Página inicial > Imaginal > Eros e Psique 2

APULEIO

Eros e Psique 2

quarta-feira 6 de abril de 2022, por Cardoso de Castro

    

Excertos da versão alemã integral de A. Schaeffer, trad. por Zilda Hutchinson Schild

    

Nesse lugar adorável, em meio ao vale florido, deitada sobre a relva coberta de orvalho, Psique   adormeceu de mansinho. Depois de descansar bastante de tantas emoções, recuperada pelo sono reparador, ela ergueu-se com o espírito   muito mais tranquilo.

Logo viu um bosque de grossas árvores gigantescas; viu uma fonte de águas transparentes e brilhantes e, no âmago desse bosque, um palácio principesco, que não fora construído por mãos humanas, mas por artes divinas.

Qualquer um que nele entrasse, logo saberia tratar-se da morada   de um deus  , pois suas colunas de ouro suportavam o teto entalhado cuidadosamente em marfim e cedro; as paredes eram recobertas de relevos feitos em prata, formas de animais   selvagens e uma espécie de rebanhos que pareciam saudar quem entrava no castelo. A criatura que esculpira esses animais devia ser maravilhosa; não, de fato devia ser um semideus, ou melhor, um verdadeiro deus! O próprio pavimento era confeccionado de mosaicos de pedras preciosas que formavam diversos desenhos de valor   inestimável. Feliz de quem pudesse pisar sempre sobre esse chão. O resto do palácio, os salões enormes, tinham paredes de ouro maciço, que brilhavam com brilho próprio, de modo que mesmo que fosse noite ainda haveria claridade e, durante o dia, caso o sol   não quisesse dar o ar de sua presença  , tudo brilhava, os aposentos, o pórtico, até mesmo as bandeiras da porta  . Os demais tesouros estavam à altura da casa, de modo que se tinha a impressão de que tão celestial morada não podia ser de outro que não o grande Júpiter  , para que este recebesse suas visitas.

Atraída pela beleza do palácio, Psique aproximou-se mais e, com um pouco mais de confiança   em si mesma, atravessou o limiar. Arrebatada pela mais deslumbrante das visões, examinou tudo e avistou do outro lado da casa um depósito, trabalhado com grande arte e repleto das maiores preciosidades. Não havia nada que faltasse ali. Sem mencionar a estranheza   que tantas riquezas lhe causaram, mais admirável ainda era o fato de não haver correntes, nem tranca, nem ninguém que guardasse os tesouros desse lugar. Enquanto examinava tudo isso com a maior admiração  , ouviu uma Voz, sem que ninguém estivesse visível  , que lhe disse:

— Como, senhora, espantas-te diante de tantos tesouros? Pois eles te pertencem. Por isso, recupera-te do cansaço no leito armado em teus aposentos ou, se preferires, refresca-te com um banho. As vozes que tu ouves somos nós, tuas criadas, que te serviremos com dedicação; também providenciaremos tuas principescas refeições, pois não descuidaremos do teu corpo.

Psique sentiu-se feliz e revigorada pelas providências divinas oferecidas pelas vozes incorpóreas. Depois de um sono recuperador e de um bom banho, sentiu-se recobrada do cansaço; como visse perto dali uma mesa redonda posta para a refeição, não se fez de rogada e acercou-se dela com visível satisfação. Foram-lhe oferecidos néctares e vinhos, e diferentes iguarias sem que houvesse criadas visíveis, apenas um leve   sopro. Não pôde ver ninguém, apenas as vozes sussurradas das servas. Depois da lauta refeição, entrou alguém que cantou acompanhado à cítara, mas nem cantor nem instrumento eram visíveis; então ouviu uma porção de vozes que, embora não pudesse ver ninguém, deliciaram seus ouvidos com um belo coral musical. Como já estivesse anoitecendo e a noite aconselhasse o descanso, Psique retirou-se para o quarto. Logo uma voz suave chegou-lhe aos ouvidos. Ela temia, completamente só, pela sua virgindade  , e tremia de horror com receio do que a esperava, tanto mais por desconhecer-lhe a natureza. Por fim, chegou o misterioso consorte, que subiu ao leito e fez de Psique sua mulher  , mas, antes do amanhecer, desapareceu apressadamente. Logo, nos aposentos nupciais, as «vozes» que estavam à disposição  , cuidaram da recém-casada que acabara de perder sua virgindade. E com o passar do tempo, o que antes lhe parecia estranho, por força do hábito tornou-se um deleite, e as vozes alegravam sua solidão e a perplexidade que sentia.


Ver online : THOMAS TAYLOR : THE FABLE OF CUPID AND PSYCHE