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Historia da Filosofia

Truc: Platonismo da Renascença

segunda-feira 20 de setembro de 2021

Gonzague Truc (História da Filosofia)

Cada época vê à sua maneira própria as épocas anteriores, sobretudo as mais antigas, e as acomoda conforme as suas ideias?, o seu gosto?, o seu temperamento? e as suas necessidades. A Idade Média havia tomado de empréstimo à antiguidade uma dialética, uma doutrina de que se servira para a explicação e a defesa das suas crenças; a Renascença concebeu sob um outro aspecto? esses tempos que retornavam e que a enchiam de deslumbramento. Possuía mais artistas do que teólogos?, ou então os seus artistas eram muito superiores? aos seus teólogos; demorava-se na contemplação das formas? antes de nelas buscar realidades de ordem? intelectual?, e é digno de nota? o fato? de ter? sido um poeta? como Petrarca um dos primeiros a saborear? aqueles poucos diálogos platônicos que acabavam de ser descobertos e de achar-se personificado por um Leonardo da Vinci o tipo? mais significativo dos homens de então. Isto não deve ser esquecido? — e o é com demasiada frequência — quando se chega a esta era? faustosa.

Devemos registrar ainda que foi da Itália que partiu o movimento?, que foi ali que ele se expandiu com maior pujança e não é para causar admiração que, num clima ameno e em meio? a uma civilização brilhante, o artista tenha levado a palma ao pensador e a imaginação à meditação. Isto já se patenteia no incrível sincretismo? religioso? em que se vê o Olimpo invadir o céu cristão, Júpiter vizinhar com Deus?-Pai?, Vênus? com a Virgem e os heróis com os santos. A interpretação dos filósofos é menos fantasista; com toda facilidade poder?á descarrilar e prestar-se a novas acrobacias do espírito?.

Foi em 1438 que Aurispa e Traversari trouxeram de Constantinopla um manuscrito no qual estava contida a obra? de Platão  , e foi Gemisto Pléton quem se tornou o corifeu da filosofia? platônica. Georgios Gemistos, cognominado Pléton (1375-1464), viera a Florença para tomar parte? no concílio reunido com o fim? de pôr termo? à cisão que opunha a Igreja do Oriente? à Igreja do Ocidente. Poi essa ocasião pregou a doutrina do mestre? grego? diante de um auditório seleto e com tal sucesso? que Cosme de Médicis resolveu fundar uma "academia platônica". Num livro sobre A diferença entre Platão   e Aristóteles  , revivia Pléton o velho debate em torno dos dois? filósofos, aplicando-se sobretudo a combater o último. Um outro tratado seu, o Tratado das leis?, um pouco alexandrino demais, foi condenado pelo patriarca de Constantinopla. É que, efetivamente, este filósofo faz pensar? mais em Plotino   do que em Platão  . Teve um zeloso discípulo na pessoa? de João Argirópulos, professor de grego em Florença, e adversários decididos em Teodoro de Gaza, que ensinava em Ferrara, e Jorge de Trebizonda, radicado em Veneza.

O Cardeal João Bessárion era inspirado pelos mesmos desígnios que Gemisto Pléton. Como este, trabalhou pela reunião das duas igrejas, e como ele tratou de Aristóteles   e Platão  , mas procurando conciliá-los ao invés de opô-los. Entretanto o florentino Marsílio Ficino   grande humanista?, se mostrava ardente propagador de um platonismo? ainda fortemente inclinado para Plotino   e mesmo? para Proclo  . Servia-se do Fédon   para defender, contra os averroístas, a imortalidade? da alma?; afastava-se ainda mais de Averróis   e não temia aproximar-se de Aristóteles  , vendo na alma a forma substancial? do corpo?. Mas também animava os astros e o próprio mundo?, isto é, dotava-os de alma. Na vasta síntese que tentava reconstituir misturava Pitágoras  , Zoroastro, o pseudo?-Dionísio e outros, mostrando-se tomado por essa espécie de embriaguez que empolgava então, por um excesso de entusiasmo? e uma certa deficiência de método, os cérebros melhor alimentados.

Também os nomes de João Pico della Mirandola  , de seu sobrinho João Francisco e de seu discípulo João Reuchlin recomendam-se mais pelos prodígios da erudição do que pelas profundezas da especulação. Ainda platônicos, mas abandonando o tom polêmico, insistiam sobre o acordo? possível dos dois filósofos gregos rivais e relacionavam com eles Santo? Tomás, Avicena  , Averróis   e Duns Escoto. Isto se aplica principalmente ao primeiro?, Pico. Reuchlin, mais antiescolástico, autor de um De arte? cabalística publicado em 1517, sublinha as suas tendências particulares e o seu gosto pelo esoterismo. Era tio de Melanchton. Não se separou todavia de Roma, embora não a poupasse em suas críticas.

Tal é, em grosso, o neoplatonismo? dos livros. Houve um outro que foi mais longe?, talvez: o do comum? dos espíritos ou de grandes espíritos menos especializados, e o dos costumes?, aquele que estabelecia um compromisso? fantasista e perigoso entre o paganismo? e o cristianismo?, aquele também que inspirava aos artistas esse? idealismo? donde brotaram obras inimitáveis. A célebre e pura ligação de um Miguel Ângelo com Vitória Colonna pode talvez servir como ilustração viva da doutrina. E é, na verdade?, a paixão da vida? que este período da Renascença revela ainda aqui.