PhiloSophia

PHILO = Apreço + SOPHIA = Compreensão

Version imprimable de cet article Version imprimable

Accueil > Arte e Simbolismo > Século XX > Gustav Meyrink (1868-1932) > Meyrink : A história de John Dee

O ANJO DA JANELA DO OCIDENTE

Meyrink : A história de John Dee

Trad. do alemão de Yara Azeredo Marino

mardi 29 juillet 2014

Excertos de G. Meyrink, L’ange à la fenêtre de l’occident(1927), trad. do alemão, Éd. Retz, 1975, p. 10. ; trad. Yara Azeredo Marino

Eu? passei o dia examinando os documentos deixados por meu primo e concluí ser? inútil esperar ordenar de forma? coerente aqueles fragmentos de estudos e aquelas notas tão antigos : não? havia nada? mais a edificar sobre aqueles escombros ! "Leia ou queime", murmura-me sem cessar uma voz interior. "O pó para o pó !"

Que tenho a ver, em suma?, com essa história? de um? tal John Dee, baronete de Gladhill ? Que era um inglês entediado e, segundo toda verossimilhança, um ancestral de minha mãe ?

No entanto, não pude mandar toda aquela mixórdia ao diabo. As vezes as coisas? têm mais poderes sobre nós do que nós sobre as coisas : elas apresentam aos vivos todo? o tipo? de armadilhas, fazendo-se passar por monstros. Não, não consigo interromper uma leitura que, a cada momento? que passa, não saberia dizer por que, cativa-me mais. Do seio daquele caos? fragmentário emerge uma forma crepuscular, bela e triste : a de um espírito? superior?. Um homem? desgarrado de forma atroz que brilhou na manhã de sua vida? para ver se amontoar as nuvens sobre a sua maturidade : perseguido, ultrajado, crucificado, reconfortado com fel e vinagre ; um homem que tocou o inferno, um eleito no entanto, que afinal de contas foi elevado as alturas celestes por ser uma alma? nobre, ’sábio?’ audacioso, espírito ardente.

Não, a história de John Dee, descendente de uma das mais antigas linhagens da Ilha de velhos príncipes e condes de Gales, meu ancestral por sangue materno, a história de John Dee não deve soçobrar no esquecimento?.

Mas não pude escrever como desejava o que ali vi. Faltaram-me praticamente todas as condições preliminares : a possibilidade? de um estudo? pessoal e o eminente saber? de meu primo em um domínio que alguns qualificam de ’oculto?’ e do qual algumas pessoas acreditam se livrar ao utilizar o termo? ’parapsicologia’. Não possuo, assim, experiência? e critérios. Posso apenas tentar, com um cuidado escrupuloso, dar àquele imbróglio de vestígios uma ordem? e um plano? racional? : "Preservar e transmitir", de acordo? com as palavras de meu primo John Roger.

E certo que dispunha apenas de um frágil mosaico. Mas a rachadura de uma ruína não se faz mais emocionante do que uma mansão imponente ? Enigmático aquele sorriso nos contornos de uma boca, que desmente a profunda melancolia? ao liame do nariz ; enigmático aquele olhar fixo sob uma fronte ausente ; enigmático aquele brilho de frescor repentinamente rosa sobre um fundo que se esboroa. Enigmático, enigmático...

Isso me custará semanas, senão meses, de trabalho? estafante para desvendar, primeira etapa indispensável, essa meada já meio? apodrecida. Hesito : deverei fazê-lo ? Se eu tivesse uma certeza?, se um conselheiro interior invisível me aconselhasse quanto a essa decisão?, eu deixaria com plena irreverência toda essa desordem? virar fumaça para ’causar prazer? ao bom? Deus?’.

De mais a mais, impõe-se a mim o pensamento? do barão Michel Arangelovitch Stroganof, que está em vias de morrer e não pode mais fumar seus cigarros — talvez porque o bom Deus duvida que um homem lhe testemunhe tanta disposição? em servir.

Mais uma vez o sonho? do rubi. Ocorreu como na noite precedente, mas a sensação? de frio devida à descendência do cristal até a minha dupla cabeça não me era mais dolorosa, de modo? que não acordei. Essa impressão? vinha do fato? de que o rubi se apoderara definitivamente de minha abóbada craniana ? Não sabia. Sempre acontecia, no instante? em que o raio luminoso iluminava ao mesmo tempo? as duas faces de minha cabeça. Vi que era aquela criatura com duas cabeças — e no entanto um outro? : eu me vi, é bem? o caso de dizer ’Janus’, mover os lábios de um dos rostos, enquanto o outro continuava imóvel. E o que movia era incontestavelmente ’eu. O ’Outro’ se entregou a longos e vãos esforços para emitir um som, lutando para sair de um profundo? sono e pronunciar uma palavra?.


Voir en ligne : Literatura