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Textos filosóficos e esotéricos

Pessoa: CARACTERIZAÇÃO E CLASSIFICAÇÃO DOS PRINCIPAIS SISTEMAS FILOSÓFICOS

António Quadros (org.)

domingo 27 de julho de 2014, por Cardoso de Castro

Excertos do livro organizado por António Quadros, "A procura da verdade oculta". Textos filosóficos e esotéricos.

Na classificação dos sistemas filosóficos temos a considerar duas coisas: a constituição do espírito e a natureza da ideação metafísica.

O espírito humano, por sua própria natureza de duplamente — interiormente e exteriormente — percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer; mesmo que chegue a uma concepção monística, dentro dessa concepção monística há um dualismo, mesmo que dos dois elementos constitutivos da Experiência — matéria e espírito — se negue a realidade a um, não se lhe nega a existência como irrealidade, como aparência — o que transforma o dualismo espírito-matéria em dualismo realidade-aparência; mas realidade-aparência é, para o pensamento, um dualismo.

O gênero de dualismo, porém, depende de, e é condicionado por, o que se considera a Realidade Absoluta. O espírito não pode admitir duas realidades absolutas: realidade envolve unidade. Mesmo, portanto, que o espírito admita dois princípios igualmente e objetivamente reais, é forçado a admitir que um desses princípios é de qualquer modo superior em realidade ao outro. Temos pois que todo o sistema filosófico envolve um dualismo e um monismo. A constituição do espírito impõe-lhe que pense dualisticamente; a noção de realidade obriga-o a pensar monisticamente. O espírito não pode construir um sistema puramente monista; e um sistema puramente dualista não seria um sistema filosófico.

Ao tentar o monismo de todo o sistema filosófico, o espírito apoia-se a um princípio qualquer. Apoia-se a um de três: ou a matéria, ou o espírito, ou qualquer outra coisa, necessariamente inconcebida em si, mas só como diversa de espírito e matéria. Por matéria entendemos o conjunto de fenômenos que só pode ser considerado como no tempo e no espaço. Por espírito o conjunto de fenômenos que diretamente é considerado como passando-se no tempo simplesmente.

Nascem daqui três sistemas: o materialismo, o espiritualismo e o transcendentalismo.

O espiritualismo caracteriza-se por duas coisas: pelo seu caráter dualista — a sua admissão de uma dupla realidade — corpo e alma, natureza e Deus; e pela sua centralização na alma humana — e daí, o espírito em geral — por ponto de apoio, por centro de seu sistema.

Destes dois elementos surge um terceiro elemento característico: que a realidade-espírito (alma-humana, espírito divino) é considerada superior à realidade-matéria (corpo humano, natureza). Entendamo-nos bem: o espiritualista tem o corpo e a natureza por tão reais (no sentido totalmente abstrato do termo) como o espírito e Deus; mas a realidade do espírito e de Deus é uma realidade permanente, ao passo que a realidade do corpo e da natureza é uma realidade contingente e transitória. — O espiritualismo opõe-se, por um lado, ao materialismo; por outro, ao transcendentalismo. Quanto ao idealismo, excepto o transcendental — esse é, como mostraremos, apenas uma forma superior da essencial doutrina espiritualista. — O materialismo tem de comum com o espiritualismo o ser dualista; diverge dele em que o ponto central do seu sistema é, não o espírito, mas a matéria; e diverge, portanto, na dedução final, porque, em oposição à doutrina espiritualista, logicamente estabelece a realidade exterior como de gênero superior à realidade interior. O materialismo é dualista porque admite, precisamente como o espiritualismo, duas realidades — matéria e espírito — espírito, é claro, no sentido de atividade psíquica. O materialista não nega — pois isso não se pode negar — que haja fenômenos psíquicos, que tenhamos sensações, pensamentos, sentimentos; o que nega — porque estabelece no Exterior e não no Interior o centro do seu sistema — é que o espírito, a consciência, seja mais do que uma função, um acompanhamento da matéria — tomando matéria no sentido de realidade exterior, de tudo que é concebível como por natureza contido no tempo e no espaço.

O (transcendentalista) admite, como o materialista e o espiritualista, uma dualidade (o espírito humano, por sua própria natureza de duplamente interiormente e exteriormente — percipiente, nunca pode pensar senão em termos de um dualismo qualquer), mas essa dualidade não é a da matéria e do espírito; não é a dualidade corpo-alma, matéria-espírito. E, como (conforme veremos) a do espiritualista absoluto, a dualidade Aparência-Realidade; mas, ao passo que, para o espiritualista absoluto, a Aparência é a Matéria e a Realidade o Espírito, para o transcendentalista tanto a matéria como o espírito são a Aparência: a Realidade é qualquer coisa que a ambos transcende, e de que ambos são ou manifestação, ou símbolo, ou (...) Isto é, o ponto central, o eixo do sistema transcendentalista não está nem na Natureza ou Matéria (como para o materialista), nem no espírito (como para o espiritualista), mas noutra coisa que a Matéria e o Espírito transcende.

Cada um destes três sistemas se subdivide naturalmente em três subsistemas. O espiritualismo tem três formas. Há, primeiro, o espiritualismo relativo — sistema que considera alma e corpo (natureza e Deus) como igualmente reais, objetivamente reais, ainda que não iguais na qualidade da realidade: assim o corpo (e a Natureza) é (são) real (reais) mas transitório(s), contingentes; a alma (e Deus) é (são) real (reais) mas permanente(s). Este espiritualismo é o espiritualismo por assim dizer clássico: é o de S. Tomás de Aquino   e dos escolásticos em geral, o espiritualismo da fé católica. — Temos, depois, e avançando no conceito de superioridade do espírito à matéria, o espiritualismo simbólico. Para este, a matéria é real, mas é-o apenas por ser a sombra, o reflexo, o símbolo do espírito. A realidade da matéria é verdadeira, mas subjectiva-objectiva; provém-lhe propriamente de nela representar o espírito. Este é o espiritualismo dos ocultistas [...] de muitos contemplativos, como Mr. Thomas Browne, dos altos místicos, como Swedenborg e William Blake. — Há, finalmente, o espiritualismo absoluto. Intensificada a ânsia espiritualista chega-se a um ponto em que à matéria se nega toda a realidade, salvo a inevitável realidade lógica — isto é, a realidade perante o pensamento; visto que, para pensar a matéria visual, ilusória é preciso pensá-la; para a pensar é forçoso tê-la por ser qualquer coisa, ainda que só para o pensamento. Ser aparência é, de certo modo, ser; e ser de certo modo é ser. Todos os sistemas chamados idealistas — excepto o idealismo dito transcendental, isto é, aquele que provém de Kant   — pertencem a esta categoria. Pertencem a esta categoria as metafísicas de Leibniz   e de Berkeley  .

No materialismo encontram-se, do mesmo modo três teorias. Há, primeiro, o materialismo relativo. Este admite a matéria e o espírito — ou, como aquele costuma dizer, a força e a matéria — como igualmente reais, eternamente reais, mas eternamente inseparáveis. Esta dualidade é monisticamente eterna; e constitui uma realidade exterior, do tempo e do espaço, nem há outra realidade — tal é a teoria, que o sistema exposto por Büchner representa nitidamente. — Há, depois, o materialismo (...), que considera a realidade como física e psíquica; mas para ele o psíquico é simplesmente epifenômeno ou função do físico. E apenas real pelo físico. A realidade não é a mesma: o que verdadeiramente é real é o fenômeno físico. — Há, por fim, o materialismo absoluto, sistema aliás raro, mas curioso. E o de Edgar Poe, no Eureka, por exemplo. Considera o espírito como espiritualmente irreal, isto é, como matéria. Quer dizer, o espírito é uma matéria mais subtil, mas é matéria, realmente matéria, ocupando espaço material.

No transcendentalismo dão-se as mesmas subdivisões. Temos, em primeiro lugar, o transcendentalismo materialista. Para este, espírito e matéria são igualmente reais e irreais: são irreais porque não são duas coisas, mas uma, reais porque são paralelas manifestações de uma realidade que as transcende mas que lhes é a substância. Esta realidade Transcendente é concebida, porém, como encarnada naquelas duas aparências,como manifestando-se através delas sem outro modo de ser. E o sistema filosófico de Spinoza  . Chamamos-lhe trans[cendentalismo] mat[erialis]ta porque não é senão aquilo a que chamamos materialismo relativo, transcendentalizado. Como o materialismo relativo, o transcendentalismo materialista admite duas paralelas formas, inteiramente objectivas, de realidades — matéria e espírito — mas estas existem realmente numa outra substância, que lhes é o ser, mas que não se manifesta senão através delas nem existe senão manifestando-se segundo aquele duplo aspecto. Estas duas coisas são na realidade uma única coisa que através delas duas se manifesta, mas não existe senão naquela dupla manifestação.

Mais acima encontramos o transcendentalismo espiritualista. E um sistema raro, porque está perpetuamente tendendo ou a ser o, aparentemente mais puro t[ranscendentalis]mo metafísico], ou a ser solicitado, por razões religiosas para um qualquer sistema espiritualista. Há um exemplo deste sistema espiritualista. Há um exemplo deste sistema em Malebranche. Para o t[ranscendentalis]ta esp[iritualista] a matéria e espírito têm por substractum um ente que o espírito concebe — não como exterior a si, quanto possível, como faz no tr[anscendentalis]mo mat[erialis]ta, mas como interior a si.

Para Spinoza   tudo é Deus, e Deus é tudo. Deus está todo nos seus sintomas. Para Malebranche (...) tudo é Deus, e Deus é tudo — mas não é só tudo; além de ser tudo é mais — é Deus. Deus suporta-se em tudo, é tudo, mas ainda lhe sobressai.

Deus, para Spinoza  , só existe no tempo e no espaço, através dos seus atributos. Para Malebranche, existe no tempo e no espaço, porque existe nas coisas e nos espíritos, mas existe também fora do tempo e do espaço, em si próprio.

T[ranscendentalismo] absoluto: Deus é tudo, mas tudo irrealmente. Uma pedra não é real, como pedra. Uma pedra é uma ilusão do meu espírito. Mas como o meu espírito é Deus e a pedra é Deus, a pedra é real e irreal ao mesmo tempo.

A natureza é uma irrealidade divina.