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Clemente Parvulum

terça-feira 29 de março de 2022

Contribuição e tradução de Antonio Carneiro do texto espanhol, e indicação do texto francês

CLEMENTE DE ALEXANDRIA   - O PEDAGOGO - Livro I - Capítulo 6 - 5-25
(CLEMENTE DE ALEJANDRÍA - EL PEDAGOGO, introducción por Angel Castiñeira Fernández, traducción y notas por Joan Sariol Díaz, Biblioteca Clásica Gredos, 118)

Texto francês disponível em PDF SAINT CLEMENT D’ALEXANDRIE - LE DIVIN MAÏTRE OU LE PÉDAGOGUE

Livro I - Capítulo 6 - CONTRA OS QUE SUPÕEM QUE OS TERMOS “CRIANÇAS” E “INFANTES” ALUDEM SIMBOLICAMENTE AO ENSINO DAS CIÊNCIAS ELEMENTARES.

5. De acordo, também o admito. Recebeu, então, a perfeição no momento mesmo de ser batizado por João? É evidente que sim. E não aprendeu dele nada mais? Não. Recebeu a perfeição somente pela recepção do batismo e se santificou pela vinda do Espírito? Assim é.

6 O mesmo ocorre conosco de quem o Senhor foi o modelo: uma vez batizados, temos sido iluminados; iluminados, temos sido adotados como filhos; adotados temos sido perfeitos; perfeitos, temos sido imortais. Está escrito: “Eu lhes disse: sois deuses, e todos são filhos do Altíssimo” (Salmo 81,6); (João 10,34). Esta obra recebe diversos nomes: graça, iluminação, perfeição, e banho. Banho, pelo qual somos purificados de nossos pecados; graça, pela qual se perdoa as penas merecidas por eles; iluminação, pela qual contemplamos aquela santa e salvadora luz, quer dizer, aquela pela qual podemos chegar a contemplar o divino; e perfeição. Dizemos, finalmente, porque nada nos falta. Pois, o que pode faltar a quem conheceu a Deus? Seria realmente absurdo chamar graça de Deus ao que não é perfeito e completo: quem é perfeito concederá, sem dúvida, graças perfeitas.

7 Assim como todas as coisas se produzem no mesmo instante em que Ele ordena, assim também, pelo só fato de querer Ele conceder uma graça, esta se ocorre em toda sua plenitude; pois pelo poder de sua Vontade se antecipa o tempo futuro. Aliás, o princípio da Salvação (Platão, Górgias  ,478 c d) é a libertação do mal.

8. Só a quem temos alcançados as fronteiras da vida, já somos perfeitos, e já vivemos quem temos sido separados da morte. Seguir a Cristo é a Salvação: « O que foi feito em Ele, é vida » (Jo 1,3). « Em verdade, em verdade vos digo, — assegura — , o que ouve minha palavra e crê em quem me enviou tem a vida eterna, e não é submetido a juízo, mas sim que passa da morte para a vida» (Jo 5,24). Assim o único fato de crer e ser regenerado é a perfeição na vida, porque Deus não é jamais deficiente. Assim como sua Vontade é sua obra e se chama «mundo», assim também sua decisão é a Salvação dos homens e se chama Igreja.

9. Ele conhece aos que tem chamado, e aos que tem chamado os tem salvado; assim, os tem chamado e salvado ao mesmo tempo. « Porque vós, disse o Apóstolo  , sois instruídos por Deus »(1 Tes 4,9).

10. Não nos é lícito considerar como imperfeito o que Deus nos ensinou, e este ensinamento é a Salvação eterna do Salvador eterno, a qual seja a graça pelos séculos dos séculos, Amém. O que tem sido regenerado, como o nome indica, sendo iluminado tem sido liberado a ponto das trevas e, por isso mesmo, tem recebido a luz.

11. Como aqueles que, sacudidos do sono, se despertam em seguida interiormente, ou melhor, como aqueles que tentam quitar-se dos olhos as cataratas, e não podem receber a luz exterior, da que se veem privados, mas, desembaraçando-se ao fim do que obstruía seus olhos, deixam livre sua pupila, assim também nós, ao receber o batismo, nos desembaraçamos dos pecados que, tais quais sombrias nuvens, obscureciam o Espírito Divino; deixamos livre, luminoso e sem impedimento algum o olho do espírito, com o único que contemplamos o divino, já que o Espírito Santo desce do céu para estar ao nosso lado.

12. Esta mistura de resplendor eterno é capaz de ver a luz eterna, pois o semelhante é amigo do semelhante; e o santo é amigo d’Aquele de quem procede a santidade, que recebe com propriedade o nome de « Luz »: « Porque vereis em outro tempo trevas, mas agora sois Luz no Senhor » (Ef 5,8), daí que o homem, entre os antigos, foi chamado, segundo creio, « Luz »..

13. Entretanto — se diz —, ainda que não tenha recebido o dom perfeito; também o admito; contudo, está na luz, e não lhe surpreende a obscuridade. No entanto, entre a luz e a obscuridade não tem nada; a consumação está reservada para a ressurreição dos crentes, e não consiste na consecução de outro bem, mas sim em tomar possessão do objeto anteriormente prometido. Não dizemos que se deem, ao uníssono, ambas as coisas: a chegada à meta e sua previsão. Não são, certamente, coisas idênticas a eternidade e o tempo, nem o ponto de partida e o fim. Mas ambas se referem ao mesmo processo e tem por objeto um único ser. E assim pode-se dizer que o ponto de partida é a fé — gerada no tempo — e o fim é a consecução — para toda a eternidade — do objeto prometido.