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O ROSTO VERDE

Meyrink : VELAR É TUDO

Excertos de trad. francesa vertida para português

mardi 29 juillet 2014

Excertos da versão francesa, Le Visage Vert, traduzidos para o português.

A chave que nos tornará mestres da natureza? interior ficou enferrujada desde o dilúvio.

Ela chama-se : velar. Velar é tudo.

O homem? está firmemente convencido de que vela ; mas na realidade, é apanhado numa rede de sono e de sonho que ele próprio teceu. Quanto mais apertada é essa rede, mais poderosamente reina o sono, Aqueles que estão presos nas suas malhas são os adormecidos que caminham através da vida como rebanhos de animais levados para o matadouro, indiferentes e sem pensamentos.

Os sonhadores veem através das malhas um mundo? quadriculado, só distinguem aberturas enganadoras, agem em consequência e não sabem que esses quadros são apenas os fragmentos insensatos de um todo enorme. Esses sonhadores não são, como talvez o suponhas, os lunáticos e os poetas ; são os trabalhadores, os sem repouso do Mundo, os possessos da loucura de agir?. Assemelham-se a escaravelhos feios e laboriosos que se arrastam ao longo de um cano liso para nele mergulharem ao chegar lá acima. Dizem que velam, mas aquilo que julgam uma vida não é em realidade senão um sonho, determinado antecipadamente nos mínimos pormenores e subtraído à influência da sua vontade. Existiram e ainda existem alguns homens que souberam que sonhavam, os pioneiros que avançaram até aos baluartes atrás dos quais se esconde o eu eternamente desperto - videntes como Descartes, Schopenhauer? e Kant. Mas eles não possuíam as armas necessárias para a tomada da fortaleza e o seu apelo ao combate não acordou os adormecidos. Velar é tudo.

O primeiro passo para esse objetivo? é tão simples que qualquer criança o pode dar. Só aquele que tem o espírito falsificado esqueceu como se caminha, e mantém-se paralisado sobre os seus dois pés, pois não se quer privar das muletas que herdou dos seus antecessores. Velar é tudo.

Vela em tudo o que fazes ! Não te julgues já desperto. Não, tu dormes e sonhas.

Reúne todas as tuas forças e espalha um instante pelo teu corpo este sentimento? : agora, eu vejo !

Se o conseguires, reconhecerás imediatamente que o estado no qual te encontravas surge então como uma modorra e um sono.

É o primeiro passo hesitante do longo, muito longo percurso que leva da servidão ao completo poder.

Desta forma avança, de despertar em despertar.

Não existe pensamento tormentoso que desta maneira não possas banir. Ele fica para trás e já não te pode atingir. Estendeste sobre ele como a copa de uma árvore se eleva por sobre os ramos secos.

As dores afastam-se de ti como folhas mortas quando essa vigília se apossa igualmente do teu corpo.

Os banhos gelados dos brâmanes, as noites de vigília dos discípulos de Buda e dos ascetas cristãos, os suplícios dos faquires não são mais que os ritos estereotipados indicando que ali se erguia outrora o templo daqueles que se esforçavam por velar.

Lê as escrituras Sagradas de todos os povos da Terra. Em cada uma delas passa como um fio vermelho a ciência dissimulada da vigília. É a escada de Jacob, que combate toda a noite com o anjo do Senhor, até que chegue o dia e obtenha a vitória.

Deves subir, um após outro, os degraus do despertar, se queres vencer a morte.

O degrau inferior já se chama : gênio.

Como devemos nós chamar os degraus superiores ? Ficam desconhecidos da multidão e são tidos como lendas.

A história de Troia foi considerada uma lenda, até que finalmente um homem arranjou coragem? de investigar por si próprio.

Sobre esse caminho da vigília, o primeiro inimigo que encontrarás será o teu próprio corpo. Ele lutará contigo até ao primeiro cantar do galo. Mas se vislumbrares a luz? da vigília eterna que te afasta dos sonâmbulos que supõem ser homens e ignoram que são deuses adormecidos então o sono do teu corpo desaparecerá também e o Universo submeter-se-á a ti.

Então poderás operar milagres, se quiseres, e já não estarás reduzido, como um humilde escravo, a esperar que um cruel e falso deus seja suficientemente amável para te cumular de presentes ou te cortar a cabeça.

Há evidentemente a felicidade do bom cão fiel : servir um amo. Ela deixará de existir para ti - mas sê franco para contigo próprio : gostarias tu, mesmo agora, de trocar o lugar com teu cão ?

Não te deixes apavorar pelo medo de não atingires o objetivo nesta vida. Aquele que descobriu este caminho regressa sempre ao mundo com uma maturidade interior que lhe torna possível a continuação do seu trabalho. Ele nasce como gênio.

O caminho que te mostro está semeado de acontecimentos estranhos : mortos que conheceste hão-de erguer-se e falar-te ! São apenas imagens. Silhuetas luminosas aparecer-te-ão para te abençoar. São apenas imagens, formas exaltadas pelo teu corpo que, sob a influência da tua vontade transformada, morrerá de uma morte mágica e se tornará espírito, tal como o gelo, atingido pelo fogo, se dissolve em vapor.

Quando tiveres abandonado em ti o cadáver é que então poderás dizer : agora o sono afastou-se de mim para sempre. Então dar-se-á o milagre em que os homens não acreditam - porque, enganados pelos seus sentidos, não percebem que matéria? e força são a mesma coisa - nem compreendem, esse milagre que, mesmo se o enterrarem, não haverá cadáver no caixão.

Só então poderás diferenciar o que é realidade ou aparência. Aquele que tu encontrares só poderá ser um dos que seguiram o caminho antes de ti.

Todos os outros são sombras.

Até ali tu não sabes se és a criatura mais feliz ou a mais infeliz. Mas nada receies. Nem um sequer dos que seguiram pelo caminho da vigília, mesmo se alguma vez se perdeu, jamais foi abandonado pelos seus guias.


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