PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Página inicial > Modernidade > LusoSofia > Eudoro de Sousa (1911-1987) > Parmênides – Poema - Estudos - Eudoro

Poema de Parmênides

Parmênides – Poema - Estudos - Eudoro

Dialética do Poema de Parmênides

sexta-feira 17 de setembro de 2021

[DE SOUSA, Eudoro. Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 98-104]

55. Por conseguinte, não é irrefutável a tese?, segundo a qual a «Opinião? dos Mortais» seria apenas um artifício dialéctico, e torna-se bastante verosímil que ela se situe no prolongamento da «Via da Verdade?», como a verdade do ser?, enquanto aparece. O problema?, ou o pressuposto?, da unidade? interna de composição?, ou ainda, a legítima exigência de uma unidade de composição, transfere-se agora? para o «Proêmio» e suas relações com o poema, considerado em seu todo?. Será, este, um artifício literário, tal como se pretendia que a «Opinião dos Mortais» fosse um artifício dialéctico, e portanto que pouco ou nada? contribua para integrar a expressão? do mais profundo? sentido? da mensagem? filosófica de Parmênides?? Antes de tentar qualquer razoada argumentação? contra a tese do «artifício literário», convém relembrar o que incidentalmente ficou escrito no parágrafo anterior: as duas potências cosmogónicas, Luz? e Noite, que intervêm na «Opinião dos Mortais», também se encontram no «Proêmio»; mas, na primeira parte?, como na terceira, não há lugar? para o Ser, cujos «sinais» são indiciados na segunda, sem qualquer referência? aos contrários ingredientes do que constituiria o Ser em sua aparência? intramundana. Por aqui se entrevê uma ponte, ligando o «Proêmio» com a «Opinião dos Mortais». Também, desta última é que arranca uma via de compreensão?, para a necessidade? do «Proêmio», designadamente, do frg. 16. Com efeito?, seja qual for a hipótese? que se proponha, quanto ao sujeito? inexpresso da oração principal (Mansfeld, 175-193), a ideia? que se depreende com segurança é esta: «todos os homens estão condenados a um pensamento? impuro e incompleto, por serem todos constituídos por dois elementos?» (Frankel, Parmenidesstudien, 176), Luz e Noite; tal como são, assim pensam o mundo? em torno deles. Pode um, em cuja constituição? prepondera a Luz, aceder ao conhecimento? de um mundo mais luminoso; e outro?, em cuja constituição predomina a Noite, ao conhecimento de um mundo mais sombrio; mas, em qualquer caso, jamais deixarão os homens de vê-lo dualisticamente: a unidade dos contrários, no Ser, não é aquisição natural? do saber? humano?, mas revelação? divina.


56. O Ser, conceba-se como unidade dos contrários, ou como paradigma? do continuum do mundo sensível?, que não deixa lugar para o nada, tinha, pois, de ser revelado. O «Proêmio» relata as circunstâncias da revelação; e o que mais desperta o nosso interesse? é o facto de nele reencontrarmos a maior e melhor parte da «mitologia? do horizonte?». Tudo nos leva a crer que não se trata da simples? casualidade de um artifício literário e, portanto, que, não só a «Verdade», como também a «Doxa?», tinham de ser reveladas onde, como e por quem Parmênides? pretende que o tenham sido. Onde? Além? do horizonte! Como? Atingindo esse? além pelo único? veículo que visivelmente ultrapassa o horizonte! Por quem? Uma deusa inominada! O mais tenaz obstáculo? a uma correta interpretação? do «Proêmio», que era o de considerá-lo como alegoria? (Diels, 1897; Bowra, Frankel, 1961; Deichgräber, 1959), caiu diante dos argumentos persuasivos, que constam de três publicações recentes (Tarán, Mansfeld, Burkert, 1969): a tendência? predominante é a de interpretá-lo literalmente (Mansfeld) ou a de «não lhe atribuir um significado? que não seja o diretamente expresso pelas próprias palavras» do filósofo? (Tarán). É claro que esta exigência preliminar não obriga a que se chegue necessariamente a idênticas conclusões; mas já meio? caminho percorremos ao encontro de um acordo? final, recusando-nos a admitir, como Dreichgráber (op. cit., p. 41), que nos trinta e dois primeiros versos do poema, «tudo é alegoria», mediante a qual Parmênides? quisesse dizer, por exemplo?, que, «toda vez que refletia sobre seus grandes pensamentos?, sentia-se elevado até um reino? da luz, para além de todas as coisas? terrenas» (Frankel, op. cit., p. 399). Não escrevemos os trinta primeiros parágrafos deste ensaio no propósito de introduzir o leitor no pensamento do grande Eleata, mais particularmente, para descobrir, por antecipação?, o verdadeiro? sentido do «Proêmio»; no entanto, é certo que a codificação? mítica do mistério? do horizonte preludia à codificação lógica? do mistério do Ser, e não precisamos seguir o admirável estudo? de Burkert (1969) até à conclusão de que uma catábase de Pitágoras? seria o pressuposto ou o antecedente? da catábase de Parmênides?: a mitologia do horizonte, tal como a expusemos, dispensa qualquer outra hipótese. Ver, no «Proêmio», uma catábase de Parmênides? — uma catábase, no mais amplo sentido da palavra? —, uma viagem aos confins da Terra?, tal como a empreenderam Gilgamesh e Héracles, seguindo o diurno caminho do Sol?, é a única maneira de evitar a cilada do alegorismo. Na imediata sequência?, verificaremos que o texto? suporta esta interpretação; mais: que a exige, enquanto não se proponha outra, pelo menos tão verosímil. E, sinceramente, duvidamos que tal venha a acontecer.


57. Em primeiro lugar, falemos acerca das interpretações que não se acham necessariamente apoiadas na leitura do texto, a) A viagem de Parmênides? é única, e não reiterada: o optativo ikánoi («alcance»), última palavra do primeiro verso, não é obrigatoriamente um interactivo, b) Nem o é para baixo, para o interior da terra, nem para cima, para as alturas do céu?, pois, quando se mencionam os «etéreos portais» (v. 13), não pode ficar esquecido? o «umbral de pedra» (v. 12). c) Não é Parmênides? quem se dirige da obscuridade para a luz, mas sim as Helíades, as divinas filhas do Sol — são elas que deixam «as moradas da Noite / para (chegarem) à luz» (vv. 9-10), no impreciso lugar de onde o filósofo já se pusera a caminho, d) A deusa inominada (v. 23), assim deve permanecer; pois não há razão? coegente para confundi-la com Dikè, a guardiã da porta, e) Menos importante, mas ainda considerável, é que, no primeiro verso: «as éguas que me tiram [que as éguas são animais de tiro, é o que se vê pela sequência: ‘as éguas tirando o carro’, no [v. 5] tão longe quanto o desejo? alcance», não está determinado se o desejo reside no coração? das éguas ou no coração do filósofo. f) A complexa interpretação de Deichgráber, dos vv. 11-21, em que vem descrita a porta e o seu funcionamento, mais engenhosa do que persuasiva, serve, por meio da alegoria, para provar a sua tese tendente a identificar a deusa-reveladora com Dikè; a nossa opinião, sujeita a eventuais objecções, é que o intuito de Parmênides? seria apenas o de estabelecer firmemente em nosso espírito? a ideia de que a mesma porta é inviolável, ou de que ela se abre só àqueles que, de algum modo?, mereceram o favor da deusa. Contornados ou removidos estes obstáculos, e não perdendo de vista a «mitologia do horizonte», podemos passar logo à interpretação que se nos afigura mais coerente. Entretanto, talvez não seja inútil, para ulteriores referências, uma versão que só difere das outras por já levar em conta as precedentes observações (vv. 1-5). «As éguas que me tiram tão longe quanto o desejo alcance, escoltavam-me, guiando elas, quando me enviaram (puseram na via) no celebrado caminho da divindade (o caminho que a divindade percorre), que por (sobre) todas as cidades conduz o homem vidente (sapiente). Por ele me conduziam, por ele me levavam os habilíssimos corcéis, tirando o carro, e donzelas à frente iam mostrando o caminho.» (vv. 6-10) «O eixo, deflagrando nos cubos, despedia o som estridulo da síringe, — pois, de ambos os lados era movido pelo turbilhão das rodas —, enquanto as filhas do Sol se apressavam em (nos) conduzir, tendo deixado, direito? à luz, as moradas da Noite, e com as mãos?, da cabeça, removendo seus véus.» (vv. 11-14) «Ali se encontram os portais dos caminhos do dia e da noite; em cima e em baixo são mantidos por um lintel e um umbral de pedra; eles próprios, os etéreos portais, estão cobertos de batentes, dos quais a Dikê vingadora possui as chaves cambiantes.» (vv. 15-21) «Com brandas palavras, as donzelas persuadiram-na que velozmente dos portais removesse a tranca aferrolhada, e a fauce escancarada dos batentes de súbito se abriu, quando os bronzeos pilares, guarnecidos de cavilhas e chavetas, nos mancais giraram, um após outro. Através dela e pela estrada ampla, as donzelas conduziram carro e corcéis.» (vv. 22-32) «Propícia a deusa me acolheu; e tomando na sua, a minha mão direita, assim falou, dizendo: ’Jovem, que em companhia das auriges imortais e trazido por esses corcéis, a nossa morada chegaste, eu? te saúdo! Pois não foi a sorte? ruim que por este caminho te enviou — que bem longe está ele das sendas humanas —, mas Dikê e Thémis. E preciso que tudo conheças, tanto o intrépido coração da verdade bem rotunda, quanto a opinião dos mortais, em que não há segurança verdadeira. E, no entanto, também isto aprenderás: como as aparências, que permeiam todas as coisas, tinham de ser aceitáveis.»


58. Parmênides? percorre o caminho do Sol, no próprio? carro do deus? (daímonos — ver v. 3 — podia referir-se à deusa-reveladora, mas esta ainda vem longe). E uma interpretação que esclarece o sentido, e se esclarece pelo sentido de algumas passagens do «Proêmio»: o caminho «celebrado» do sol passa «por (sobre) todas as cidades» (v. 3), mas «está bem longe das sendas dos homens» (v. 27); o carro é tirado por éguas «habilíssimas» (v. 4), pois muito bem conhecem o caminho que todos os dias transpõem, de oriente para ocidente, e sempre alcançam a meta de seu desejo (v. 1); as Helíades (v. 8), divinas filhas do Sol saem das «moradas da Noite» (v. 9) ao encontro do carro de seu pai. Poder-se-ia supor recearem elas que Parmênides?, qual novo Faéton (Burkert, op. cit.), corresse o perigo de transviar-se, ou de despenhar-se em algum lugar da terra, antes de atingir o horizonte; mas como o filósofo é um homem «vidente» (ou «sapiente») — eidóta phõta (v. 3), isto é, como Héracles, não empreendeu a viagem sem que fosse previamente iniciado, torna-se mais provável? que o procedimento das Helíades decorra do mérito? intrínseco? da iniciação (o anonimato da deusa também concorre para que se cogite numa iniciação prévia; cf. Burkert, op. cit.). Daí, também, que a deusa-reveladora (vv. 26-27), ao acolhê-lo, diga: «pois não foi a sorte ruim (moira? kakè) que por este caminho te enviou» — sorte ruim fora a de Faéton; Parmênides? sabe o caminho, desde seu «início». O caminho é o do sol, direito ao horizonte oeste. Sabemos que para lá da porta em que, para o lado de cá, se separam os caminhos do dia e da noite, estão as «moradas da Noite». Se escrevemos «noite», uma vez com minúscula e outra vez com maiúscula, é porque, pelo menos desde Hesíodo?, conhecemos a diferença?: noite e dia ocorrem alternadamente no mundo, desde que Céu e Terra se separaram, mas, de uma e de outro, matriz? comum é a Noite. Dikê guarda a porta do horizonte extremo?. Além dela reside a «forma? só» das duas contrárias formas da noite e do dia, das duas contrárias formas do Céu e da Terra (repare-se que na definição? dos contrários, no final do frg. 8, cf. supra [1], os qualificativos da Luz e da Noite implicam os que caberiam ao Céu e à Terra: «suave», «ligeiro», contraposto a «denso» e «pesado»); a Noite é sinal? de que, lá, ainda estes se encontram unidos. Em que outro lugar Parmênides? entenderia melhor a revelação da unidade («Via da Verdade») dos contrários («Opinião dos Mortais»)? Enquanto escutava a argumentação da deusa, o filósofo via, assistia, ele mesmo, à desocultação do que, para os outros homens, permanecia oculto?: de «iniciado», passara a «epopta». Começamos na «Doxa» e terminamos no «Proêmio»; poderíamos dizer com Parmênides?: «para mim é indiferente o donde quer que parta; com efeito, lá voltarei de novo» (frg. 5). A unidade interna de composição é o facto irrecusável: as três partes, são-no, efetivamente, de um todo, que, por sua vez, o não seria, eliminada que fosse qualquer delas. Em plena concordância com Hülscher (cf. nota? ao [2]), só nos resta acrescentar o seguinte: se é manifesto que há um arranque existencial? para a «mitologia do horizonte», tão manifesto é que, em Parmênides?, do mesmo problema existencial arranca a «metafísica do Ser». E o ponto? de arranque é a morte? (corrupção?); por negá-la, Parmênides? pagou o alto preço de também negar o nascimento (geração?): «assim a geração é extinta, e ininquirível a corrupção» (frg. 8, 21).


59. «Sem dúvida?, a deusa diz que o seu próprio sistema? (da ’Doxa’) é ’enganador’, o que não significa depreciação, mas advertência: não se pode equiparar o sistema das aparências ao sistema da verdadeira realidade?. O aviso é tanto mais oportuno, quanto é certo haver algo de semelhante? entre eles; de algum modo têm de ser semelhantes, pois havia que demonstrar que o mundo da aparência possuía uma realidade relativa. A porção de realidade que lhe cabe é determinada por sua relação? com os dois princípios? do Ser, e esses princípios são unicidade? e unidade. Enquanto ente?, a realidade é única [...] e una [...] porque ’o que é’ está isento de ’o que não é’. O sistema do mundo aparente?, esboçado por Parmênides?, também repousa sobre dois princípios, designadamente: dualidade? [... ] e mistura?, e estes são precisamente os que estão mais próximos dos verdadeiros princípios: a dualidade é o melhor que se segue à unicidade, e a mistura é a diversidade? mais unitária. Assim, a mistura de dois elementos contrários (Luz e Noite) reflete, no plano? do mundo aparente, a unidade do Ser. Esta reflexão? não é uma imagem? pura; todavia, é a que mais se aproxima (do modelo?). Por isso, a deusa pode declarar, confiante, que nenhum mortal, jamais ultrapassará esta teoria?.» (Verdenius, 1967, 116-117.) A citação extraída de um valioso e recente trabalho?, nada acrescenta ao que acima ficou escrito acerca da relação entre a «Verdade» e a «Doxa»; mas vemos nela, bem marcados, os pontos em que o pluralismo? de Empédocles? e o idealismo? de Platão? tanto se opõem ao pensamento de Parmênides?, quanto com ele se compõem. É evidente, em primeiro lugar, que o autor citado «platoniza» Parmênides?, ao falar? de uma imagem da verdade, reflectida no plano da aparência. Aliás, a «platonização» do Eleata é a tendência manifesta, sempre que, desatentos às recíprocas implicações das três partes do poema, e de cada uma delas na unidade da sua intuição? original, se nos depare a identificação do Ser e do Não-Ser?, respectivamente, com a Luz e a Noite. Que semelhante identificação seja abonada por autoridades como Fränkel, Deichgräber e Gigon, entre outras, não obsta a que a «simbólica? da luz» só com Platão? tenha feito a sua entrada solene e triunfante, na metafísica ocidental. O erro? vem de longe e o responsável é Aristóteles? (Met., I, 986 b, 27 e segs.): «Com efeito, (Parmênides?), considerando que fora de ’o que é’, ’o que não é’ nada é, pensa que necessariamente só uma coisa existe, o Ente, e nenhuma outra [...]. Mas, obrigado a levar os fenômenos em conta, e ao afirmar que o Uno? segundo o conceito? (katà tòn lógon) é múltiplo? segundo os sentidos (katà ten aísthêsin), também afirma que duas são as causas e dois os princípios, o quente e o frio, como se dissesse o Fogo? e a Terra, e põe o quente na ordem? de ’o que é’, e o outro na ordem de ’o que não é’.» O breve comentário de Schwabl (1953, p. 52) assinala o alcance do mal?-entendido, até o presente: «ora, os modernos tiraram daqui as mais latas inferências: o Ser da primeira parte («Via da Verdade») seria uma espécie? de luz potenciada (potenziertes Licht), a própria Luz, sem a contrária Noite, que, por isso mesmo, também não se chamaria luz, mas Ser: e assim estabeleceram, no campo? da investigação? de Parmênides?, a equação? sobremaneira funesta: Ser (no domínio lógico?) igual a Luz (no domínio estético) e Não-Ser (no domínio lógico) igual a Noite (no domínio estético)». Em verdade, não é por aqui que Parmênides? pressente o platonismo?, ou que Platão? consente no eleatismo?.


[1path:/Eudoro-Parmenides-Frag8|§ 53

[2path:/node/2984|§ 54

2 visiteurs en ce moment