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As Ciências e a Ética

Henry (CE:4) – a redução galileana

mercredi 15 septembre 2021

[HENRY, Michel. As Ciências e a Ética. Lisboa : LusoSofia, 2010, p. 4]

Penso que o saber e a acção? formaram uma unidade harmoniosa durante muito tempo, mas que essa unidade foi rompida na aurora da modernidade, no momento em que Galileu cumpre o acto proto-fundador da ciência moderna e de uma nova era da qual somos, conscientes ou não, herdeiros, na medida em que partilhamos largamente os seus credos. Esse acto consistiu na prática de uma redução (à qual dei o nome de “redução galileana” cuja génese é esta : o mundo? em que vivemos e o qual se trata de compreender é constituído por corpos materiais extensos, situados uns ao lado dos outros, com formas e figuras determinadas. Ora, para além das propriedades que acabo de enunciar, acontece que esses corpos possuem igualmente outras tais como a cor, o odor, o sabor... Dir-se-á que essas características são completamente inessenciais porque esses corpos materiais poderiam muito bem existir sem elas. Mas de onde podem provir essas propriedades contingentes, desinteressantes ? Elas assentam no facto de sermos também organismos vivos, animais, e seriam diferentes, até mesmo inexistentes, se essa organização biológica não fosse o que é. Por conseguinte se queremos verdadeiramente conhecer o mundo, teremos que dar conta dessas formas materiais e não ficarmos, como até então o fizera a Escolástica, nessas qualidades além do mais bem passageiras, totalmente variáveis de um para outro indivíduo, incapazes de fundar uma proposição científica universalmente válida. Apenas as propriedades dos corpos são necessárias e permitem superar o simples discurso do tipo : “acontece que fico triste quando o céu está encoberto...” Porque enquanto precisamos apenas de um conhecimento? subjectivo, isto é completamente incerto, para alcançarmos as qualidades sensíveis, para conhecermos as formas e as figuras dos corpos materiais, pelo contrário, dispomos de um conhecimento racional, rigoroso, que enuncia propriedades universais e, enquanto tais, científicas : a geometria. Será preciso então pôr de parte os sentidos e o conhecimento sensível e aplicar a geometria ao conhecimento dos corpos materiais e, desse modo, será possível criar uma ciência. E foi com efeito o que se fez, alcançando os progressos que hoje conhecemos. A essa redução galileana podemos atribuir dois significados : ou simplesmente metodológico, dizendo, sem mais, que para se conhecer o universo material não se deve ter em conta as qualidades sensíveis nem as sensações ou então ontológicas e afirma-se que a realidade são os corpos materiais. Todo o resto, as qualidades sensíveis, tudo o que em geral é subjectivo, constitui um mundo de aparências puramente ilusórias, totalmente contingentes e ligadas à nossa constituição de organismo vivo. É preciso compreender o alcance desta redução quando se lhe atribui um alcance ontológico. Isso significa, por exemplo, que se considero um homem? que toma uma mulher em seus braços e a abraça, a série subjectiva de sensações eróticas, desejos, temores, é uma história fantasmática, já que na realidade de nada mais se trata do que um simples bombardeamento de partículas...


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