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Escada Santa IV

terça-feira 29 de março de 2022

CAPÍTULO IV — DA PERFEITA OBEDIÊNCIA
I

VEM agora muito a propósito tratar da obediência, para doutrina dos novos cavaleiros e guerreiros de Jesus Cristo; pois, assim como ao fruto precede a flor, assim à obediência precede a peregrinação, ou do corpo, ou da vontade. Com estas duas virtudes, como com duas asas douradas, levanta-se até o Céu a alma do varão santo; e a isso, por ventura, se referia o Profeta, cheio do Espírito Santo, quando disse: Quem me dera asas como as da pomba, para voar pela vida ativa e descansar na contemplação e na humildade! Penso que não será razoável passar era silêncio o hábito e as armas destes fortíssimos guerreiros: devem eles ter, primeiramente, um escudo, que é a grande e viva fé e lealdade para com Deus e para com o mestre que os exercita, afim de que, aparando e recebendo nele os golpes dos pensamentos de infidelidade, usem, logo e bem, da espada do espírito, cortando com ela todas as suas próprias vontades; revistam-se de uma forte couraça de mansidão e de paciência, contra a qual nada possa qualquer gênero de injuria e desacato, e que faça cair todas as setas de palavras más; tenham também um elmo salvador, que é a oração espiritual, elmo que guardará a cabeça de sua alma; e, além disto, tenham os pés não juntos, mas um adiante, aparelhado para executar a obediência, e o outro atrás, posto em continua oração. É este o habito, é essa a armadura dos verdadeiros obedientes; vejamos, agora, que coisa seja obediência.

Obediência é perfeita abnegação da alma, abnegação declarada por exercício e obras do corpo; obediência é perfeita abnegação do corpo, declarada com fervor e vontade da alma: porque, para a perfeita obediência, é necessário que tudo concorra, tanto o corpo como a alma; e tudo é necessário que se negue, quando a obediência o exige. Obediência é mortificação dos membros em alma viva. Obediência é obra sem exame, morte voluntária, vida sem curiosidade, porto seguro, escusa perante Deus, menosprezo do temor da morte, navegação impávida, caminho pelo qual dormindo se transita. Obediência é sepulcro da própria vontade e ressurreição da humildade; pois o verdadeiro obediente, a nada resistindo, fazendo sem discernimento tudo o que lhe é mandado (quando não é claramente mau), confiando humildemente na discrição de seu prelado, santamente desta maneira mortificando sua alma, seguras contas de si dará a Deus. Obediência é resinar, com grande discrição, a própria discrição.

No princípio deste santo exercício, para mortificar os membros do corpo ou a vontade da alma, há trabalho. No meio, às vezes há trabalho, às vezes descanso; mas, no fim, há perfeita paz, tranquilidade e mortificação de toda a desordenada perturbação. Então, este bem-aventurado acha-se obediente, vivo e ao mesmo tempo morto, vivo por ver que fez sua própria vontade, morto por temer sempre a carga da própria vontade.

Todos vós que desejais despojar-vos de empecilhos para passar esta carreira espiritual; todos vós que desejais pôr o jugo de Jesus Cristo sobre o pescoço e vossas cargas sobre os ombros dos outros; todos vós que desejais assentar-vos e inscrever-vos no livro dos servos, paca receber por este assentamento carta de alforria na perpétua liberdade da vida eterna; todos vós que desejais passar a nado o grande mar do mundo em ombros alheios: sabei que há para isto um caminho breve, porém áspero especialmente nos princípios, qual é o estado de obediência. Quem quiser entrar por esse caminho, saiba desviar-se do principal perigo, que é o amor e contentamento de si mesmo, e jamais lhe pareça que é suficiente para reger-se e governar-se a si mesmo. Quem escapar disto, tenha a certeza de que chegará às coisas espirituais e honestas quase antes de principiar a caminhada; pois, obediência é não crer o homem, nem fiar-se de si mesmo, até o fim da vida, nem mesmo nas coisas que pareçam boas, sem a autoridade de seu pastor.

Quando, pelo amor de Deus, determinarmos inclinar a cerviz à obediência, devemos, antes de entrar nesta milícia, (se em nós outros há alguma centelha de juízo e discrição), examinar com todo o cuidado o pastor que tomamos, afim de que não nos aconteça tomar marinheiro por piloto, enfermo por médico, vicioso por virtuoso, de sorte que, em vez de encontrar porto seguro, nos matamos em um golfo tempestuoso e venhamos a ser apanhados em naufrágio certo. Mas, depois que tivermos entrado nesta carreira, já não nos é licito julgar o nosso bom mestre em coisa alguma, ainda que ele, como homem que é, tenha quaisquer pequenos defeitos; e, se assim não fizermos, pouco aproveitaremos da obediência. Aos que querem ter esta inviolável confiança nos mestres, convém muito notar com diligência as virtudes e obras louváveis que seus mestres praticam, e guardá-las em memória, afim de taparem a boca aos demônios, quando estes quiserem demolir essa confiança; pois, quanto mais viva em vosso espírito estiver esta confiança, tanto mais pronto estará o corpo para os trabalhos da obediência. Porém, aquele que tiver caído em infidelidade para com seu prelado, tenha-se caído da virtude da obediência, porque tudo o que carece de fundamento de fé, vai mal edificado; e, por isso, quando algum pensamento te instigar a que julgues ou condenes teu prelado, deves fugir tanto como de um pensamento desonesto; nem jamais te aconteça dar lugar, nem entrada, nem princípio, nem descanso a esta serpente. Fala com este dragão e diz-lhe: Ó perversíssimo enganador, não tenho eu de julgar o meu guia, e sim ele a mim; não sou eu o seu juiz, é ele o meu.

As armas dos mancebos são o canto dos salmos  ; a muralha, são as orações; o lavatório, as lágrimas de penitência. Mas, a bem-aventurada obediência, dizem que é semelhante à confissão do martírio, porque nela faz o homem sacrifício de si mesmo; pois, quem está sujeito e obedece ao império de outrem, pronuncia sentença contra si mesmo. Aquele que, por amor de Deus, obedece perfeitamente, ainda em caso e coisa que não lhe pareça ser completamente razoável, todavia se escusa ao juízo divino, pondo a carga sobre seu prelado. Aquele, porém, que em algumas coisas quer cumprir a sua vontade e, nessas o prelado manda como ele deseja, não pratica verdadeira obediência; e, portanto, se são más, o próprio prelado fará bem em repreendê-lo por obedecer, e si calar-se, tenho a dizer apenas que ele toma esta carga sobre si. Aqueles que com simplicidade se sujeitam ao Senhor, caminham perfeitamente; porque não se metem a examinar nem deslindar curiosamente os mandamentos de seus maiores, curiosidade a que os demônios sempre nos provocam.