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Fernando Pessoa e a filosofia hermética

Pessoa: ÁTRIO

Org. do espólio de Yvette Centeno

sexta-feira 1º de agosto de 2014, por Cardoso de Castro

Excertos do espólio de Fernando Pessoa   contido no livro «Fernando Pessoa   e a filosofia hermética», org. por Yvette Centeno.

Oc.

O arranjo e a estrutura das ordens iniciáticas baseiam-se numa disposição simbólica do Templo de Salomão.

Nesse esquema simbólico, entende-se que o Templo é construído da seguinte maneira. É dividido em três partes, num andar só. Abre com um Á trio, para o qual se entra por um Limiar, e logo na entrada do Á trio estão duas colunas Este Á trio é quadrado quanto à sua superfície, mas em altura, pé direito como se costuma dizer, tem o dobro da largura ou do comprimento.

Desse Á trio se passa para uma outra parte, chamada Claustro, e também Câmara do Meio; esta expressão deve, porém, ser evitada, pois colide com a expressão igual, usada na Maçonaria, que serve de designar outra especie de sala, não no andar térreo, e que, portanto, no presente esquema não figura. A passagem do Á trio para o Claustro chama-se o Transepto.

O Claustro é como que o Á trio deitado; isto é, o tecto, ou altura, baixa a metade do que era no Á trio, e o comprimento sobe ao dobro, ficando a largura a mesma.

Do Claustro se passa para o Sacrário, e a passagem de um para outro se chama o Adito O Sacrário é inteiramente cubico: tem a largura e o comprimento, iguais, do Á trio; tem a altura, igual a qualquer dessas, do Claustro.

Todas estas medidas têm um sentido simbólico, e qualquer, que saiba meditar, poderá chegar perto de o descobrir. Deverá reparar em que o Á trio e o Claustro são a mesma coisa imperfeita em posições diferentes, mas que o Sacrário tem tudo igual e perfeito, nenhuma dimensão predominando sobre outra. Ali se atinge, neste esquema de arquitectara mística, a perfeita harmonia, ou, em outra linguagem, a paz.

Segundo este esquema se organizam, como disse, as ordens iniciáticas, mas deve entender-se que, não havendo em muitos dos que nelas figuram ou mandam o conhecimento perfeito do que fazem, resultam contradições com as formulas do Templo, e essas ordens são, portanto, ilícitas. São o, importa que se diga, na maioria dos casos.

As Ordens do Á trio, que servem de ministrar os primeiros conhecimentos do que está oculto, e que são pois, por assim dizer, a instrução primaria da iniciação, seguem a lei que lhes é imposta pela primeira presença do Á trio, que são as duas colunas que nele se encontram. Quer isto dizer que ha duas ordens do Á trio, e só duas. Uma delas é a Maçonaria. Não direi qual é a outra. Não deixarei, porém, de dizer, para que o compreenda quem possa, que a Maçonaria corresponde à coluna da esquerda do Á trio, isto é, a que nos fica à direita se olhamos para o templo. A coluna da direita corresponde a outra Ordem, a irmã e complementar da maçônica

Seguem-se, passado o Transepto— ou regularmente, por iniciação plenária em qualquer das duas ordens citadas; ou irregularmente, por contacto direto com os Altos Iniciadores, e sem necessidade portanto de passar por qualquer dessas ordens — as chamadas Ordens do Claustro, ou Altas Ordens. Mais tarde, passado o Adito, e do mesmo modo regular ou irregularmente, se atingem as Ordens do Sacrário, ou, em termo mais vulgar, do Templo, pois que, atingido o amago do Templo, o mesmo Templo se atinge, em todo o seu sentido.

As Ordens do Á trio iniciam por meio de símbolos (a Maçonaria) ou de linguagem simbólica (a outra ordem). Tudo quanto nelas se explique, ou se revele, é só em aparência que se explica ou se revela. O que ha de válido nelas é os símbolos: os discursos, as interpretações, ou são da superfície, e portanto profanos (quando menos o pareçam); ou são falsos, e feitos para despistar os iniciados nos graus, quando sejam incompetentes para eles lhes serem conferidos; ou são, por sua vez, simbólicos, sendo, quer o mostrem ou não, como uma decifração que está numa segunda cifra.

As Ordens do Á trio, a quem é dado um símbolo, ou explicação simbólica, central, a que se chama a Formula do Limiar, culminam, para os que verdadeiramente aproveitam da iniciação simbólica, e nela conseguem ler o que ela é, numa nova formula, comunicada fora dos rituais, a que se chama a Formula do Transepto. Por meio dela se obtém o acesso ás Ordens do Claustro, ou Altas Ordens, ou ao que irregularmente a elas seja par.

As Ordens do Claustro, ou Altas Ordens, não iniciam, porém em explicações de símbolos, mas tão somente conferem aos seus iniciados as chaves herméticas, por meio das quais, se eles souberem applicá-las, os símbolos do Á trio, a Formula do Á trio, poderão ser entendidos. Isto é, ao passo que no Á trio os símbolos (os regulares, bem entendido) estão certos e firmes, mas são desvios os discursos e interpretações, nas Ordens do Claustro, os símbolos (se os ha) são indiretos e desviados, sendo contudo certas e firmes as explicações dadas, e que se não aplicam a esses símbolos

Passado o Adito, as verdades do Á trio e as do Claustro, opostas entre si, unem-se numa mesma verdade. Mas aí a iniciação é plenária, divina, e não se pode dar ideia dela por meio de quaisquer palavras, qualquer que seja a linguagem, direta ou indireta, que se lhes faça falar

Tudo isto, que será sempre confuso para muitos, ainda que claramente se exponha, pode talvez ser ilustrado por um exemplo. E esse exemplo será o de como se escreve um ritual através das três ordens.

Suponhamos os Mestres ou Sacerdotes de uma Ordem do Templo, de posse, como tais, de uma verdade divina, e suponhamos que essa verdade é a do Verbo incarnado e sacrificado para a redenção do Mundo. Suponhamos, ainda, que esses sacerdotes, de posse dessa verdade real e não simbólica, vivem num mundo pagão, crente nos deuses múltiplos da religião grega ou romana. Suponhamos, mais, que esses mestres da doutrina secreta querem comunicar aos que o mereçam, por provarem que merecem, a doutrina secreta de que são senhores. Formarão para isso Mistérios, ou Iniciações. E, na formação do ritual desses Mistérios, procederão da seguinte maneira.

Buscarão, primeiro, entre os deuses pagãos qual é aquele cuja historia possa conformar-se, como a sombra ao corpo que a projeta, à vida e à morte do Verbo. Encontrarão, por exemplo, Baco, em cuja historia divina ha analogias evidentes com a do Verbo incarnado, ainda que em nível diferente, que é o que é preciso. Redigirão uma formula em que, eliminando os acidentes que perturbem a semelhança, consigam dar, na historia de Baco, por símbolo e analogia, a historia do Verbo. E esta formula, uma vez encontrada, chamar-se-á a Formula do Transepto. Nela está obtido o segredo supremo da Ordem ou Mistério a criar, mas o verdadeiro segredo está guardado por eles, altos iniciadores, pois o que vão transmitir como verdade suprema nesse mundo pagão é ainda uma sombra da verdade.

Feito isto, prosseguem. E buscam então uma figura, real ou mítica, para quem possam transpor os incidentes, não já da vida e da morte do Verbo, mas da vida e da morte de Baco. Qualquer figura servirá, desde que nela não haja baixeza, e o que com ela se passa possa atrair de uma maneira indireta; e será preferível uma figura, ou inteiramente mítica, ou de quem tão pouco conste na historia, que tudo que se queira se lhe possa sem risco ser atribuído. Para essa figura transpõem os pormenores da vida e da morte de Baco, em maneira translata — isto é, a figura não pode ser de um Deus, nem de qualquer modo revelar que oculta a de Baco. Haverá mais intimo afastamento entre esta figura e a de Baco, que entre a de Baco e a do Verbo. Obtida esta figura, faz-se a equivalência da sua vida e morte, com a vida e a morte de Baco; e é em torno desta figura, duplamente simbólica, que se escreve o ritual. Assim, todo o ritual é o símbolo de um símbolo, a sombra de urna sombra. E é a esse ritual, que por iniciação se comunica aos candidatos, que se chama a Formula do Limiar.

(Esp. 54A-88/90)