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Luiz de Granada Escada Santa

terça-feira 29 de março de 2022

DEDICATÓRIA DO TRADUTOR PARA O ESPANHOL — FREI LUIZ DE GRANADA
«Ao leitor cristão.

«Dos quatro degraus com que São Bernardo arma uma escada espiritual, por onde os verdadeiros Religiosos sobem ao cume da perfeição, o primeiro é a Lição, o segundo a Meditação, o terceiro a Oração, e o quarto a Contemplação, para o qual se ordenam todos os outros. Os quatro degraus de tal maneira estão entre si travados, que o primeiro dispõe para o segundo, o segundo para o terceiro, o terceiro para o quarto; porque a Lição dá matéria de Meditação, a Meditação, uma vez acendida, desperta a Oração, e a Oração perfeita vem parar na Contemplação, onde a alma, esquecida de todas as coisas e de si mesma, docemente repousa e adormece em DEUS. Por aqui se vê que a Lição, como semente e princípio de todos os outros degraus, assinaladamente é pasto e mantimento da alma, recolhimento do coração, despertadora da devoção, porque estes são ofícios próprios da palavra de DEUS. E como a Lição, para estes e outros fins, deva ser tão familiar e quotidiana ao verdadeiro Religioso, não sei se para isto seria possível achar mais conveniente leitura do que a deste bem-aventurado Padre, que neste livro tão alta e divinamente tratou do instituto e costumes da vida religiosa.

«Para tratar desta matéria, requer-se principalmente santidade e experiência das coisas espirituais, porque é isto que principalmente faz os homens sábios nesta doutrina, como disse o Profeta —Por teus mandamentos. Senhor, entendi, querendo significar que o exercício e cumprimento dos mandamentos de DEUS, é o principal mestre desta celestial filosofia. Ora, um tal magistério não faltou a este glorioso Padre, que, depois de ter vivido dezoito anos debaixo da obediência de um santo velho, esteve quarenta na soledade, perseverando em contínuos jejuns, orações, e exercícios de virtudes, vivendo vida mais que humana; e, por conseguinte, as palavras de sua doutrina não podem ser tomadas como de puro homem, e sim como de homem escolhido de DEUS, para que sua doutrina aproveite, não só aos de seu tempo, mas também aos que venham nos tempos futuros.

Outra particularidade tem esta celestial doutrina: é que toda ela vai, nos respectivos lugares, conferida e confirmada com diversos exemplos daqueles Santos Padres que em seu tempo floresceram, bem assim com alguns insignes milagres, muitos dos quais o mesmo santo que os refere, viu com os seus próprios olhos. Destarte é o leitor suavissimamente recriado pela variedade e doçura da história; e, por outro lado, com isso se nos representa aquela idade de ouro, aquele século bem-aventurado em que floresceram aqueles gloriosíssimos padres, dignos de eterna memória, que foram os Paulos, Antonios, Hilariões, Macarios, Arsenios, e outros ilustríssimos varões que viviam por aqueles desertos do Egito, Thebas e Scitia, uns apartados em soledade, outros presidindo a grandes companhias e enxames de monges, derramados por todos aqueles desertos, vivendo vida de anjos na terra: cujos exemplos humilham nossa soberba, confundem nossa presunção e, declarando-nos o estado da verdadeira e perfeita Religião que então havia, nos envergonham e dão a entender a pobreza a que agora estamos reduzidos.

«Abunda, outrossim, em maravilhosas semelhanças e comparações: porque este glorioso padre espiritualizava em sua alma todas as coisas que via e, de todas as flores, fazia favos de mel com que a apascentava; e isto poderá ser apreciado em todo o decurso do livro, especialmente em uma recapitulação feita depois do capitulo da Discrição.

«Declara também infinitas maneiras de laços, tentações, enganos e artes de nossos inimigos, como homem mui experimentado nesta guerra espiritual, e assim também nos provê de competentes remédios para tudo isto; porém, no que mais admirável se mostra, é nas definições que dá dos vícios e virtudes, pintando com brevidade e elegância todas as condições e propriedades do vício e da virtude, de modo tal que, para conhecer a natureza destas coisas, ou mesmo para louvor ou condenação delas, nada se pode desejar de mais completo.

«E não menos admirável é no declarar a causalidade e dependência que há entre uns vícios e outros, explicação essa que constitui uma principal parte da doutrina moral; pois, assim como, nas outras ciências, é principal ofício declarar as causas das coisas, assim também o é nesta ciência divina. Entendidos mui bem os vícios que um vício acarreta, e as virtudes geradas por uma virtude, logo se move o homem a amar a esta e aborrecer o outro, pela fecundidade de bens ou de males que cada coisa destas traz consigo. E isto o faz este santo com uma singular graça; pois, ao fim de cada capítulo, quase sempre sabe tomar o vício e pô-lo à questão de tormento, isto é, a perguntas, até fazê-lo confessar toda a sua genealogia e parentela, a saber, quem é seu pai, sua mãe, seus irmãos, seus filhos e filhas, seus inimigos e contrários e, finalmente, quais os que lhe fazem a guerra e lhe cortam a cabeça. Por isso, chama-se o livro — Escada Espiritual, pela ordem e consequência com que nele são tratados tanto os vícios, como as virtudes; e o autor mereceu o cognome de Clímaco, que em grego (klimakos)— quer dizer escada, por ter ele ordenado e traçado tão altamente todo o livro com esta ordem e consequência de degraus espirituais, começando pelo primeiro, que é a renúncia do mundo, e acabando no último, que é o das três virtudes teologais, e das virtudes heroicas, que são dos ânimos já purgados e no último grau de perfeição.

«Faz também muito finca-pé na mortificação das paixões e apetites (que é uma das principais coisas que nesta doutrina devem ser recomendadas), porque a natureza humana, como é inimiga do trabalho e amiga do prazer, quando quer dar-se à virtude, anda à cata de florinhas e leite da devoção e dos gostos de DEUS, furtando o corpo às labutações e aos exercícios da mortificação, necessários para vencer as nossas más inclinações. E nisto carrega de tanto a mão, que a alguns pareceu demasiado, isto é, pareceu a alguns que queria fazer um homem quase estoico e de todo sem paixões. Mas, não há tal: ele tem capítulos apropriados sobre espirituais afetos, como sejam o pranto, a dor, o temor, o amor, o gozo espiritual e outros, recomendando os bons, desterrando os maus, e espiritualizando e santificando os indiferentes; aliás, é comum estilo dos Doutores, quando querem tirar os homens de um extremo a que estão mui inclinados, dobrá-los fortemente até o outro extremo, afim de que fiquem no meio termo.

«Para tudo isto não falta ao nosso autor eloquência ensinada, mais pelo ESPÍRITO SANTO do que por indústria humana, como pode o discreto leitor bem apreciar, não só pelos epítetos, pelas mil maneiras de metáforas e figuras de que ele usa, como pelos muitos afetos suavíssimos que intromete na doutrina, não inventados por arte, mas nascidos do ímpeto interior e gosto do espírito, verdadeira e natural eloquência que a arte pretende imitar. Isto resplandece no capítulo e degrau quinto, sobre a Penitência, no qual são descritas as penitências e asperezas que faziam os monges santíssimos de um mosteiro denominado — Cárcere. E porque alguns fracos pudessem desmaiar ou temer demasiadamente, considerada a grandeza e rigor das penitências que aí são narradas, foi acrescentada, no fim do capítulo, uma Anotação, para amenizar e ensinar o uso desta doutrina, que serve, não para desmaiar os corações, mas para ver quão admirável é DEUS em seus santos, e para humilhar e confundir toda a nossa presunção e soberba com os seus exemplos.

«Não sei se, para os tempos que correm, seria possível achar doutrina mais conveniente, pela qual tão a propósito sejam confundidas todas as blasfêmias e loucuras dos hereges; pois, se é verdade que toda a sabedoria é de DEUS (que, como diz Daniel, é o mestre e corregedor dos sábios), claro está de ver quanto mais perto estava o espírito do SENHOR de ensinar um homem que, depois de dezoito anos de obediência, viveu quarenta em soledade vida de anjo, — do que a uns brutos animais que nenhuma outra coisa fazem senão comer e beber, nem souberam, em toda a vida, que coisa é jejuar um dia, nem estar uma noite com DEUS em oração. Pois este santo filósofo, cheio desta sabedoria celestial, aprendida, em parte, deste ESPÍRITO e, em parte, dos ditos e feitos daqueles ilustríssimos e santíssimos Padres antigos, nada mais profere senão gemidos, trabalhos, lágrimas, vigílias, jejuns, orações, penitências, obediência, sujeição, cânticos de salmos  , sofrimento de injúrias, maceração da carne, abnegação de si mesmo, mortificação de paixões, imitação de CRISTO, castidade, piedade, silencio, continência, esmola, juntando sempre trabalhos a trabalhos, obras a obras, e ensinando desta maneira a amar, crer e confiar em DEUS. Esta é a filosofia que o ESPÍRITO SANTO ensina aos seus, e que todos os santos professaram e ensinaram; o contrario dela dogmatiza a filosofia do mundo, do diabo, e da carne.

«Para que o leitor cristão comparticipe de todos esses bens, tomei a tarefa de traduzir este livro, tradução que, como já disse, achei muito mais dificultosa do que pensava: primeiramente, pela variedade de traduções, o que me obrigou frequentemente a comparar, examinar e ponderar o sentido mais conforme à intenção do autor; segundo, porque o nosso autor era grande amigo da brevidade, ou por serem mui sábios aqueles para quem ele escrevia, ou porque, sendo ele, como parece, grande amigo do silêncio, e tendo sido impelido a falar, buscou falar o menos que lhe fosse possível. Daí resulta que, algumas vezes, propõe questões e não as responde; outras vezes, propõe comparações e não as aplica; e, assim, as deixa como alegorias, ou como enigmas. Outras vezes, por uma sentença contrária, quer que se entenda a outra, sem explicá-la; outras vezes, corta o raciocínio, deixando a sentença suspensa ao juízo do leitor. E, sendo ele em tais lugares tão escuro quanto profundo, tive eu de deixar o ofício de intérprete e tomar o de parafrasta, estendendo a brevidade para explicação da sentença. E, assim como nestes lugares acrescento palavras e cláusulas, em dois ou três, apenas, as suprimo, por se referirem a coisas que só os sábios podem compreender exatamente.

«Com todas estas diligências, ainda assim não ousarei afirmar que acertei sempre na tradução; antes suspeito que em muitos pontos errei e mais erraria, se me não ajudassem os comentários de Dionísio Cartuxano, varão religioso e doutíssimo, que, entre outros trabalhos, tomou também o de glosar este livro.

«Por certo não fora mal empregado o trabalho de algumas anotações que fiz aos cinco primeiros capítulos, afim de declarar o estilo e intenção do autor, tanto mais quanto suas sentenças, muitas vezes debaixo de breves palavras, compreendem grandes avisos, como, por exemplo, quando diz que, na oração, deve estar o homem diante de DEUS como o réu sentenciado à morte diante do juiz. Enfim, o intento do autor é a formação do perfeito Religioso, tal que, vivendo na carne, viva como se estivesse fora dela, segundo escreve São Jerônimo   a Eustachio. Este é o fim desta obra e para este fim é ordenado tudo o mais».