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Aristoteles Marias

terça-feira 29 de março de 2022

Aristóteles   representa a culminância da filosofia grega. O discípulo genial de Platão recolhe da tradição helênica o mais vivo e eficaz, e conduz a filosofia a plena maturidade. Nascido em Estagiros, nas fronteiras do mundo propriamente grego e da Macedônia, submetido às duas influências, simbolizadas em sua relação pessoal com Platão — seu mestre — e Alexandre — seu discípulo —, permanece dezenove anos na Academia, até a morte de Platão, e anos depois estabelece em Atenas sua escola de filosofia, o Liceu  , onde ensina quase até sua morte. Toda sua vida (384-322) é um esforço prodigioso por alcançar o saber; e talvez nenhum outro filósofo conseguiu descer até estratos tão profundos dos problemas e levar a eles a luz de sua genial visão metafísica. Por meio de Aristóteles  , a filosofia grega penetrou no centro mesmo do pensamento do Ocidente, e nele atua duradouramente, como sua raiz mais profunda e mais fecunda. Por isto, a totalidade de nosso mundo espiritual está determinada, numa proporção difícil de avaliar, pela secular influência aristotélica.

Aristóteles   parte da filosofia platônica; porém, introduz nela uma alteração radical: as ideias, que constituem o verdadeiro ser, não podem estar em um lugar celeste, separadas das coisas, e sim nelas mesmas. As coisas, presentes a nós, são efetivamente, ainda que submetidas à mudança; e isto obrigará Aristóteles  , de um lado, a afirmar que o ser se diz de muitas maneiras, e estabelecer assim sua teoria do ente analógico, e, por outro, a interpretar ontologicamente as coisas como substâncias compostas de matéria e de forma. Deste núcleo fundamental de sua metafísica decorre toda a antropologia aristotélica.

Platão partia do dualismo corpo-alma. Aristóteles   o retoma, porém modifica essencialmente seu sentido. A alma e o corpo são dois elementos ontológicos, unidos inseparavelmente, que constituem o homem; matéria e forma: é este o sentido da interpretação aristotélica. Mas é preciso entendê-la em todo seu rigor: a alma é a forma do corpo, isto é, o corpo humano — e, em geral, o corpo vivente — o é por ter alma, por estar informado por ela. E por isso diz que a alma é a enteléquia ou atualidade do corpo: é ela quem o faz ser atual e realmente corpo.

Porém essa atualidade consiste primariamente no viver; a alma é, portanto, princípio vital, que constitui os entes animados. E como os sentidos da noção vida são diversos, corresponderão a eles os diferentes tipos de almas, desde a que informa e vivifica o vegetal até a que faz o homem ser o que é, um animal dotado de razão, capaz de pensar e de conhecer, de elevar-se até o eterno e divino e de ser, de certo modo, todas as coisas, que adquirem seu ser verdadeiro ao serem conhecidas pelo homem, postas na luz de sua mente e enunciadas pelos logos humano, que diz o que são.

O homem é definido, pois, pelo saber. É esta a dimensão essencial do ente humano. Aristóteles   aprofundou-se estranhamente neste permanente e quotidiano mistério de que o homem conheça as coisas, de que estas passem, de certo modo, a estar nele embora ficando fora dele; de que o homem, segundo sua expressão feliz, seja de algum modo as coisas mesmas. No saber, o homem encontra sua perfeição; e, portanto, na vida que consiste em» saber, na que chama contemplativa ou teorética, acha-se a plena realidade do homem enquanto tal, seu exercício adequado e próprio: e isto é o que entendemos por felicidade. A moral aristotélica, que é uma moral de perfeição, apresenta-se centrada no conceito de vida contemplativa, que é, ao mesmo tempo, a vida feliz e a virtude mais elevada.

Mas o pleno saber, a vida contemplativa em sua autenticidade, que é o mais própria e verdadeiramente humano, é ao mesmo tempo algo que excede o homem. O que é mais seu é concomitantemente algo alheio, possuído apenas parcialmente e como de empréstimo, algo, em suma, divino. O homem, que é um vivente mortal, uma coisa entre outras, participa, por sua capacidade contemplativa, de outro modo de ser mais alto, o de Deus, cuja vida consiste na contemplação de si mesmo. Em certo sentido, pois, a posição do homem é intermédia: quando é plenamente homem, transcende a si próprio para penetrar no modo de ser do divino e assim imortalizar-se. A antropologia aristotélica culmina, desse modo, em uma referência ao divino: o próprio do homem é ser mais que homem.

Há numerosas edições do texto de Aristóteles  . Em primeiro lugar, a de Bekker, que serviu de base para todas as posteriores (ARISTOTELIS OPERA). É também muito útil a de Didot, em cinco volumes (um de índice), com versão latina. E são frequentes as edições especiais dos tratados aristotélicos. Para fazer a tradução dos textos que seguem, servi-me das seguintes: DE ANIMA, por R. D. Hicks (Cambridge, 1907); METAFÍSICA, por W. D. Ross (Oxford, 1924), e ÉTICA A NICÔMACO, por I. Bywater (Oxford, s. a.).

Os estudos sobre Aristóteles   são muito numerosos; baste citar os seguintes: Grote: ARISTOTLE   (1872); Ravaisson: ESSAI SUR LA MÉTAPHYSIQUE D’ARISTOTE   (1837-46); Brentano  : ARISTOTELES UND SELNE WELTANSCHAUUNG (1911); Hamelin: LE SYSTÉME D’ARISTOTE   (1920); W. Jaeger  : ARISTOTELES (1923); Ross: ARISTOTLE   (1923); W. Bröcker: ARISTOTELES (1935).
(Julián Marías - O TEMA DO HOMEM)


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