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O GOLEM

Meyrink : Tarô

Trad. de Agatha M. Auersperg

mardi 29 juillet 2014

Excertos de O GOLEM, na trad. de Agatha M. Auersperg

— Diga-me, rabino — aliás, perdão, estava querendo dizer senhor Hillel — continuou finalmente Zwack num tom estranhamente respeitoso — tenho algo a lhe perguntar, já faz muito tempo. É claro que o senhor não tem obrigação nenhuma de responder se não puder, ou não quiser. . .

Schemajah aproximou-se da mesa e ficou brincando com seu copo. Não estava bebendo. Talvez o ritual judeu não lhe permitisse isso.

— Pode perguntar, senhor Zwack.

— O senhor sabe alguma coisa a respeito da tradição secreta hebraica, da Cabala ?

— Pouco, muito pouco.

— Soube que existe um documento que facilita a interpretação da Cabala : o "Zohar."

— É verdade. O "Zohar", ou Livro do Esplendor.

— Pois então ! — exclamou Zwack. — Acho que é uma injustiça monstruosa que um documento que, pelo que me parece, contém as chaves da interpretação da Bíblia e da felicidade...

Hiliel interrompeu para dizer : — Só algumas chaves.

— Não faz mal — só algumas chaves. Ótimo. Não é injusto que este documento seja acessível aos ricos, por ser tão raro e de muito valor ? Parece que só existe um exemplar, e este exemplar se encontra em Londres. Não me lembro se está escrito em caldeu, aramaico ou hebraico.. . Eu, por exemplo, em minha vida toda nunca tive ocasião de aprender um desses idiomas ou de viajar para Londres.

— Você expressa sempre todos os desejos com a mesma intensidade ? — perguntou Hiliel com ironia.

— Não. . . creio que não — disse Zwack um pouco confuso.

— Nesse caso, não há motivos para se queixar — disse Hiliel secamente. — Aquele que não procura o Espírito com todos os átomos de seu corpo — como quem agora procura o ar? ---- nunca terá a possibilidade de contemplar os mistérios de Deus.

— Deve haver algum livro que ofereça todas as chaves dos enigmas do além, e não somente algumas — pensei comigo mesmo enquanto meus dedos brincavam com a carta do "Louco" que ainda estava em meu bolso, mas antes que eu pudesse formular? meu pensamento com palavras, Zwack disse exatamente a mesma coisa.

Hiliel sorriu, mas sua expressão era enigmática : — Todas as perguntas que um homem? pode fazer recebem a resposta no mesmo instante que elas são formuladas.

Zwack olhou para mim.

— Você está entendendo o que ele quer dizer com isso ?

Não respondi e até segurei o fôlego para não perder nem uma sílaba das palavras de Hiliel.

Schemajah continuou : — Toda a vida não passa de perguntas que tomaram uma forma e que levam nelas mesmas o germe da resposta — como também respostas repletas de perguntas.

Zwack bateu o punho na mesa.

— Muito certo : perguntas que são formuladas cada vez de uma forma diferente, e respostas que cada um entende de forma diferente.

— Isso mesmo — disse Hillel com condescendência. — Tratar todos os homens de uma só maneira é privilégio dos médicos. Quem pergunta recebe a resposta que está precisando. De outra forma a criatura humana não seguiria o caminho de suas aspirações. Vocês não acreditam que nossos textos hebraicos foram escritos só com consoantes por capricho ? Cada um deve encontrar as vogais ocultas com seus próprios meios, para aprender o sentido, da forma que mais a ele se adapte — a palavra viva não deve ficar rigidamente apegada a um dogma morto.

O exibidor de marionetes protestou :

— Estas são palavras, rabino, só palavras ! Quero ser o último dos Loucos se entendi alguma coisa !

Louco ! A palavra me deu uma espécie de choque elétrico e quase caí de minha cadeira.

Hillel evitou olhar para o meu lado. — Quem sabe, este poderia ser seu nome verdadeiro. — A voz de Hillel chegava aos meus ouvidos como de uma grande distância. — Nunca podemos ter certeza absoluta de nada. E como estamos falando em cartas de baralho, diga-me Zwack, o senhor sabe jogar tarôs ?

— É claro que sim, e desde minha infância.

— Nesse caso estou realmente admirado que o senhor and-e reclamando por não ter acesso a um livro que explique a Cabala, quando o senhor já teve em mãos todas as explicações por mais de mil vezes.

— Em mãos ? Eu ? — Zwack levou as mãos à cabeça.

— Isso mesmo, o senhor. O senhor nunca se lembrou que o jogo dos tarôs tem vinte e dois trunfos, ou seja, o mesmo número das letras do alfabeto hebraico ? E nossas cartas da Boêmia são enfeitadas por um número excessivo de figuras que não passam de símbolos mais do que claros : o sol, a morte, o diabo, o juízo final. Meu caro amigo, a vida não poderia ter gritado mais alto, perto de seus ouvidos, para lhe dar todas as respostas. É claro que o senhor não pode saber que "Tarot" significa a mesma coisa que a palavra hebraica "Tora", ou seja, a Lei, e ainda a palavra no idioma dos antigos egípcios "Tarout", ou seja : aquela que está sendo interrogada, ou ainda, a palavra do antigo idioma zend, "torisk", que significa : eu exijo uma resposta. Mas os sábios, sim, eles teriam de se certificar disso antes de lançar a hipótese que o jogo dos tarôs foi originário na época de Carlos VI. Por este motivo, como o "Louco" é a primeira figura do jogo, assim o homem é a primeira figura em seu próprio livro de imagens, seu segundo eu. .. Assim a letra hebraica aleph, cuja forma lembra um homem que com uma mão indica o céu e com a outra mostra a terra, significa por consequência : "O que é verdade no alto, é verdade embaixo ; o que é verdade embaixo, é verdade no alto." Foi por isso que ainda há pouco eu disse : Quem sabe se o senhor se chama realmente Zwack — afinal, não pode ter certeza disso. — Hillel continuava olhando para mim e eu tinha a impressão de que suas palavras poderiam me revelar outros infinitos significados. — E sobretudo, não se meta nisso, senhor Zwack ! As pessoas podem de repente se adentrar por caminhos escuros dos quais ninguém mais escapa, a menos que não leve um talismã. A tradição quis que um dia três homens descessem para o reino das Trevas. Um deles voltou louco, o segundo voltou cego e somente o rabino ben Akiba conseguiu voltar para sua própria casa sem que nada o tivesse afetado, e ainda declarando que ele tinha se encontrado. Quantas pessoas existem que, como Goethe, encontraram a si mesmas, sobre uma ponte, ou ao longo de um caminho que passe a vau por um rio, e que após se olharem nos olhos a si mesmos, tenham voltado sem ter enlouquecido ? O senhor poderá dizer que, nesse caso, tratava-se simplesmente de um reflexo de suas próprias consciências e não do verdadeiro "outro eu" ; não era, em suma, o que chamamos de ’Habal Garmin", o "hálito dos ossos", do qual se diz : "assim como entrou incorrupto no túmulo, assim ele voltará no dia do Juízo Final." — O olhar de Hillel penetrava sempre mais fundo em meus olhos. — Nossas avós diziam : "ele mora bem no alto, acima da terra, num quarto sem portas, e com uma única janela de onde é impossível comunicar-se com os homens. Aquele que souber dominá-lo e instruí-lo ficará em paz consigo mesmo". Para finalizar, o senhor sabe, como eu, que no jogo dos tarôs, todos os jogadores recebem cartas diferentes, mas somente aquele que sabe usar bem seus trunfos ganha o jogo. . . Vamos embora, senhor Zwack. Se ficar, vai acabar bebendo todo o vinho de Mestre Pernath, e não sobrará nem uma gota para ele.


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