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Poema de Parmênides

Parmênides – Poema - Fragmento 8

Versões

quinta-feira 16 de setembro de 2021

EUDORO DE SOUSA

8. «Só resta falar? de um caminho da inquirição: ’o que é’. Neste há muitos sinais de que ’o que é’ não foi gerado nem há-de perecer, pois aí está como um todo, único, inabalável, completo. Nunca ele foi nem será, porque é agora? todo ele, um só, contínuo. Pois que origem? querias que ele houvesse tido? Como, donde teria ele crescido? Nem consinto que digas ou penses que originado ele foi do que não é, pois nem pensar? nem dizer se pode que ’o que não é’, é. Demais, originado que fosse o ser do não-ser, que necessidade? o teria feito começar? depois, e não, antes? Assim, ou ele é todo ele, ou não é. Nunca a força da persuasão consentirá que ao lado do não-ser outra coisa? nasça (senão o não-ser). Eis porque jamais a Dike? redimiu os vínculos da geração e da corrupção, e tão firmes os mantém. E só nisto recai o juízo: o (ente?) é ou não é. Condenado necessariamente resulta um dos caminhos, porque impensável e inefável pois não é esse? o verdadeiro? — e, eleito, o outro?, o único caminho da verdade?. Como poderia ’o que é’ vir a deixar de ser? E como poderia ele ter? chegado a ser? Se foi, não é; nem é, se vier a ser. Portanto, extinta está a geração, e abolida, a corrupção. E indivisível é (’o que é’), pois todo ele é idêntico. Não há aqui um ser mais forte ou ali um ser mais fraco — o que romperia a coesão do todo. Não, tudo está repleto do mesmo (ser). Por isso, todo ele é contínuo, pois ’o que é’ é contíguo a ’o que é’. E imóvel; inalterável dentro dos limites? de poderosos vínculos, sem princípio nem fim?. Porque a geração e a corrupção para muito longe foram banidas pela verdade persuasiva. Como o mesmo, no mesmo persistindo, ele jaz em si (mesmo), sempre no mesmo lugar? permanecendo. A poderosa Ananké o mantém nas vigorosas cadeias que o circundam. E é por isso que não pode ’o que é’ ser infinito?; pois de nada? carece. Infinito que fosse, de tudo careceria. O mesmo é o pensar e aquilo por virtude? do que o pensamento? é; porque, apartado do ser, no qual o pensamento se expressa, nunca encontrarás o pensar. E não há nem jamais haverá o quer que seja, fora de ’o que é’, porque a Moira? o agrilhoou de modo? a que permanecesse inteiro e imóvel. Eis porque (simples?) nome? será o que os mortais em sua linguagem? fixaram, persuadidos de que era verdadeiro: geração e corrupção, ser e não-ser, mudança de lugar e câmbio de brilhantes cores. Mas havendo limites últimos, completo é (’o que é’), de todos e por todos os lados comparável a bem arredondada bola, igualmente equilibrada do centro para toda a periferia. E impossível, então, que algo seja, aqui ou ali, maior ou mais fraco. Pois nem é o não-ser, que obste à igual extensão do ser, nem ’o que é’ poder ser mais aqui e menos ali — inviolável que todo ele é. Igual a si mesmo de todos e por todos os lados, igualmente vai tocar os próprios limites.

Assim termino este fidedigno discorrer e pensar acerca da verdade. Doravante aprende a conhecer? as opiniões dos mortais, escutando o ilusório arranjo? de minhas palavras?. Pois convieram os mortais em nomear? duas formas?, das quais não é permitido nomear uma só — no que andam errados — e estabelecer opostas figuras, as caraterísticas apartando, de cada uma: de um lado o etéreo fogo?, doce, subtil, a si mesmo sempre igual, mas à outra não idêntica; e a outra não é senão a contrária: a sombria Noite, figura? grave e espessa. Tal a ordem? que te anuncio, de todo verosímil, para que jamais te ultrapasse alguma opinião dos mortais.»

GREDOS XII

«Un solo camino narrable
queda: que es. Y sobre este camino hay signos
abundantes: que, en tanto existe, es inengendrado e imperecedero;
íntegro, único en su género, inestremecible y realizado plenamente;
nunca fue ni será, puesto que es ahora, todo a la vez,
uno?, continuo. Pues ¿qué génesis le buscarías?
¿Cómo, de dónde habría crecido? De lo que no es, no te permito
que lo digas ni pienses, pues no se puede decir ni pensar
lo que no es. ¿Y qué necesidad lo habría impulsado
a nacer antes o después, partiendo de la nada?
Así es forzoso que exista absolutamente o que no [exista].
Jamás la fuerza de la fe concederá que de lo que es
se genere algo fuera de él, a causa? de lo cual ni nacer
ni perecer le permite Dike, aflojándole las cadenas,
sino que lo mantiene. Pero la decisión acerca de estas cosas reside en esto:
es o no es. Ahora bien, está decidido, como lo [exige] la necesidad,
dejar un [camino], impensable o innombrable (ya que no es un verdadero
camino), y [admitir] el otro que existe y es verdadero.
¿Cómo podría ser después lo que es? ¿Cómo se generaría?
Pues si se generó, no es, ni [es] si ha de ser en algún momento? futuro?.
De tal modo, cesa la génesis y no se oye más de destrucción.
Tampoco es divisible, ya que es un todo homogéneo,
ni mayor en algún lado, lo que impediría su cohesión;
ni algo menor, sino que todo está lleno de ente; por ello
es un todo continuo, pues el ente se reúne con el ente.
Pero inmóvil en los límites de grandes ligaduras
existe sin comienzo ni fin, puesto que la génesis y la destrucción
se pierden a lo lejos, apartadas por la fe verdadera.
Lo mismo permanece en lo mismo, y descansa en sí mismo,
y así permanece firme en su posición; pues la poderosa Necesidad
lo mantiene en las ligaduras del límite, que lo rodea en su torno.
A causa de lo cual al ente no le es lícito ser inacabado,
pues no carece de nada: si [careciera de algo] el ente, carecería de todo.
[Lo que] puede pensarse es lo mismo que aquello por lo cual existe el pensamiento.
En efecto, fuera del ente —en el cual tiene consistencia lo dicho—
no hallarás el ente. Pues no hay ni habrá nada
ajeno aparte de lo que es; ya que el Hado lo ha forzado
a ser íntegro e inmóvil; por eso son todo nombres
que los mortales han impuesto, convencidos de que eran verdaderos:
generarse y perecer, ser y no [ser],
cambiar de lugar y mudar de color brillante.
Pero puesto que hay un límite último, es completo
en toda dirección, semejante a la masa de una esfera? bien redonda,
equidistante del centro en todas direcciones; pues es forzoso
que no exista algo mayor ni algo menor aquí o allí.
No hay, en efecto, no-ente que le impida alcanzar
la homogeneidad, ni ente que de algún modo
sea aquí o allí mayor o menor, ya que es por completo incólume;
igual por todos lados, se encuentra en sus lados.
Con esto termino el discurso? fidedigno y el pensamiento
acerca de la Verdad.»
«Y ahora aprende las opiniones de los mortales,
escuchando el engañoso orden de mis palabras.
Según sus pareceres han impuesto nombres a dos formas,
de las cuales no se puede a una sola: en eso se confunden.
Y las han discernido como opuestas en figura y les han puesto señales
que las separan entre sí; allí el etéreo fuego de la llama,
suave, muy liviana, idéntica por doquier a sí misma,
pero no idéntica a la otra; pero también aquella , en sí,
opuesta, noche oscura, de conformación densa y pesada.
Yo te narro este ordenamiento cósmico como un todo coherente,
de modo que el parecer de alguno de los mortales jamás te supere.»

JEAN BRUN

COMENTÁRIO

Parmênides   é célebre por ter dito? e proclamado que o Ser é e o Não-Ser não é. O Ser, sendo o que é, não pode ser negado, mesmo parcialmente, embora Parmênides   elimine todo o recurso? ao movimento?, à mudança e ao devir?.

O Ser é, é não engendrado e imperecível, sem fim, «nunca era ou será, pois é agora todo inteiro, simultaneamente uno e contíguo a si mesmo» (VIII, 5). É indivisível (VIII, 22), imóvel nos limites de laços poderosos (VIII, 26), imutavelmente fixo ao mesmo sítio (VIII, 30); é sem falha (VIII, 34), terminado de todos os lados, semelhante? à curvatura de uma esfera bem arredondada; possuindo raios iguais a partir do centro, porque, nem maior nem menor, não poderia estar? aqui ou acolá (VIII, 41). Ignora, portanto, a dispersão e a reunião (IV). Não pode ter vindo do Nada (VIII, 7), é eterno e imóvel, ignora, por conseguinte, o tempo? e o espaço.

Do que fica dito, tem de concluir-se que o não-ser não é. Como conhecer, ou mesmo nomear, o que não é? Sabe-se que, mais tarde, os Megáricos se refugiarão por detrás de semelhantes afirmações, para pretenderem que nós apenas podemos nomear o ser e que é impossível sair do princípio de identidade? A é A, sob pena? de definir? uma coisa pelo que não é ela. Sabe-se também que, no Sofista?, Platão cometerá o «parricídio», tomando a direção oposta da afirmação de Parmênides  , que proporciona ao sofista a ocasião de pretender que não poderia afirmar o erro?, porque o erro, sendo por definição não ser, não poderia ser nomeado.

Vê-se, pois, no que se funda a oposição tradicional do eleatismo? e do heraclitismo?. A filosofia? do Ser, por um lado, e a do Devir, por outro, surgiram como dois pontos de vista opostos sobre o mundo?, que vários filósofos procuraram conciliar, falando de um Devir do Ser ou mesmo de um Ser do Devir.

Todavia, a exposição da filosofia parmenidiana começa por apresentar grandes dificuldades a partir do momento em que se passa da oposição do Ser e do Não-Ser ao estudo? das vias.

PETER KINGSLEY

COMENTÁRIO

Excerto de KINGSLEY  , Peter. Reality?. Inverness: The Golden Sufi Center, 2003, p. 69-72.

Às vezes, as coisas pioram antes de melhorarem. E o enigma sobre os dois caminhos que "existem para pensar" é apenas o começo dos enigmas? de Parmênides  .

A escolha? misteriosa que ele nos apresenta entre dois caminhos ainda mais misteriosos já é bastante obscura - entre a rota de “é, e não é possível não ser” e a outra rota que a deusa descarta como caminho não real? porque não pode haver pensamento a respeito? do que não é, nenhuma fala? sobre ele, nenhum reconhecimento? dele.

Isso não é nada, porém, comparado ao enigma que está por vir.

Com qualquer outro escritor, seria incrível como uma declaração tão curta poderia causar tantos mal?-entendidos. Mas com Parmênides   nada é impossível. Alguns dos maiores filósofos do mundo antigo entenderam sem hesitar o significado? de que ele identificava pensamento com existência; e essa identificação chegou a ser vista como uma espécie de marca registrada para seu ensinamento. A maioria dos estudiosos modernos também só fica feliz em interpretá-lo e traduzi-lo exatamente da mesma maneira: "Pois pensar e ser são o mesmo".

As dificuldades que envolvem esta tradução de todos os lados são esmagadoras. Não menos importante é o fato? de que, mais tarde em seu poema, Parmênides   nega claramente que pensar e ser são os mesmos. Para ter certeza?, ele explica em detalhes como um está relacionado com o outro - mas idênticos eles definitivamente não são.

O problema? é que essa maneira de traduzir as palavras de Parmênides   é bastante natural?. De fato, é a maneira mais simples e óbvia de interpretar sua afirmação, e é por isso que tantas pessoas assumiram que ela deve estar correta.

E eles caíram direto na armadilha.

Voltamos àquela coisa que tende a ser bastante certa quando se lida com linguagem e enigmas iniciáticos. A escolha fácil levará você a se perder. O significado óbvio e simples, o que parece tão claramente certo, é o errado: apenas uma pista falsa, um beco sem saída. Para aqueles que estão dispostos a olhar, observar? como tudo se encaixa, resistir à solução rápida, sempre haverá outro significado esperando para ser visto. E, neste caso, Parmênides   deixou todos os sinais de que precisamos para descobrir o que é.

As primeiras palavras são geralmente as mais importantes; mas pode ser fácil perder como, logo no início de seu anúncio sobre a existência de dois caminhos diferentes, a deusa os apresenta como os únicos caminhos que "existem para pensar". Essa expressão "existe para pensar" é surpreendente no grego? original. Traduzido literalmente, a escolha particular? de palavras de Parmênides   significaria que esses são os únicos dois caminhos que "são a pensar". Para as palavras significarem "existem para pensar": isso era perfeitamente aceitável no idioma? grego de sua época. Mas, mesmo assim, era uma maneira bastante especial de escolher se expressar.

E o mesmo tipo? de redação ocorre aqui mais uma vez, assim como continuará aparecendo em pontos-chave do poema. Tudo o que precisamos fazer é pegar a dica de Parmênides   e dar a ela o mesmo significado nesta segunda passagem que certamente tem na primeira. Então tudo se encaixa:

Pois o que existe para pensar, e ser, é o mesmo.

O que existe para pensar é o que seja que és capaz de pensar. Então, em outras palavras, Parmênides   está dizendo que qualquer coisa que possas pensar sobre tem que existir? para que penses sobre ela. E, graças à estranha lógica encontrada apenas nos reinos do absurdo?, isso imediatamente faz todo sentido? quando colocado ao lado do que a deusa já disse.

Afirmar que pensar e ser são os mesmos seria dizer algo sobre a existência do pensador. Mas levantar a questão do que existe para o pensamento é muito diferente: é, ao invés, dizer algo sobre a existência do que pode ser pensado, do que pode ser ponderado, reconhecido ou considerado. E, como já sabemos, essa é a preocupação fundamental da deusa. Pois assim que ela apresenta os dois caminhos da investigação, ela descarta o segundo imediatamente, porque não há como reconhecer o que não é - não há como percorrer esse caminho - ou dizer alguma coisa sobre isso.

A inexistência é irreconhecível, não mencionável, impensável. Tudo o que você pensa deve existir simplesmente porque existe para você pensar sobre. E é claro que isso é totalmente absurdo. Isso significa que os unicórnios teriam que existir apenas porque podemos pensar neles ou imaginar um. Mas se queremos entender Parmênides  , a pior coisa que podemos fazer é descartar o absurdo. Pelo contrário, temos que segurá-lo o mais firme possível.

E é aqui que devemos lembrar, mais uma vez, o lugar em que Parmênides   acontece se encontrar enquanto ouve essas palavras da deusa.

Ele está "longe da trilha batida dos humanos" no mundo dos deuses?. E, para os gregos, o mundo dos deuses tinha uma característica muito particular. Isto é que simplesmente pensar em algo é fazê-lo existir: é fazê-lo real.

Parmênides   está trazendo de volta uma mensagem? do reino? das deusas e entes divinos para as pessoas no mundo dos vivos - ou pelo menos para o mundo daqueles que imaginam estar vivendo. Para ser mais preciso, ele está retornando com uma revelação sobre as leis? da realidade divina e sobre as leis da existência humana. A lei humana é que passarás a maior parte? de tua vida? pensando desesperadamente em maneiras para as coisas que queres existirem e as que temes não existirem.

Quanto à lei divina: o próprio fato de pensar em algo é a garantia? de que ele já é.


Excerto de KINGSLEY  , Peter. Reality. Inverness: The Golden Sufi Center, 2003, p. 73-76.

Dizer que qualquer coisa que pensemos deve existir: isto pode não soar a mais prática afirmação a fazer. Então, precisamos ver o que realmente significa.

Construímos um muro entre o pensamento e a realidade.

Durante toda a nossa vida, medimos nossos pensamentos? contra o que parece ser a realidade do mundo externo?. Decidimos chamá-los ineficazes, sem propósito, imaginativos, irreais; ou apropriados, frutíferos, construtivos, realizáveis.

Com Parmênides  , todas essas distinções caem.

Para ele, qualquer pensamento é sobre algo que existe: é parte tão real, tão perfeita da realidade, quanto qualquer outra. Seu critério de retidão não jaz em sua relação com um mundo externo sólido, concreto? e objetivo? - mas em si mesmo.

Todo pensamento é sua própria validação. Não precisa de confirmação fora dele. O que seja que somos capazes de pensar é verdade.

E o mais fascinante é ver como as pessoas reagem a isso. Os estudiosos correm tolamente para qualificar o que Parmênides   diz. Eles afirmam que, quando ele fala sobre pensar, não está apenas falando sobre qualquer tipo de pensamento, mas sobre o pensamento correto, o bom pensamento, o pensamento verdadeiro - sobre pensamentos que têm um relacionamento genuíno com a realidade.

Mas não é isso que ele está dizendo. Ele não está falando sobre qualquer tipo particular de pensamento: ele está se referindo a todo e qualquer pensamento que tenhamos.

Absolutamente tudo está incluído. E é por isso que a mensagem da deusa é tão difícil de entender. Seria muito confortável para nossas mentes se ela discriminasse; distinguir entre o pensamento certo e o errado, útil e inútil, bom e ruim. Mas não há nada disso.

A própria deusa é totalmente cruel em sua generosidade. O que seja que você pense, existe.

É tão importante ver quanto dependemos da discriminação - quanto precisamos emocionalmente, intelectualmente, espiritualmente - e como Parmênides   a destrói. Aqui está o fundador da lógica, o homem? a quem alguém poderia esperar buscar distinções claras: processos? formais de exclusão e rejeição.

Mas ele não dá. Tudo o que ele rejeita é o que não existe, e nada não existe.

À nossa maneira, muito particular, cada um de nós está sempre procurando orientação; por instruções sobre como pensar e o que não pensar. Mas com Parmênides  , somos confrontados com tudo - com direção que nos levará além de qualquer direção. Somos forçados a seguir um caminho que leva a todos os lugares?. E não há respostas, nem esclarecimentos.

Ser verdadeiramente guiado pelo que ele diz é descobrir que não há nada, exceto o que é: é segui-lo para o que, para nossas mentes discriminadoras, são oceanos de confusão, ondas de perplexidade?. A princípio, podes pensar que, com a sólida ajuda de suas palavras, podes tocar em terra? firme. Porém, quanto mais tentas, mais se mantém um pouco além do seu alcance. O deserto do raciocínio se torna uma miragem dentro do oásis de significado impensável.

E há um truque aqui, uma grande ironia? que só pode ser apreciada se realmente tomares a deusa nas palavras dela.

O truque é que, no momento em que aceitas todos os pensamentos como igualmente verdadeiros e também vês a verdade disso, todo o pensamento se desvanece em irrelevância. É simplesmente uma reação de medo tentar fingir que Parmênides   está preocupado com o pensamento correto, o pensamento bom ou preciso, porque isso pelo menos nos dá um objetivo de continuar pensando nosso caminho em direção a algo. A ironia é que, ao aceitar todos os pensamentos, ele está realmente nos levando além do pensamento: mostrando-nos que não importa, ajudando-nos a deixar tudo para trás.

Ao dizer que tudo o que podemos pensar é verdade, ao recusar-se a discriminar entre pensamento e pensamento, a deusa indica que, em última análise, ela não está preocupada com os pensamentos.

Não há como entender isso tentando pensar ou resolver o problema, porque o que seja que aconteças pensar sobre isso será verdade. Não há pensamento sobre pensamento, porque dessa maneira cais diretamente no mundo do pensamento que estás tentando definir. Não há discussão, porque estás apenas discutindo contigo mesmo.

A única maneira possível de entender é recuar na quietude? que está por trás do pensamento e ver as coisas como realmente são. É como assistir a centenas de cores, cada uma tentando convencê-lo de que é a mais importante - depois recuando e vendo que todas formam um único arco-íris. Pensamentos em si mesmos estão sempre levando à divisão e separação. Mas todos os pensamentos, juntos, são um todo.

Nós somos nosso próprio inimigo. Tudo é um. E não há necessidade de lutar por nada, porque tudo o que pensamos já existe: nada a cumprir, nada a temer.

Pensar é o domínio de tudo o que sabemos, ou pensamos que sabemos. E este fim da discriminação é o fim de toda sabedoria?, o fim da filosofia - e também o seu começo. É onde tudo para o qual trabalhamos ou tentamos trabalhar por nós mesmos se torna inútil.

E é aí que o profeta entra, trazendo notícias impossíveis de outro mundo.


Excerto de KINGSLEY  , Peter. Reality. Inverness: The Golden Sufi Center, 2003, p. 77-78.

Se estás te perguntando por que Parmênides   se concentra tão exclusivamente no pensamento, a resposta é bastante simples. Ele não o faz.

A partir do momento em que ele aborda o assunto do pensamento - quando introduz o enigma sobre os dois caminhos diferentes que “existem para o pensamento” - ele usa uma palavra específica para isto em grego. A palavra é noein?, que foi um redemoinho de sutis noções.

Certamente, na época de Parmênides  , esta palavra tinha o senso? de pensar. Mas havia muito mais do que isso. Essa única palavra se referia tanto ao ato? de perceber quanto ao ato de pensar: direcionar a percepção intuitiva?, bem como a percepção através e com nossos sentidos. E, mesmo além disso, descrevia exatamente o que hoje em dia nos referiríamos como consciência ou consciência.

Uma vasta gama de significados pode ser irritante para nossas mentes modernas. Mas precisamos lembrar que todos esses sentidos diferentes só parecem diferentes ou separados para nós - e que seria um grande erro acreditar que Parmênides   estava se referindo com essa palavra a nada além dos pequenos pensamentos girando em nossas cabeças.

Ele a estava usando para cobrir todo o espectro de nossa existência como seres conscientes, sensíveis e inteligentes. E o caminho gradualmente sendo traçado para nós, aquele que se espera que sigamos, é uma linha absolutamente inflexível de cem por cento de aceitação: o que quer que estejamos cientes de, assim é; o que quer que percebamos ou notemos, assim é; o que quer que pensemos, assim é.

Mas tão importante quanto este endosso, esta aceitação total, é o fato de Parmênides   também estar também dizendo outra coisa quando identifica formalmente a existência com o que existe para perceber ou pensar.

Não há nada que exista exceto o que pode ser pensado ou percebido. Em outras palavras, o mundo não é em absoluto? o que pensamos que é; ou melhor, é exatamente o que pensamos, mas apenas porque pensamos. E o que quer que pensemos que não é, isso é o que é assim também.

Não somos pequenas fagulhas insignificantes perdidas em alguma margem de um vasto universo? impessoal? - a menos que desejemos acreditar que somos. Em última análise, o mundo é exatamente onde acontecemos ser/estar. Todo o resto é nossa imaginação. Onde quer que estejas, em algum corredor sombrio ou observando árvores do lado de fora da janela, este é o centro da realidade e teus pensamentos são suas margens.

A situação é de absoluta simplicidade: simples demais para nossa mente? pensante entender. A existência não está em nenhum outro lugar, não está em algum lugar separado de nós. Mas realmente entender isso significa ter que assumir uma tremenda responsabilidade? pelo que somos.

E assim que se vislumbra isto, qualquer sensação de isolamento de qualquer coisa que seja se dissolve. No momento em que entendes que o único critério da realidade é pensamento e percepção, que não há nada que não é, então tudo está subitamente unido - ligado a si mesmo em um continuum perfeito?.

Não há nada além de plenitude, plenitude absoluta. Toda a existência é um todo completo e ininterrupto.


Parmênides – Poema
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