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Fernando Pessoa e a filosofia hermética

Pessoa: ÁTRIO

Org. do espólio de Yvette Centeno

sexta-feira 1º de agosto de 2014, por Cardoso de Castro

Excertos do espólio de Fernando Pessoa   contido no livro «Fernando Pessoa   e a filosofia hermética», org. por Yvette Centeno.

A grande regra do Oculto é aquela do Pymandro de Hermes: «o que está em baixo é como o que está em cima». Assim, a organização das Baixas Ordens copia, guardadas as diferenças obrigatórias, a organização das altas ordens; reproduzem-se os mesmos transes, por vezes as mesmas espécies de símbolos; o sentido é outro e menor, mas a regra da semelhança tem que ser mantida, pois, de contrario, a ordem menor não vive e abatem, por si, as colunas do seu templo. Parece, ás vezes, que é dos graus simples que se desenvolvem os altos graus, e que foi nos altos graus que as altas ordens foram buscar (alargando o sentindo) os seus áditos e cursos. Não é, porém, assim. Vemos o caminho como o trilhamos, mas foi de lá para cá que ele foi construído. E, de facto, as altas ordens começaram por fabricar os graus simples, convertendo certos grêmios profanos em templos menores por um processo enblemático, a princípio fechado, como um leque, depois gradualmente abrindo-se, como esse mesmo leque que se abrisse, ou, talvez, que abrissem. Mais tarde, e foi esse a espécie de abrir o leque que revelou os desenhos nele — se bem que o exato entendimento das figuras não possa ser dado só com vê-las — e assim permitiu que os altos graus se formassem por evolução intima, emblemática, ou especulativa, dos graus da base ou fundamento. De modo que, quando, depois ainda, de alguns altos graus, e em virtude do ensinamento contido neles, algumas altas ordens se fizeram ou foi permitido que se fizessem, não houve nisso, no fundo e no intimo, mais que uma Devolução, o regresso à origem, a Reintegração, como também se diz.

O sentido profano é como o tacto das coisas, obscuro e material; e alegórico como o gosto, que é um tacto intimo, material ainda mas; o moral como o olfacto, que é o gosto desfeito, mentalizado, entendido na sua essência e na definição de que o deu; o espiritual como o ouvido

Só no divino, que não podemos ter, sendo homens, se atinge a plenitude do conhecimento, já sem tacto, sem contacto, sem que é representado pela vista.

Se isto for compreendido, e, sobretudo, meditado, haverá entendimento de muitas coisas.

(Esp. 54A-29)