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Poema de Parmênides

Parmênides – Poema - Fragmento 2

Versões

quinta-feira 16 de setembro de 2021

EUDORO DE SOUSA

2. «Pois bem; vou dizer — e tu acolhe as minhas palavras? depois de as escutar — quais são os caminhos da inquirição, os únicos pensáveis. Um caminho: ’que é’ e não é possível não ser. Esta é a via da persuasão (e a persuasão acompanha a verdade?). Outro? caminho: ’que não é’ e necessariamente (existe) o não-ser. Por esta via, digo-te eu?, nada? se pode aprender; pois nem poderias tu conhecer? o não-ente? (porque não é possível) nem dizê-lo.»

GREDOS XII

«Pues bien, te diré, escucha con atención mi palabra,
cuáles son los únicos caminos de investigación que se puede pensar?;
uno?: que es y que no es posible no ser;
es el camino de la persuasión (acompaña, en efecto, a la Verdad);
el otro: que no es y que es necesario no ser.
Te mostraré que este sendero es por completo inescrutable;
no conocerás, en efecto, lo que no es (pues es inaccesible)
ni lo mostrarás.»

BARBARA CASSIN

Vem que enuncio — mas tu, encarrega-te do relato que ter?ás ouvido —
quais vias de investigação são únicas a pensar:
uma que é e que não é não ser,
é o caminho da persuasão, pois ele segue a verdade;
outra que não é e que é necessidade? de não ser,
esta, eu te indico que é uma trilha de que não se pode nada saber?
pois tu não poderias conhecer isto que, em todo caso, não é (pois não se pode chegar à conclusão)
nem exprimi-la

JEAN BRUN

COMENTÁRIO

A Divindade que fala? a Parmênides   diz-lhe:

«Vem agora?, vou-te dizer — e tu presta atenção às minhas palavras e guarda-as em ti mesmo — as duas únicas vias de procura que se podem conceber?. A primeira, a saber, que o ser é e que é impossível para ele não ser, é a via na qual se deve confiar, pois segue a Verdade. A segunda, a saber, que o ser não é e que o não-ser é necessário, esta via, eu to digo, é um caminho onde não se encontra nada em que se possa confiar.» (fgt. II)

Parmênides   fala, portanto, explicitamente de duas vias: a via da verdade, que diz como o ser é, e que é impossível que ele não Seja; a segunda, que diz que o ser não é e que o não-ser é necessário, via que não oferece qualquer saída.

Os intérpretes tradicionais (o que não quer dizer que sejam os menos perspicazes) dizem que não havia outro meio? paia Parmênides   de se recusar a pensar o não-ser senão afirmar que não se deve pensar nele. Mas, na Introdução à Metafísica, Heidegger   pretende que, afinal, dizendo que não é preciso pensar o não-ser, Parmênides   pensa-o e eleva, assim, o pensamento? do não-ser a uma espécie de conhecimento. Para Heidegger  , devemos ter um conhecimento desta via intacta, que não podemos pisar, nisto, que ela conduz ao não-ser. Eis, segundo Heidegger  , o mais antigo ensinamento da filosofia? acerca do facto? de que, ao mesmo tempo? que a via do Ser, a via do Nada deve ser pensada e, sempre segundo Heidegger  , ignora-se tudo na questão do Ser, quando se diz que o Nada não é nada. Por mais interessante? que seja, esta interpretação é discutível, mas tem o mérito? de nos esclarecer sobre o pensamento do próprio Heidegger  .

Um outro problema? se pôs aos comentadores de Parmênides  : não haveria ali lugar? para uma terceira via? Na segunda parte? do poema (i.é, a partir de VIII, 50), trata da via da opinião e tudo é apresentado sob a categoria? da dualidade?:

«Aqui ponho fim? ao meu discurso? digno de fé e à minha consideração que abarca a verdade», prossegue a Divindade, que acaba de falar? da via do Ser, «aprende, a partir daqui, o que os mortais têm em vista, e presta atenção à ordem? enganadora das minhas palavras. Os mortais têm, com efeito?, dado? a sua confiança à nomeação de duas formas?, uma das quais não deveriam nomear?, e é neste ponto? que eles se afastam da verdade. Julgaram-nas opostas quanto à forma e deram-lhes sinais diferentes uns dos outros». É por isso que os homens pensam que todas as coisas? estão cheias ao mesmo tempo de Luz? e Treva.

Parece, pois, que nos encontramos perante uma terceira via, a da opinião, que não seria nem a via do Ser nem a do Não-Ser. Para numerosos comentadores, por exemplo? Jean Wahl  , esta terceira via seria apenas uma variante da segunda [1] e seria, de qualquer modo?, a via do erro?. Para Nietzsche  , esta segunda parte do poema corresponderia a uma primeira filosofia de Parmênides  , próxima de Anaximandro  . Zeller e Gompers pensam que nos encontramos em face de um desenvolvimento? no qual Parmênides   nos dá conhecimento do que seria a sua compreensão do mundo?, se adotasse o ponto de vista do senso? comum. Para Diels, tratar-se-ia da exposição de uma teoria? que Parmênides   criticaria, a de Heráclito  , que pertenceria ao número dos pensadores bicéfalos de que se fala em VI, 5. Burnet pensa que Parmênides   visa antes os pitagóricos. Uma interpretação original e que fez época na história do eleatismo? é a de Karl Reinhardt [2], que recusa as leituras precedentes e faz da opinião o resultado de uma queda original. Daí viriam os erros das nossas representações, de que poderíamos isentar-nos contemplando a verdade.

Heidegger   insiste na importância da interpretação de Reinhardt [3], o qual, em seu entender, compreendeu e resolveu o problema tão debatido da relação entre? as duas partes do poema de Parmênides  . Mas não teria posto em evidência o fundamento? ontológico e a necessidade da relação entre a Verdade e a Opinião. Na Introdução à Metafísica [4], Heidegger   retoma o problema e pretende que a via da opinião seria completamente diferente da segunda e constituiria uma terceira via, a do aparecer?, que seria tudo menos a aparência. Esta via seria a do aparecer, enquanto via do ente que aparece de tal ou tal ponto de vista, seria a via dos pontos de vista, a via do aparecer, experimentado como pertença do Ser. Tal aparecer não seria mais que a Natureza?, enquanto manifestação e eclosão do Ser. E pode afirmar-se do aparecer que pertence e não pertence ao Ser, porque, para Heidegger  , o pensamento de Parmênides   não seria afastado do pensamento de Heráclito  , para quem «a natureza gosta de se esconder». Por conseguinte, ainda segundo Heidegger  , o homem? que verdadeiramente sabe seria aquele que percorre as três vias: a do Ser, a do Não-Ser e a do Aparecer. Importaria finalmente unir as três vias numa espécie de operação nietzschiana ou hegeliana.

Ainda aqui podemos dizer que Heidegger   interpreta Parmênides   em função das suas preocupações filosóficas e procura ver nele um dos seus precursores. Seja como for, atenta a ambiguidade? de muitas passagens do texto? de Parmênides   e o estado? mutilado em que nos chegou o poema, talvez não se possa fazer melhor que meditar nas reflexões que pôde sugerir a quantos o leram.

PETER KINGSLEY

Farei a fala; e cabe a ti
levar minhas palavras uma vez as tenha ouvido.
O que te direi é que caminhos de inquirição,
e que caminhos somente, existem para o pensar.
O único caminho, que é, e não é possível não ser,
é o caminho da Persuasão; pois a Persuasão é
o atendente da Verdade. E quanto ao outro,
que não é, e é necessário não ser:
este, posso te dizer, é um caminho do qual nenhuma notícia
retorna. Pois não há maneira que possas reconhecer
o que não é — não há nenhum viajar este caminho —
ou dizer algo sobre ele.

Resumo de comentário de KINGSLEY  , Peter. Reality?. Inverness: The Golden Sufi Center, 2003, p. 60-63.

Sem sentido? é o que este fragmento soa. E sem sentido é o que ele é, porque nada há aqui que tenha que ver com nosso mundo familiar dos sentidos. O que Parmênides   está dizendo vem de outro mundo.

As pesquisas arqueológicas na cidade? natal de Parmênides  , Velia, indicam sua associação aos chamados iatromantis e aos procedimentos de iniciação destes curandeiros-profetas como seguidores de Apolo?. A linguagem? dos iatromantis é uma forma de expressão em charadas, assim como os oráculos de Apolo? eram sempre sobre a forma de charadas.

Ao mesmo tempo era prática se utilizar expressões dos grandes do passado, como Homero   ou Hesíodo  . Assim a expressão "um caminho do qual nenhuma notícia retorna", significaria algo muito específico para qualquer grego? daquela época. Naqueles dias ouvir notícias sobre alguém era considerado prova? de que a pessoa? estava viva. O silêncio dizia morte?; e na poesia? de Homero   qualquer um sobre "nenhuma notícia retorna" era simplesmente alguém que se assumia estar? morto.

Por esta razão o caminho do "não é" de Parmênides  , do qual nenhuma notícia retorna, é o caminho levando ao silêncio da não-existência e morte. Se a isto adicionarmos que para os gregos, assim como para nós, "não ser" é um modo velado mas autoevidente? de referir à morte, e teremos a figura? completa.

Parmênides   foi conduzido ao submundo, pelo caminho da morte, e da deusa que o acolhe recebe a mensagem? a ser trazida a respeito? dos dois caminhos. Caminhos estes já reconhecidos pela antiga iniciação dos seguidores de Apolo?: um caminho que conduz à vida? real?, à verdade (aletheia?) e outro que conduz ao esquecimento? (lethe) e morte, a se sucumbir no silêncio da não-existência.


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[1J. WAHL, Vers la fin de l’ontologie, Paris, 1956, p. 119; esta obra é um estudo crítico da Introdução à Metafísica, de HEIDEGGER.

[2Karl REINHARDT, Parmenides und die Geschichte der griechischen Philosophie, Bona, 1916.

[3HEIDEGGER, L’être et le temps, trad. franc. de R. Bohem e de Waelhens, Paris, 1964, p. 268, n. 1.

[4P. 124; seguimos as análises de J. WAHL na obra já citada.