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Excerto de A BUSCA

A EPOPEIA DE GILGAMESH

Resumo recontado por Paul Jordan-Smith

lundi 28 juillet 2014

Excerto de "A Busca", Jean Sulzberger (org.), trad. Octavio Mendes Cajado. Pensamento, 1989.

Desesperado, Gilgamesh andava de um lado para outro em torno do corpo do seu amigo Enkidu. Chorou amargamente e riscou o rosto com cinzas ; rasgou as vestes e entrajou-se com peles de animais selvagens. No mais profundo do coração gritou :

— Como posso descansar, como posso estar em paz ? Contemplai Enkidu, meu irmão e companheiro : o que ele é agora, eu o serei algum dia. Porque tenho medo da morte, preciso procurar Utnapightim, a quem os homens chamam o Distante, pois ingressou na assembleia dos deuses. Vou procurá-lo e aprenderei com ele o segredo da vida eterna.

Isso disse ele, no fundo do coração. Em seguida, varando o ermo, viajando pelas planuras e pelos desertos, Gilgamesh prosseguiu, à cata de Utnapishtim, que os deuses haviam salvo do Dilúvio, instalando-o em Dilmun, no jardim do sol, concedendo-lhe a vida eterna.

Longo era o caminho, através do ermo, que Gilgamesh tomou na direção da terra de Dilmun. Viajava dia e noite. Quando alcançou os passos da montanha, acampou. Por algum tempo, deixou-se ficar de olhos postos nas brasas da fogueira, lembrando do seu amigo Enkidu, depois adormeceu. À noite, porém, despertou de um sonho e deu com uma estranha visão : leões pulavam e brincavam ao luar, contentes da vida. Gilgamesh empunhou a espada e caiu sobre eles, como a seta de um arco retesado e venceu-os, destruiu-os e espalhou-lhes os restos.

De manhã, ergueu-se e seguiu caminho. Escalando os contrafortes no rumo dos passos da montanha, chegou, afinal, à grande montanha Mashu, que guarda o nascer e o pôr do sol. Nessa entrada se encontra o Povo-Escorpião, os dragões que guardam a passagem, cujo olhar é morte. A ele se dirigiu Gilgamesh, Rei de Uruk. Por um momento apenas protegeu os olhos ; depois, reuniu os pensamentos e seguiu em frente.

Quando o viu chegar, destemido, o Homem?-Escorpião disse ao companheiro :

— Esse que vem a nós é carne dos deuses. Replicou o companheiro :

— Dois terços dele são deus, mas um terço é homem.

Então o Homem-Escorpião interpelou Gilgamesh, filho dos deuses :

— Quem é este que vem a nós, cansado e exausto de viajar ? Vejo um homem com o corpo coberto de peles de animais selvagens, o rosto riscado de cinzas. A carne dos deuses está em seu corpo, mas o desespero lhe habita o coração. Percorreste um longo caminho : por que estás aqui ? Que é que procuras, que te arriscas a morrer nos passos da montanha ?

— Sou Gilgamesh, Rei de Uruk que aqui vim - respondeu Gilgamesh dirigindo-se ao Homem-Escorpião. - Por que não estaria eu cansado e exausto da viagem ? Por que não estariam minhas faces desfiguradas e meu rosto pesaroso ? Por que não estaria meu coração cheio de desespero e meu semblante cheio de angústia ? Há amargura em meu coração, pois Enkidu, meu irmão e companheiro, está morto. Ele era o machado a meu lado, a força do meu escudo : juntos matamos o monstro Humbaba, juntos matamos o Touro do Céu. Enkidu está morto : derribaram-no as mãos dos deuses, e os juízes do mundo? dos mortos, os Annunaki, levaram-no para baixo. Ao pé dele me sentei, vi a morte insinuar-se-lhe pelos membros, e fiquei com medo por mim : eu, Gilgamesh, Rei de Uruk, que matou Humbaba e o Touro do Céu, tenho medo de morrer.

Agora procuro Utnapishtim, o Distante, que os deuses salvaram do Dilúvio, que os deuses instalaram em Dilmun a fim de viver para sempre : ele de certo conhece o segredo da vida eterna, pode de certo responder às perguntas que me excruciam, de certo me dirá o que preciso fazer para que o destino do meu amigo não seja o meu também. Eis aí por que meu rosto é o de quem fez uma longa viagem, eis aí por que meu rosto está queimado pelo calor e pelo frio.

— Ninguém transpôs a passagem através do Monte Mashu — retrucou o Homem-Escorpião. — Doze léguas desse caminho estão imersas na escuridão, debaixo da montanha. Queres segui-lo ? Não há outro. Nenhum homem realizou jamais a travessia. Não há luz? ali, a presença de Shamash não encontra meios de entrar.

Gilgamesh respondeu :

— Ainda que seja na escuridão e no frio, ainda que seja na tristeza e na dor, suspirando e chorando, eu irei : abre a porta da montanha.

Disse, então, o Homem-Escorpião ao Rei de Uruk :

— Gilgamesh, vejo em teu coração que estás decidido a ir, seja qual for o risco. Por conseguinte, Rei de Uruk, abrirei os passos da montanha, abrirei a porta do Monte Mashu. Possa o teu propósito aligeirar-te a jornada nas passagens escuras, possas tu encontrar o que procuras, possam os teus pés trazer-te são e salvo de volta. Prossegue ! A porta de Mashu está aberta.


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