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A Filosofia no Tempo.

Pessoa : O PENSAMENTO DE DESCARTES

António Quadros (org.)

dimanche 27 juillet 2014

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". A Filosofia no Tempo.

O verdadeiro? método? de exame metafísico foi-nos indicado por Descartes? — o método da dúvida? universal?.

É até aqui o verdadeiro método metafísico que a mais recente filosofia? determinou e de que, antes de estudarmos a metafísica?, devemos primeiro criticar o conhecimento? humano?, a percepção? e os seus limites e possibilidades. Quando filosofamos, a nossa primeira ação? mental? é, pois, a de expulsar o tirânico preconceito do hábito? e, não? menos, todo? o peso? do conhecimento que pode parecer legitimamente adquirido?, e pode parecer revestido de indubitável correção.

Enquanto assim duvidarmos, no entanto, uma coisa? torna-se clara para nós, a de que nós, para duvidar e para pensar?, precisamos de ter? existência? : Cogito?, ergo sum — Penso, logo existo.

E lamentável que a linguagem? humana não possa fornecer uma melhor representação? do seu pensamento? racionalizante. Pareceria que « Aliquid cogitat ergo sum » — « algo pensa algo existe » seria melhor, mas, como disse, a (linguagem) humana não está à altura da humana razão?.

Duas coisas? se revelam neste raciocínio? — a prova? da existência do « ego? » e a primeira de todas as categorias? — a do Ser?.

Este raciocínio, além? de tudo o mais, tem essa outra coisa que será conveniente considerar. Quando Descartes raciocinou deste modo? até ao « ego » e assim provou a sua própria existência, parece ter esquecido? que o princípio? da dúvida poderia ser ainda mais alargado — nomeadamente para a única ideia? que não criticou e de que não duvidou — nomeadamente a ideia de existência ou de ser. E uma omissão natural?, pois é humano errar. Assim é que nada? diz sobre o significado? das palavras « Eu? existo », as quais embora compreensíveis, são contudo filosoficamente obscuras.

Constitui uma obstinação não compreender? que a filosofia é toda ela dúvida.

Podemos entender o que Descartes quis dizer, mas as suas palavras foram mal? escolhidas. Tentemos corrigi-las.

Vemo-nos e desejamo-nos com toda a nossa lógica? e gramática?. Porque se transformássemos a expressão? de Descartes em « Aliquit cogitat, ergo sunt » (Algo... existo), não faremos nenhum sentido?. Se acrescentarmos o que é necessário?, de modo a que a expressão se torne : « Aliquit, quod? cogitat, ergo sum », de novo nos tornamos culpados de uma prematura introdução do « ego ». Por muito que tentemos, a frase nunca cederá, antes de mais nada o « ego » não pode ser eliminado. E desta falta? de resultado o mais alto resultado é obtido — nomeadamente a descoberta? do sentido dado? por Descartes à linguagem filosófica. Sem dúvida ; e a conclusão é a de que a ideia do « Ego » é a primeira das primeiras na mente humana ; o Ser a primeira categoria? que encontramos.

Quando, no princípio desta exposição?, tive de determinar o « ego » pelo argumento? de Descartes : « Penso, logo existo », e quando digo « Eu existo », a palavra? existo não tem um? significado explicável, para além daquele em si próprio? intangível.

A existência não tem para nós um verdadeiro sentido, a não ser como uma intuição?. Como veremos, por mais profundamente que pensemos, ela é uma idéia inteiramente primária, é insusceptível de análise?, de decomposição — noutras palavras, é uma condição? do conhecimento. Mais — é uma primeira condição do conhecimento, assim como a individualidade?, mesmo esquecida na infância, é em consequência? a primeira de todas as categorias.

Se existir? é ser consciente?, então o raciocínio de Descartes não é senão uma petitio principii, já que ser consciente é pensar, segundo a própria asserção? de Descartes, e ele diz que pensar é existir.

Mas, como provarei, existir não é ser consciente ; a existência não requer tempo? nem espaço? ; o Ser é absoluto?.


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