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O ROMANCE DA PEDRA DO REINO

Suassuna (RPR) – da "desconhecença" para a "sabença"

A Filosofia do Penetral

dimanche 31 mai 2020

Excerto de SUASSUNA, Ariano. O Romance da Pedra do Reino. Rio de Janeiro : José Olympio, 2012.

HÁ MUITO TEMPO? que eu? desejava me instruir sobre aquela profunda Filosofia? clementina, para me ajudar em meus logogrifos. Por isso, avancei :

— Clemente, esse? nome? de “penetral” é uma beleza? ! É bonito, difícil, esquisito, e, só por ele, a gente vê logo como sua Filosofia é profunda e importante ! O que é que quer dizer “penetral”, hein ?

Clemente, às vezes, deixava escapar “vulgaridades e plebeísmos” quando falava, segundo sublinhava Samuel. Naquele dia, indagado assim, respondeu :

— Olhe, Quaderna, o “penetral” é de lascar ! Ou você tem “a intuição? do penetral” ou não? tem intuição de nada? ! Basta que eu lhe diga que “o penetral” é “a união? do faraute com o insólito regalo”, motivo? pelo qual abarca o faraute, a quadra do deferido, o trebelho da justa, o rodopelo, o torvo torvelim e a subjunção da relápsia !

— Danou-se ! — exclamei, entusiasmado. — O penetral é tudo isso, Clemente ?

— Tudo isso e muito mais, Quaderna, porque o penetral é “o único?-amplo” ! Você sabe como é que “a centúria dos íncolas primeiros”, isto é, os homens, sai da “desconhecença” para a “sabença” ?

— Sei não, Clemente ! — confessei, envergonhado.

— Bem?, então, para ir conhecendo logo o processo? gaviônico de conhecimento? penetrálico, feche os olhos !

— Fechei ! — disse eu, obedecendo.

— Agora?, pense no mundo?, no mundo que nos cerca !

— O mundo, o mundo... Pronto, pensei !

— Em que é que você está pensando ?

— Estou pensando numa estrada, numas pedras, num bode, num pé de catingueira, numa Onça, numa mulher? nua, num pé de coroa-de-frade, no vento, na poeira, no cheiro do cumaru e num jumento trepando uma jumenta !

— Basta, pode abrir os olhos ! Agora me diga uma coisa? : o que é isto que você pensou ?

— É o mundo !

— É não, é somente uma parte? dele ! É “a quadra do deferido”, aquilo que foi deferido a você, como “íncola” ! É “o insólito regalo” ! É “o côisico”, dividido em duas partes : a “confraria da incessância” e “a força? da malacacheta”, representada, aí no que você pensou, pelas pedras. Agora pergunto : tudo isso pertence ou não pertence ao penetral ?

— Não sei não, Clemente, mas pela cara que você está fazendo, parece que pertence.

— Claro que pertence, Quaderna ! Tudo pertence ao penetral ! Tudo se inclui no penetral ! Entretanto, para completar “o túdico” você, na sua enumeração? do mundo, deixou de se referir a um? elemento? fundamental, a um elemento que estava presente e que você omitiu ! Que elemento foi esse, Quaderna ?

— Sei não, Clemente !

— Foi você mesmo, “o faraute” !

— O Faraute não, o Quaderna ! — disse eu logo, cioso da minha identidade?.

— O Quaderna é um faraute ! — insistiu Clemente.

Como aquilo podia ser? alguma safadeza, reagi :

— Epa, Clemente, vá pra lá com suas molecagens ! Faraute o quê ? Faraute uma porra ! Faraute é você ! Não é besta não ?

— Espere, não se afobe não, homem ! Faraute não é insulto nenhum ! Eu sou? um faraute, você é um faraute, todo? homem é um faraute !

— Bem, se é assim, está certo, vá lá ! E o que é um faraute, Clemente ?

— Ora, Quaderna, você, leitor assíduo daquele Dicionário Prático? Ilustrado que herdou de seu Pai, perguntar isso ? Vá lá, no seu querido livro de figuras, que encontra ! “Faraute” significa “intérprete?, língua?, medianeiro” ! O curioso é que “a quadra do deferido” e o “rodopelo” pertencem ao penetral, mas o faraute, seja “nauta-arremessado” ou “tapuia-errante”, também pertence ! Não é formidável ? É daí que se origina “o horrífico desmaio”, o “tonteio da mente? abrasada” ! Inda agora, quando pensou no mundo, você não sentiu uma vertigem não ?

— Acho que não, Clemente !

— Sentiu, sentiu ! É porque você não se lembra ! Quer ver uma coisa ? Feche os olhos de novo ! Isto ! Agora, cruze as mãos? atrás da nuca ! Muito bem ! Pense de novo naquele trecho do insólito regalo em que pensou há pouco ! Está pensando ?

— Estou !

— Agora, me diga : você não está sentindo uma espécie? de tontura não ?

Eu, que sou impressionável demais, comecei a oscilar, sentindo uma tonteira danada, na cabeça. Pedi permissão a Clemente para abrir os olhos, porque já estava a ponto? de cair da sela. O Filósofo?, triunfante, concedeu :

— Abra, abra os olhos ! Como é ? Sentiu ou não sentiu a vertigem ? Sabe o que é isso ? É a “oura da folia”, início da “sabença”, da “conhecença” ! A oura causa? o “horrífico desmaio”. Este, leva ao “abismo? da dúvida?”, também conhecido como “a boca hiante do contempto”. O abismo comunica ao faraute a existência? do “pacto” e da “ruptura?”. A ruptura conduz à “balda do labéu”. E é então que o nauta-arremessado e tapuia-errante torna-se único-faraute. Isto é, o faraute é, ao mesmo tempo, faraute do insólito regalo, faraute do rodopelo e faraute do faraute ! Está vendo ? O que é que você acha do penetral, Quaderna ?

— Acho de uma profundeza de lascar, Clemente ! Para ser franco, entendi pouca coisa, mas já basta para me mostrar que sua Filosofia é foda ! Mas o que é, mesmo, penetral ?

— Vá de novo ao “pai-dos-burros” ! “Penetral” é “a parte mais recôndita e interior de um objeto?”. Mas, na minha Filosofia, essa noção? é ampliada, porque além? de abranger a quadra do deferido e o rodopelo, o penetral abrange também o faraute, através da subjunção da relápsia ! Mas, no momento? em que se fala? friamente do penetral, tentando capturá-lo em categorias? de uma lógica? sem gavionice negro-tapuia, ele deixa de ser apreendido ! Faça apelo aos gaviônicos restos de sangue Negro e Tapuia que você tem, Quaderna, e entenda que o penetral “é o penetral”, que o penetral “é” ! O côisico, coisica : os cavalos cavalam, as árvores arvoram, os jumentos jumentam, as pedras pedram, os móveis movelam, as cadeiras cadeiram e o faráutico, machendo e feminando, é que consegue genter e farauticar ! É assim que o túdico tudica e que o penetral penetrala — e esta, Quaderna, é a realidade? fundamental !

— Arre diabo ! — disse eu, de novo embasbacado. — E tudo isso já estava na Mitologia? Negro-Tapuia, Clemente ?

— Estava, estava ! Aliás, está, ainda ! É por isso que o “Gênio? da Raça? Brasileira” será um homem do Povo?, um descendente dos Negros e Tapuias, que, baseado nas lutas e nos mitos de seu Povo, faça disso o grande assunto nacional, tema? da Obra da Raça !


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