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O Existencialismo perante o Direito, a Sociedade e o Estado

Giuseppe Lumia: existencialismo teísta - Louis Lavelle

Existencialismo Teísta: (Marcel, Le Senne, Lavelle)

terça-feira 5 de outubro de 2021

LUMIA. (Giuseppe) O EXISTENCIALISMO PERANTE O DIREITO, A SOCIEDADE E O ESTADO. Tradução de Adriano Jardim e Miguel Caeiro. Colecção « Doutrina ». N.º 3. Livraria Morais Editora. Lisboa. 1964.


Mais fortemente tingido de misticismo?, um misticismo neoplatônico e agostiniano, é o pensamento? de Louis Lavelle   (1883-1951). Antes de Sartre  , e com não menor energia?, Lavelle   afirmou que no homem? a existência precede a essência. «A existência tem sentido? em nós só para consentir-nos, não realizar uma essência já formada, mas determiná-la com a nossa escolha? e coincidir com ela. Em vez de dizer que a essência é a possibilidade? da existência, diremos que a existência é a possibilidade da essência. Com a escolha da nossa essência fixamos no ser o nosso lugar? eterno». Mas a escolha que o eu? faz de si próprio implica um ato? de liberdade?, de criação, que revela a sua participação no Ser absoluto?, em Deus?, que é precisamente puro? ato criador?. Há, por isso, entre o Ser absoluto e os seres finitos não tanto uma analogia?, como uma identidade?, ou, como diz Lavelle  , uma «univocidade?» qualitativa. A dialética da participação revela-nos assim a «presença total» do Ser nos seres, de Deus nas criaturas.

É evidente como esta concepção leva em linha reta ao panteísmo. Lavelle  , que se proclama católico, procura evitar este perigo, sublinhando que a criatividade do homem parte? sempre de uma situação determinada. Mas o certo é que a afirmada univocidade do ser não permite estabelecer uma diferença qualitativa entre Deus e os seres finitos. Isto mesmo notaram os escritores católicos, que não deixaram de olhar com reserva as ideias? de Lavelle  .

Ao problema? das relações intersubjetivas dedicou Lavelle   um ensaio, Conduite à l’égard d’autrui, publicado em 1957 após a sua morte?. Já no Erreur de Narcisse   ele tinha precavido contra o perigo de esterilidade a que conduz um pensamento totalmente voltado para si próprio; sublinha a este respeito? que «as nossas relações com os outros homens formam a própria substância da vida?». No exame do problema, o ponto? de partida de Lavelle   não é muito diferente do de Sartre  , de cuja sugestão talvez não esteja isento. Também para Lavelle   a presença do outro? «obriga-me a conservar-me em um estado? de alarme». «Tal como o animal? que, observando diante de si uma presença desconhecida e sentindo pulsar nela uma vida que não é a sua, se reduz inteiramente à alternativa? ansiosa de fazer dele uma presa ou de tornar-se ele próprio sua presa, também o homem, quando encontra um seu semelhante?, considera-o um estranho que tem semelhanças humanas com ele, e interroga-se numa espécie de temor, hoje como no primeiro dia, sobre se ele se lhe apresenta para partilhar consigo a sua própria vida ou para destruir-lha». «O contrato com outro é sempre uma laceração do amor? próprio»; «há um ódio profundo? e irredutível que nasce em um ser só por ver um seu semelhante, cuja presença no mundo? parece condenar a sua». Mas enquanto Sartre   não sai deste inferno, Lavelle   apela para um ato de fé, afim-de transformar em uma «ferida de amor» a laceração que o outro inflige ao meu amor próprio. É na verdade? um ato de fé que, por detrás de cada corpo? semelhante ao meu com que deparo, me faz ver uma alma?, outro ser capaz de dizer eu como eu digo, e que me permite estabelecer com ele uma relação de comunicação espiritual. Mas na presença do outro, presença que é acima de tudo espiritual, eu revelo-me a mim mesmo?, pois que a minha existência tem sempre necessidade? de ser confirmada pelos outros. Se assim não for, eu fico separado do mundo e da própria existência. Fora das relações com os outros eu sou? apenas uma pura possibilidade, incapaz de distinguir do sonho? a realidade?; é a presença dos outros que testemunha a minha existência, que lhe confere consistência e realidade.

Na comunicação vê Lavelle   a mais alta forma? de realização da existência, a ponto de escrever que «Deus quis que os homens pudessem comunicar com ele comunicando entre eles, como se ele não fosse mais do que esta comunicação vivente?». Mas a comunicação não se realiza na vida social?. Identicamente a Marcel, sustenta que a maioria dos homens não mantém entre si senão relações anônimas, das quais é constituída «aquela sociedade? aparente? que mereceria de preferência o nome? de rebanho». A sociedade autêntica é, pelo contrário, a que nasce na intimidade da consciência pelo encontro de dois seres: ela é necessária e rigorosamente bilateral, porquanto «um a mais é sempre um terceiro e, como costuma dizer-se, está sempre a mais».

O pensamento de Lavelle   não é, pois, senão uma variante daquele «aristocratismo existencialista?» que, embora não se fechando no isolamento, despreza todavia a multidão, bastando-lhe o encontro excepcional com o indivíduo num plano? associai e metapolítico. Mas Lavelle   parece preocupado com o atomismo? a que esta concepção conduz, pois na introdução, que ficou incompleta, à Conduite à l’égard d’autrui escreve textualmente: «Não existe uma multiplicidade? de consciências isoladas que procuram inutilmente superar? a distância que as divide; há só uma consciência, da qual nós somos as sombras dispersas».

Mas que sociedade é mais «aparente» do que esta sociedade de sombras? É esta a dificuldade insuperável com que se debatem todas as doutrinas que pretendem fundar a sociedade partindo de um monismo? absoluto, quer seja idealista ou espiritualista. Se a única consciência real? é a consciência transcendental?, que realidade têm as consciências singulares, e que valor? podem ter?, a não ser de mera aparência, as relações que entre elas se estabelecem? É esta a dificuldade que Gentile encontrou, e à qual Lavelle  , com as premissas de que parte, não podia de modo? algum subtrair-se.