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A Filosofia no Tempo.

Pessoa : O DUALISMO DA FILOSOFIA CRISTÃ

António Quadros (org.)

dimanche 27 juillet 2014

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". A Filosofia no Tempo.

Objeção? a fazer à filosofia? Cristã é que ela é um? sistema? dualista. A Cristandade sustenta que há duas realidades, duas coisas? igualmente verdadeiras, igualmente reais. Vejamos agora? que dizer que a verdade? é de dois gêneros é dizer que há 2 realidades, 2 verdades. Mas esta concepção é absurda ; não? pode haver mais do que uma realidade?, mais do que uma verdade. « Realidades », « verdades » (esta última palavra? no seu sentido? mais lato) não são expressões que devem muito à lógica? ; nem é costume? usá-las. Não pode haver, portanto, não há, duas realidade. Uma tal concepção é impossível?. O dualismo? como teoria? das coisas é um produto (infante) da idiotia filosófica (infância).

Mas pode-se acrescentar que a matéria? e o espírito? são realidades, mas são também realidades (diz-nos uma teoria) de gêneros diferentes, ou (dirá outra) de graus diferentes. A primeira destas duas hipóteses está assim, julgo eu?, refutada. Pois já afirmei da impossibilidade? de duas realidades e que a realidade está compreendida como sendo uma. Realidades de dois gêneros não são nada? mais que duas realidades. Mas se se pensa que não é assim e que se podem conceber duas realidades, uma como infinita e eterna, a outra como finita no espaço? e no tempo? ; ainda há uma resposta para ambos os casos. Em primeiro lugar? a realidade (pois a realidade nunca é um conceito? unitário) não pode ser? simultaneamente eterna e no tempo, infinita e no espaço. Tem que ser uma ou outra ou talvez ainda outra diferente destas duas. Não pode ser ambas, pois se assim fosse, seria dual, perderia a sua qualidade? de realidade.

Seria ainda possível? responder : a realidade é assim dual porque é considerada dualmente. Considerada dualmente — e por quem ? Pelo homem? ? — Então ou toda a realidade é subjetiva e não existe, e temos de novo Protágoras?. Ou então a realidade tem que ser considerada por si própria, e, sendo, considerada assim, a primeira coisa? a ser postulada a seu respeito? é que é só há uma realidade única. Mas estas duas realidades podem chamar-se objetivas e não pensadas ou feitas por nós. Mas a realidade objetiva é outra vez, e tão verdadeiramente uma. Se nos forem apresentadas duas realidades então cada uma delas é uma ilusão?, ou são ambas ilusões, e neste caso, qualquer delas ou qualquer coisa diferente de ambas é a realidade. Dois gêneros de realidades são pois inconcebíveis ; só há uma realidade e não mais que uma verdade.

Mais uma vez, como apontamos, pode pôr?-se uma hipótese?, que a matéria e o espírito são realidades de diferentes graus. Mas então, se a matéria e o espírito forem realidades de diferentes graus, existem realidades de outros graus e não tomamos consciência? delas. Isto é suficientemente extraordinário?, mas não é suficiente para o refutar ; há melhores pontos neste mesmo argumento?. Assim dois, qualquer número? de graus qualquer coisa, em qualquer qualidade, supõem uma série? nessa qualidade, e uma série em qualquer qualidade supõe um infinito? (a própria qualidade em si mesma, em abstrato?) no cimo e zero? dessa qualidade na base.

Dois graus de realidade supõem por conseguinte, se esses graus forem verdadeiramente relativos?, numéricos, que nenhum deles é real?, que a realidade é o infinito no topo. Não há outra realidade senão a realidade. Por outro? lado, se eles apenas forem relativos um em relação? ao outro, se forem dois absolutos, um deles é o infinito (a própria realidade) e o outro zero (nenhuma realidade). De novo vemos que o dualismo é impossível.

Pode agora ser dito? : a dualidade? é transitória, o espírito é realmente a única realidade.


De todos os sistemas filosóficos que se sabe serem falsos, o sistema Cristão é o mais coerente. Num instante? cai pela base — um golpe de raciocínio? derruba-o. Mas ainda não existe nesta terra? quem seja capaz de vencer o seu grande expositor, Tomás de Aquino, em todos os pontos.


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