bem, Heidegger   no seu Que é metafísica, na p. 66.

Mas já é tempo de se perguntar o que é o Ser, como se diferencia do ente? Preferimos aqui dar a palavra a Emmanuel Lévinas, quando no seu “En decouvrant L’existence avec Husserl   et Heidegger  ”, escreve : “Heidegger   distingue inicialmente entre isto que é l’étant (das Seiende) et “l’être de l’étant” (das Sein des Seienden). Isto que é o ente recobre todos os objetos, todas as pessoas em um certo sentido, Deus ele mesmo. O ser do ente é o fato que todos estes objetos são. Ele não se identifica com nenhum destes entes, nem mesmo com a ideia do ente em geral. Em certo sentido ele não é; se fosse seria ente a seu turno, ainda que ele seja de qualquer maneira o acontecimento mesmo do ser de todos os entes. A originalidade de Heidegger  , prossegue Lévinas, consiste precisamente a manter com uma nitidez precisa esta distinção. O ser do ente é objeto da ontologia. Ao passo que os entes representam o domínio da investigação das ciências ônticas”. [4]

Carneiro Leão   em capítulo de seu livro já referido, [5] observava, “O Ser nunca é diretamente acessível. Como diferença ontológica, inclui sempre uma irredutibilidade ao ente. Nunca poderá ser objetivado. Nunca poderá ser encontrado nem como ente, nem cone o ente, nem dentro do ente. Nunca poderá ser constatado a modo de um dado, fato ou valor objetivo. O Ser só se dá obliquamente, enquanto, retraindo-se e escondendo-se em si mesmo, ilumina o ente, seguindo determinada figura de sua Verdade. Esse jogo híbrido de retraimento e mesmo manifestação, de luz e sombra, de velar e re-velar, de ocultar e desocultar constitui a essencialização de sua Verdade, tal como os gregos a pensaram originariamente na a-létheia. Dessa dinâmica surge a constituição dos períodos de sua fulguração, como épocas de Vontade do Ser.

Mas deixemos os comentadores e passemos diretamente ao autor de “Sein und Zeit”, que explica a constituição do Ser do Ser Aí, isto que quer dizer a seu turno : “O Ser aí” se compreende sempre de qualquer maneira e mais ou menos explicitamente em seu ser. Ele é característico deste ente que com seu ser e por seu ser lhe seja revelado. A compreensão do ser é ele mesmo uma determinação de ser do -”ser ai”. O caráter ôntico próprio ao “ser aí” assegura isto é que o “ser aí” é ontológico.

Chamamos existência o ser mesmo a respeito do qual o ser se comporta de tal ou de tal maneira e sempre de qualquer maneira. Compreende-se, portanto, a partir de sua existência, isto é, a partir de sua possibilidade de ser ele mesmo ou não. A questão da existência não pode ser resolvida senão no existir. [6] Ela, a existência é posta no mundo, “como condição de possibilidade ou de inautenticidade, ligada à condição de ser aí existente. Mas estas determinações do “Ser aí” devem ser compreendidas a priori sobre a base da constituição do ser que designamos sob o título de “Ser no mundo”. In-der-Welt-Sein. [7] O ser da humani­dade se caracteriza pelo feito de que sua essência ’é absolutamente inseparável de sua existência, sua essência é existir.

Após assinalar, em várias considerações o problema da ambigüidade da palavra “mundo” do qual o “Ser Aí” é inseparável em vista da pluralidade de entes, e da condição do ente ser um “Ser com Outro” Mitsein, Heidegger   observa o seguinte no Ser e Tempo, na página 88:

  • 1) O mundo pode ser tomado como um conceito ôntico. Ele significa então a totalidade dos entes que podem subsistir no interior do mundo;
  • 2) O mundo pode fazer função do termo ontológico. Ele significa, neste caso, o ser dos entes visados. O “mundo” pode ser então o título de uma região englobando uma pluralidade de entes. É o sentido visado pela expressão : o “mundo” do matemático, que designa a região dos objetos possíveis de matemática;
  • 3) O mundo pode ser ainda uma vez, tomado em um sentido ôntico. Ele não designa mais, ao presente, o ente que o “Ser Aí” não é essencialmente visto em que vive um “Ser aí” existente de fato. O mundo tem aqui. uma significação existencial e pré-ontológica. Esta última significação comporta novamente diversas possibilidades que ela designa o mundo onde vivemos, seja que designa um mundo privado e imediato, um mundo ambiente.
  • 4) O mundo designa, enfim, o conceito ontológico e existencial da mundanidade, sendo que este pode se diversificar segundo as estruturas de conjunto dos mundos particulares, mas cada um destes implicando a priori a mundanidade em geral.

Prosseguindo, Heidegger   observa quanto ao adjetivo mundano, que ele visa um modo de ser do “ser-aí” e não apenas um modo de ser do ente subsistente no mundo. Chamamos este último ente “inerente ao mundo”, passa-se necessariamente à parte do fenômeno da mundanidade. Em seu lugar, procura-se interpretar o mundo desde o ser do ente que subsiste no interior do mundo, sem que seja o ente também e que é descoberto primeiramente desde a natureza. [8]

Vejamos, agora, os resultados das análises existenciais de Heidegger   que vão mostrar a existência humana como uma existência finita, limitada e humilhada. A preocupação, Sorge, é uma marca irrecusável da existência humana, esta se mostra como uma existência abandonada no mundo como “dereliction”, isto é, a existência em abandono, largada ao desamparo, manifestando-se como angústia Angst.

O sentimento de situação tão bem conhecida como Befindlichkeit, embora de conotação afetiva, tem uma visão universal, esquivando-se de toda concepção psicologista.

Resumindo, a analítica fenomenológica da existência humana começa por uma descrição da existência cotidiana [9] Alltag, donde reina “todo o mundo”. O homem existe no mundo In der Welt Sein. Encontra-se nele, observa Georges Gurvitch, antes de conhecê-lo; percebe o ser sem ter uma noção dele. Este mundo se oferece a ele, não diretamente como uma presença Vorhandenes que pode contemplar de uma maneira passiva, senão como uma matéria de preocupação Zuhandenes que o inquieta. Toda presença se insere nesta preocupação. Enfim, tudo o que o mundo sugere, tudo o que o mundo apresenta de inesperado, de imprevisível, de oscilante, de incerto, de ambiguidade redunda na preocupação, que Gurvitch acentua como caráter essencial da existência.

Gurvitch um dos primeiros filósofos que comentaram Heidegger   e os demais filósofos alemães de seu tempo, como Husserl  , Scheler  , Lask, Hartman, distingue na preocupação dois aspectos diferentes, 1) na existência banal se identifica com a preocupação de todo o mundo e este procura acalmá-la e tranquilizá-la, transformando-a numa moléstia cotidiana e niveladora; 2) na existência que se encontra a si mesma, a preocupação resulta numa angústia ante o abismo que a rodeia por toda a parte a humanidade desamparada, Geworfenheit; a consciência moral, a visão da morte e a resolução resignada levam da moléstia à angústia.

O sentimento de situação ainda que a despeito da compreensão não escapa à visão perdida do mundo, que a anuncia como uma existência degradada Verfallen, não há nesta concepção heideggeriana nenhum pressuposto de que o homem começa a degradar-se pelo pecado, ela é simplesmente compreensível pela tomada de consciência de que o homem é um “ser para a morte”, isto é, um ser finito, destinado a perecer, ir remediavelmente.

A morte é assim encarada como característica essencial da existência” que é a existência, como assinala Heidegger  , em si mesma, que chega à sua totalidade pela morte e por isso mesmo se suprime. Assim ser para a morte Sein zum Tode é um elemento insuperável da existência.

Passando-se da finitude para a temporalidade Zeitlichkeit vê-se que, em Heidegger  , uma e continuação da outra, já que o ser da existência humana é essencialmente histórico.

A posição do homem no mundo é a de temporalizar-se como resultado de seus ex-tases e de sua condição de “ser no mundo”.

O ser da existência humana é essencialmente histórico, mas a história não é um objeto da ciência histórica formado por um método particular, pois a história é um setor do ser mesmo e esse setor é idêntico à existência humana.

Nas Questões I, Heidegger   salienta que “o desvelamento -inicial do ente em sua totalidade, a interrogação sobre o ente como tal, e o começo da história ocidental, são uma só e mesmo coisa, elas se efetuam ao mesmo “tempo”, mas este tempo ele mesmo não mensurável abre a possibilidade de toda medida”. [10]

Em Holzwege, ao cuidar do problema estético, Heidegger   salienta que o desvelamento do ser, a desocultação do ente ao temporalizar-se, encaminha-se para as soluções da verdade, já que o que brota do ser do ente inspira-se e formaliza-se na obra. Esta desocultação é o que se abre, é o “aberto”, que fundamenta os valores autênticos da Arte.


BIBLIOGRAFIA

  • 01) BINSWANGER, Ludwig - Discours, parcours, et Freud - Éditións Gallimard - Paris - 1970. Ensaios que entrelaçam uma série de discursos acerca da aplicação do Da-sein heideggeriano na Psicanálise.
  • 02) BINSWANGER, Ludwig - Introduction a L’Analyse Existencielle - Les Éditions de Minuit - Paris - 1971. Novos ensaios do autor da Daseinanalyse, estudando as relações existentes entre sonho e vigília, delírio e razão, afecções psicossomáticas e modos de ação psiquiátricas e psicoterapêuticas.
  • 03) BORNHEIM, Gerd A. - Dialética, Teoria, Praxis - Editora Globo - Editora da Universidade de São Paulo - Ensaio crítico da fundamentação ontológica da dialética. O autor faz uma crítica do problema da finitude em Heidegger, sobretudo, na questão da praxis.
  • 04) CARNEIRO Leão, Emanuel - Aprendendo a pensar - Vozes - Coletânea de artigos tendo como base o sentido existencial da vida.
  • 05) DUFRENNE, Mikel - Estética e Filosofia. Persepctiva - São Paulo. Estudo da estética fenomenológica com um capítulo destinado ao estudo do poeta grego Pindaro, através do livro de Jacqueline Duchemin Pindare poeta et prophète.
  • 06) DILTHEY, W. - Escritos Reunidos - E. Weniger, 1944 Leipzig - Embora sendo considerado um filósofo da vida, Dilthey pode figurar como um historiador da existência humana. Sua posição de filósofo histórico está bem definida neste trabalho.
  • 07) FERREIRA DA SILVA, Vicente - Obras Completas vol. 1. Edição da R.B.F. São Paulo, Coletânea de artigos de filosofia, dentre os quais se destacam os que estudam a filosofia existencial de M. Heidegger.
  • 08) GURWITCH, Georges - Las Tendências Atuales de La Filosofia Alemana - Aguilar Editores - Madrid. 1928. Estudos filosóficos em torno de Husserl, Sheler, Lask, Hartman e Heidegger, fazendo clara exposição dos temas da filosofia contemporânea.
  • 09) HEIDEGGER, Martin - L’Étre et le Temps - Gallimard - 1964 - Estudo da primeira obra de Martin Heidegger em que são expostos os principies básicos da sua filosofia do sentido do ser.
  • 10) HEIDEGGER, Martin - Chemins qui ne ménent nulle pari - alemão Holswege - Gallimard, Paris. Estudo de vários temas de filosofia existencial de Heidegger, incluindo “A origem da obra de arte” e a Palavra de Anaximandro.
  • 11) HEIDEGGER, Martin - Que é Metafísica. Duas Cidades. São Paulo, 1969. Textos de Heidegger desenvolvendo temas relacionados com a ontologia do prof. de Friburg.
  • 12) HEIDEGGER, Martin - Introdução à Metafísica. Tempo Brasileiro. Tradução de Emanuel Carneiro Leão. Livro básico para a compreensão do problema do esquecimento do Ser. Porque o ser e não apenas, o Nada?
  • 13) HEIDEGGER, Martin - Ensaios I. II e III Gallimard - Novos Artigos em torno da temática heideggeriana sobre finitude, temporalidade, a caverna de Platão, etc.
  • 14) LÉVINAS, Eminanuel - En Découvrant L’Existence avec Husserl et Heidegger - Vrin - Paris, 1974 - Conferências e Estudos em torno da fenomenologia de Husserl e Heidegger.
  • 15) RICOEUR, Paul - O Conflito das Interpretações Imago Editora, 1978 - Seu objetivo central consiste em enfrentar os grandes desafios do pensamento contemporâneo. Trata-se de assumir filosoficamente a tensão dos conflitos que nos envolvem no plano do pensamento.
  • 16) STEIN, Ernildo - Em busca de uma ontologia da Finitude. Este trabalho é parte de um Curso de Metafísica instituído pelo autor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1969. Pub. na Revista Brasileira de Filosofia.

[1NA: Heidegger, m. - O que é Metafísica, Duas Cidades, pp. 61/62. Tradução de Ernildo Stein.

[2NA: Introdução à Metafísica. Tradução de E. Carneiro Leão. T. B. p. 33.

[3NA: Ibid. p. 35.

[4NA: Lévinas, Emmanuel - En découvrant l’existence avec Husserl e Heidegger. Vrin Paris, p. 56.

[5NA: Carneiro Leão, Em. op. cit. p. 114.

[6NA: Heidegger, M. - L’Être et le Temps. p. 28. Gallimard. Paris - Tradução de Rudolf Boehms e Alphonse de Walhens.

[7NA: Op. Cit. P. 88.

[8NA: Ibid. p. 88/89.

[9NA: Gurvitch, Georges - Las Tendencias actuales de la Filosofia Alemana - pp. 20/21 - Aguilar, Editor – Madrid, 1932

[10NA: Heidegger, M. - Questions I - Gallimard — Paris p. 178.