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Poema de Parmênides

Parmênides – Poema - Fragmento 3

Versões

quinta-feira 16 de setembro de 2021

EUDORO DE SOUSA

3. «pois o que existe para pensar? e ser, é o Mesmo».

GREDOS XII

«Pues lo mismo puede ser y pensarse».

BARBARA CASSIN

Um mesmo é com efeito? ao mesmo tempo? pensar e ser.

JEAN BRUN

Resume-se a poucas palavras? to gar auto noein? estin te kai einai, mas qualquer tradução é já uma interpretação. Uma tradução muito corrente é a que consiste em ler: «É a mesma coisa? pensar e ser.» F.-M. Cleve [1] vai mesmo ao ponto? de ver nesta fórmula like an ancient cogito? ergo sum. Mas Burnet protesta contra uma tradução que, em seu entender, é um arcaísmo filosófico [2] e traduz: «Uma só e mesma coisa pode ser concebida e pode ser.» Jean Beaufret   traduz por seu lado: «O mesmo, esse?, é ao mesmo tempo pensar e ser.» Esta última tradução apoia-se numa interpretação de Heidegger   em que vale a pena? determo-nos.

Para Heidegger   [3], o cristianismo? teria deformado o sentido? deste pensamento? de Parmênides  . Seria contrassenso crer que o ser não é mais que o ato? do pensamento. Conviria então perguntar o que significam to auto e te ... kai, depois o que quer dizer noein e, por fim?, que sentido convém atribuir a einai. Seguiremos a análise que Jean Wahl   faz desta exegese de Parmênides   por Heidegger   [4]. O noein seria a physis?, isto é, o reino? que se abre e desenvolve na luz?, o ser que é aparecer? e manifestação. Quanto ao noein, que se traduz por conhecer?, é preciso não ver nele qualquer pensamento lógico. Conviria traduzi-lo por entender, no seu significado? de acolher, deixar vir a si (daí o derivado entender-se e o substantivo entendimento?), e ainda por atender, no sentido de ouvir uma testemunha a quem se concede a palavra. Assim o noein seria o entendimento daquele que concorda com qualquer outro? e o atendimento daquele que escuta e toma uma posição de vénia para receber o adversário e levá-lo a deter-se imediatamente. Por isso, para Heidegger  , o noein seria o ato de trazer o que aparece ao ser e o de o deter.

Quanto ao to auto, designaria a unidade?, não a da pura uniformidade e identidade? como indiferença, mas como pertença recíproca do contrastante. Ou seja, segundo uma ideia? cara a Heidegger  , Parmênides   convergiria aqui com Heráclito   falando da unidade dos contrários. Portanto, o verso de Parmênides   significaria que, entre o ser e o entendimento do ser, há uma espécie de contradição unitária, isto é, é preciso que ao mesmo tempo ambas as coisas saiam uma da outra e sejam unidas uma à outra.

«É preciso reconhecer que na aurora do pensamento, muito tempo antes que se viesse a formular? um princípio de identidade, a própria identidade falara, numa sentença que afirmava: o pensamento e o ser têm lugar? no mesmo e amparam-se mutuamente a partir deste mesmo.» [5]

Seria um erro? acreditar que podemos ir do Dasein? ao Sein. O homem? não possui o entendimento do ser, apenas porque o ser a ele se abre; é, pois, o Sein que explica a luz que pode haver no Dasein. Heidegger   apoia ainda esta interpretação no fragmento VIII, 34: tauton d’esti noein te kai ouneken esti noema?, que traduz por: «O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa.» Por isso noein seria tomar uma saída privilegiada, que sieria a via do Ser. Mas Heidegger   pretende ir mais longe e mostrar que o noein equivale finalmente à phisis, ou ao Logos? heraclitiano. Para tal, apoia-se no fragmento VI, I.

PETER KINGSLEY

Pois o que existe para pensar, e ser, são um e o mesmo.


Resumo comentário de KINGSLEY  , Peter. Reality?. Inverness: The Golden Sufi Center, 2003, p. 69-72.

A tradução do fragmento 3 como "pois pensar e ser são um e o mesmo", apresenta dificuldades. A começar? por Parmênides  , mais adiante no próprio poema, negar que pensar e ser sejam o mesmo. Ele explica em detalhe como um está relacionado com o outro — mas idênticos definitivamente não são.

Se tomarmos em consideração a expressão "existem para pensar" utilizada pela deusa no parágrafo II, nos defrontamos com algo surpreendente no original grego?. Literalmente traduzido, a escolha? particular? de Parmênides   por palavras significaria que estes são os únicos dois caminhos que "estão para o pensar". E estas mesmas palavras ocorrem aqui no fragmento III, assim como continuarão aparecendo em outros pontos chaves do poema. Tomando a indicação do próprio Parmênides  , podemos dizer que mantendo o significado da primeira ocorrência, aqui no parágrafo III ter?íamos então: "Pois o que existe para pensar, e ser, são um e o mesmo".

O que existe para pensar é o que quer que se seja capaz de pensar sobre. Assim, em outras palavras, Parmênides   está dizendo que algo que se possa pensar sobre, tem que existir? para se pensar sobre. E graças à estranha lógica só encontrada nos domínios do sem-sentido, isto imediatamente faz perfeito? sentido quando posto em paralelo com o que a deusa já tinha dito? no parágrafo II.

Afirmar que pensar e ser são mesmo seria dizer algo sobre a existência do pensador. Mas levantar a questão do que existe para pensar é bem diferente: é dizer algo ao invés sobre a existência do que pode ser pensado, do que pode ser ponderado ou reconhecido ou considerado. E, como já sabemos, esta é a preocupação fundamental da deusa. Pois assim que introduz os dois caminhos de inquirição ela descarta o segundo imediatamente porque: "não há nenhum caminho que possas reconhecer que não é — não há nenhum viajar nesse caminho — ou dizer algo sobre ele".

Não-existência é irreconhecível, não mencionável, impensável. O que quer que se pense sobre, deve existir simplesmente porque existe para se pensar sobre. E certamente isto é totalmente absurdo?. Significa que unicórnios teriam que existir só porque se pode pensar sobre eles ou imaginar um. Mas se queremos compreender? Parmênides   então a pior coisa que podemos fazer é descartar o absurdo. Ao contrário, devemos guardá-lo tanto quanto possível.

Construímos um muro entre pensamento e realidade. Toda nossa vida? medimos nossos pensamentos? contra o que parece ser a realidade do mundo? externo?. Decidimos chamá-los inefetivos, sem propósito, imaginativos, não real?ísticos; ou apropriados, frutíferos, construtivos, realizáveis. Com Parmênides   estas distinções são derrubadas.

Para ele qualquer pensamento é sobre algo que existe: é tão real, tão perfeito como parte? da realidade, como qualquer outro. Seu critério de justeza jaz não em sua relação a algum mundo externo, objetivo?, concreto?, sólido — mas em si mesmo.

Todo pensamento é sua própria validação. Não necessita confirmação fora dele. O que quer que sejamos capazes de pensar é verdadeiro?. O que deixa os "escolásticos" em pânico, buscando qualificar que tipos de pensamentos se enquadram na afirmação de Parmênides  . Mas ele não está fazendo restrições a certos pensamentos naquilo que afirma: ele está se referindo a cada um e todos os pensamentos que acontecem se ter. Na fala? da deusa não há distinção entre? bons e maus pensamentos.

Aceitando a existência de todo e qualquer pensamento somos levados além do pensamento, a sua não importância, a indicação de que para deusa não há uma preocupação com os pensamentos. É um apontamento para que nos recolhamos sob o pensar e vejamos o que realmente são. É como se olhássemos centenas de cores, cada uma tentando te persuadir que acontece ser a mais importante — então com uma passo atrás as vemos formando um único arco-íris. Pensamentos em si levam sempre à divisão e à separação. Mas todos os pensamentos, juntos, são um único todo.

Somos nosso próprio inimigo. Tudo é um. E não há necessidade? de se esforçar por nada? porque o que quer que pensemos já existe: nada a completar, nada a temer. O pensar é o domínio de tudo que conhecemos, ou pensamos conhecer. E este fim à discriminação é o fim de toda sabedoria?, o fim da filosofia? — assim como seu início. É onde tudo que fazemos o tentamos fazer por nós mesmos se torna inútil.

É preciso lembrar em toda esta reflexão que o termo? que Parmênides   usa quando traz à atenção a questão do pensar, é a palavra grega noein, que tem uma miríade de nuances. Certamente o sentido de pensar, mas muito mais, referindo-se tanto ao ato de perceber como ao ato de pensar: à percepção intuitiva? e direta assim como à percepção através de nossos sentidos. E além disso, descrevendo exatamente o que em nossos dias nos referiríamos como consciência ou presença. Assim o caminho que ele nos guia é o da aceitação: o que quer que se está consciente?, "é"; o que quer que se percebe ou se nota?, "é"; o que quer que se pense, "é".

Mas tão importante quanto este endosso, esta total aceitação, é o fato? que Parmênides   está também dizendo algo mais quando formalmente identifica existência com o que existe para perceber e pensar. Não há nada que exista exceto o que pode ser pensado ou percebido. Em outras palavras, o mundo não é em absoluto? o que pensamos que é; ou melhor é exatamente o que pensamos que é mas somente porque o pensamos. E o que quer que pensemos que não é, isso é o que ele é também.


Parmênides – Poema
Parmênides – Poema - Proêmio
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[1F.-M. CLEVE, The Giants of Pre-Sophistic Greek Philosophy, t. II, p. 528.

[2BURNET, L’aurore de la philosophie grecque, p. 200.

[3Cf. HEIDEGGER, Essais et conférences, p. 166, 279, sq.; Qu’appelle-t-on penser?, p. 222; Introduction a la métaphysique, p. 150; Le principe d’identité (trad. Questions, I, A. Préau, trad., Paris, 1968, p. 257).

[4J. WAHL, loc. cit., p. 159 sq.

[5Le principe d’identité, op. cit., p. 261.