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MAÏTRE ECKHART OU LA JOIE ERRANTE

Schürmann (ME:28-48) – QUE SIGNIFICA «SER VIRGEM»?

Sermão II - Resumo

quarta-feira 15 de setembro de 2021

Resumo de SCHÜRMANN, Reiner. Maitre Eckhart ou la joie errante. Paris: Denoël, 1972, p. 28-48

Primeiro parágrafo do SERMÃO II

O título e sua tradução?: Tradução problemática? do latim para o alemão, por ser? relaxada (intravit por "subia" adiciona uma nuance, fora do texto?); "Jesus" se torna "Nosso Senhor Jesus Cristo"; o ativo da versão latina, excepit, se torna passivo?, "foi recebido"; a menção? da domus está omissa da tradução, e de modo? errôneo: mulier quaedam, Martha nomine não significa "uma virgem que era mulher?" (virgem se refere à mulher ou a Marta?); a equivalência? entre "Marta" e "mulher" - mais precisamente "mestra da casa" - pode estar? se referindo a exegese tradicional; nos sermões de Eckhart? a aproximação entre nomes bíblicos e conceitos? filosóficos são frequentes (segundo Eckhart?: em interpretando a Escritura importa sempre fazer eclodir o sentido? oculto? sob a letra" (Prólogo do Liber porabolarum Genesis?).

As articulações dos argumentos do sermão se dão por fórmulas oratórias ou interpelações, que definem os passos seguido por Eckhart? em sua exegese. Por exemplo?: "Agora? então, prestem bastante atenção? a esta palavra?...", ou algo do gênero?.

"’Virgem’ designa alguém liberado de todas as imagens, tão franco se foi quando ainda não era". Esta interpretação? apela a uma tradição? filosófica, a uma teoria? da "impressão?" que uma representação? põe sobre o intelecto? (noûs?).

A recepção de Jesus por uma "virgem" pode se comparar? a de uma imagem? no intelecto: se quer recebê-la, o intelecto deve necessariamente estar vazio? da determinação? que ela aporta: entbildet. Quando a imagem entra em ti, Deus? deve ceder com toda sua divindade; pertences então às imagens, e não mais a Deus. O homem maduro "sabe muitas coisas?, e tudo isto são imagens". Eis porque o intelecto deve estar inteiramente vazio, pura receptividade?, para acolher Jesus por inteiro. Eis o que significa "ser virgem".

O homem por quem Jesus quer ser recebido deve se tornar livre de toda representação "que seja então como não era". Antes que eu? fosse, antes de meu nascimento na terra?, eu existia segundo um modo antes do mundo?. Eu ainda não era este ser que conhece as coisas por meio? de representações e de fantasmas: eu era inteiramente livre de toda imagem retirada do mundo, pois do mundo, eu dele nada? tinha. Nesta existência? originária, quando eu era e no entanto ainda não era, nenhuma necessidade? me ligava ao conhecimento? das coisas sensíveis pelas representações retiradas do sensível?: nenhuma imagem em mim estava. A totalidade? das coisas não me era estranha como o são as representações, pois tudo se mantinha em mim enquanto uma "ideia?". Nesta preexistência, cada ideia está igualmente próxima de todas as outras; graças a sua possessão simultânea, eu era inteiramente "franco", ledic, "virgem" de todas as imagens.

Quem queira receber Jesus deve se liberar de todas as imagens exteriores e se tornar tão livre quanto era antes de vir ao mundo.

Eckhart? não se atarda aqui sobre esta existência eterna do homem antes de sua vinda ao mundo; traça ao invés o caminho que convida ao engajamento?: uma via de liberação e de recuperação da liberdade? originária, eis o que importa; toda a continuação do sermão é uma retomada incansável desta solicitação ao caminho aberto? para a existência.

O parágrafo inicial é também uma alusão à Virgem Maria (Theotokos): o termo? empregado por Eckhart?, enpfangen significa "receber" e "conceber", mas sendo este último? sentido secundário. O tema? central desta concepção, de influência augustiniana, é que as criaturas preexistem por todo? eternidade? em Deus, em seu ser ideal?. Concepção cara a Platão? (vide o diálogo? "Menon"), passada pelos primeiros padres cristãos , em particular? Orígenes enquanto doutrina da "preexistência da alma?" (psyche?).

A teoria das imagens no intelecto, em Eckhart?, é devida à Aristóteles? em seu tratado da alma, tendo sido desenvolvida por Tomás de Aquino. Assim a conexão necessária, segundo Eckhart?, entre a virgindade e a recepção de Jesus no homem é fundada na filosofia? aristotélica do "intelecto receptivo".


Um novo comércio com as coisas

O desapego ou a "não identificação" (segundo e terceiro parágrafos do SERMÃO II de Eckhart?).

O termo-chave do segundo parágrafo é eigenschaft, apego, podendo significar também propriedade?. Se apegar às imagens, como a uma propriedade, deixa o espírito? estupefato e cria obstáculo? à recepção.

Logo a oratória de Eckhart? faz lembrar o "Hino à caridade?" (agape?; 1Co 13:1-13) em São Paulo, levando de imediato? a seu ponto? principal: eis quão grande deve ser o Desapego daquele que quer ser livre e liberado como era em sua preexistência e como é em seu intelecto (nous). Qualquer que seja minha ciência?, posso me tornar "virgem", pois todo meu saber? não impediria a acolhida de Jesus em mim senão na medida? que possua esta ciência com avidez. O apego fere a ((liberdade. Vê-se: o que cria obstáculo ao espírito e se opõe à virgindade espiritual, não são as representações como tais, mas o apego às representações.

Uma única coisa importa: relaxar a empresa exercida sobre as coisas, e se despossuir. Deixar aí todo apego e receber em troca a Serenidade — atingida isto serei livre como era quando não era. A via de Mestre? Eckhart? é a via do Desapego.

Esse? mesmo parágrafo estabeleceu um elo entre o que Eckhart? chama o apego, e a temporalidade?. O homem apegado às coisas está disposto entre um antes e um depois, habita a duração?, enquanto que o desapego é uma questão? de «este atual agora» (que dizem "gegenwertigen nû"). O homem desapegado habita o instante?. Depois é uma questão de «o que faço ou não faço», isto é das obras. As obras são colocadas em paralelo com as representações intelectuais: para umas e para outras pode-se considerar como a uma propriedade. Ter? uma cultura?, empreender obras: uma e outra fazem obstáculo tanto quanto esta cultura e essas obras são adquiridas ou executadas na duração, isto é projetadas, realizadas, possuídas. O «antes» de uma obra é seu projeto? (mais adiante se encontrará a expressão? «obras premeditadas»), o «depois», sua recompensa. Projeto e recompensa são marcas de propriedade e não podem ser conformes à «vontade? muito amada de Deus». A duração é o modo de temporalidade correspondente ao apego.

A temporalidade do desapego, o instante, aniquila o projeto tanto quanto a recompensa. Não é senão ele próprio?. Qualquer que seja minha ciência e quaisquer que sejam minhas obras, se nesse instante atual onde me entrego eu disponho como se não dispusesse disso, se sou livre e acessível à seu olhar como se estivesse na origem?, então sou verdadeiramente desapegado. É em «esse agora» sempre novo que sobrevém e se verifica o desprendimento?.


O nascimento do Filho no desapego

O desapego foi descrito como uma atitude? passiva: o intelecto receptivo e a virgindade, figuras de pensamento? um filosófico, outro? bíblico, dizem um e o outro a ausência? de determinação. Presentemente Eckhart? expõe a vertente ativa do desapego. Segundo a primeira figura?, tomada de Aristóteles?, tratará do intelecto agente?, segundo a segunda, de origem bíblica, o complemento ativo de «virgem» será «mulher». Mas atrás destes esquemas de discurso? acontece o mesmo apelo a reintegrar a liberdade primitiva de antes da dispersão de si entre as imagens.

A atividade? para a qual conduz a via do desapego, Mestre Eckhart? a estima superior? à recepção passiva de Jesus na alma: «“Mulher”: eis a palavra a mais nobre que se pode dirigir à alma, e é bem mais nobre que “virgem”».

A recepção em nós de Deus — Eckhart? não diz mais aqui «de Jesus» — é um dom que deve portar furto. O desapego se cumpre em fecundidade. Deus, em um espírito despojado de todas imagens e de todas obras, se torna fecundo, e «o espírito é mulher, na gratitude que dá à luz? de volta, aí onde dá à luz Jesus de volta no coração? paternal de Deus». O homem destacado presta presta concurso ao dar à luz do Filho nele, e pelo mesmo ato? em Deus. Na suprema vacuidade do desapego, o homem e Deus se unem em fecundidade: uma só determinação os reúne: dar nascimento. Unido a Deus no engendramento, o homem lhe rende, supremo conhecimento, tudo o que possui: rende a Deus o que recebeu de Deus, a saber o Filho. A determinação comum que se assemelha Deus e o homem é operacional: o homem que tudo deixou para acolher o Filho, o dá nascimento em retorno? no coração paternal de Deus. Eis a atividade mais alta na qual se expande a serenidade. Aquele que se liberou de toda propriedade engendra ao Pai o Filho que o Pai fez nascer nele.


Intelecto Agente

Aristóteles? disse a respeito? do intelecto «agente», «separado, impassível e sem mistura?, sendo por essência? um ato», que «produz todas as coisas»; torna todas as coisas inteligíveis, pela produção de um verbo?. Tomás de Aquino retoma estas expressões, e fala? propriamente de um «fazer» deste intelecto.

Em sua análise? do conhecimento, com efeito?, o intelectual lhes apareceu como extraindo de alguma maneira a partir das coisas, dos inteligíveis enterrados nelas. Neste tipo? de análise, é então necessário dispor no espírito de um poder atuante? que torne efetivamente ou atualmente inteligível? este que, por si mesmo, não é inteligível senão virtualmente. Na sistematização aristotélica e tomista, o intelecto agente tem por tarefa? conferir aos objetos sua inteligibilidade?, operação? que se completa em um verbo; o intelecto agente «produz», «faz» os seres em os conduzindo a comparecer diante do espírito, e em os nomeando. Puro? princípio? de intelecção?, não pode ser misturado ao sensível; o intelectualismo? da metafísica tradicional quer que os atributos «separado» (do sensível), «imutável», «sem mistura» digam precisamente a mesma coisa que «espiritual» e «em ato».

Se para Aristóteles? e Tomás de Aquino este esquema? de intelecção ativa e de produção do verbo não se aplica senão ao conhecimento do mundo, Mestre Eckhart? o toma por sua conta no contexto de sua teologia? da união?: o homem desprendido concebe e engendra o Verbo ele mesmo, o Filho do Pai.

Mesmo nos escritos de Agostinho? de Hipona, iniciador no Ocidente da doutrina estoica do verbo interior, não se encontrará jamais igual identificação. Agostinho? fala muito do verbo como «de uma espécie? de similitude onde podemos ver algo, como em enigma, o Verbo de Deus», mas ao mesmo tempo? em salientando os traços comuns entre o verbo que «nasce de um saber imanente? à alma» e o Verbo engendrado no seio da Trindade?, ele não cansa de lembrar a profunda dessemelhança? entre um e outro.

A afirmação? de Mestre Eckhart? segundo o qual o homem dá nascimento ao Verbo eterno — «ele dá nascimento a Jesus, em retorno, no coração paterno de Deus» — deve ser entendido como uma utilização original de elementos? doutrinais aristotélicos e agostinianos.

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