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MEISTER ECKHART E A MÍSTICA MEDIEVAL ALEMÃ

Faggin (Eckhart) – Defensores, Opositores, Imitadores

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Giuseppe Faggin   - Meister Eckhart   e a mística medieval alemã

    

Na obra alemã e latina de Mestre Eckhart   se juntam, em uma conciliação definitiva, a corrente mística (Matilde e Gertrudes de Hackebom, Gertrudes de Helfta, Matilde de Magdeburgo, David   de Augsburgo, Geraldo e João de Sternegassen...) e a corrente agostiniana-neoplatônica (Teodorico de Friburgo, Ulrico de Estrasburgo, Bertoldo de Ratisbona, João de Kastl...) que constituem, junto com o aristotelismo de Alberto Magno, a espiritualidade do século XIII alemão. Mas desta obra também irradia um misticismo   mais consciente de suas profundidades afetivas e de suas implicações metafísicas, destinado a exercer uma influência perdurável e eficaz sobre as distintas expressões do espiritualismo alemão. A condenação da Igreja   pesava, sem dúvida, sobre sua lembrança e inspirava críticos e opositores, desde o cardeal Fournier, ao venerável João van Leeuw, desde Jan van Ruysbroeck   a Wenck. Van Leeuw escrevia um livro Contra errores dogmati magistri Eckhardi, Jan van Ruysbroeck refutava no De duodecim beghinis algumas das teses condenadas. Wenck, no De ignota litteratura, renovava a acusação   de panteísmo e punha no mesmo plano os bigardos, Eckhart e Nicolau Cusano, um Gutachten contido em um código do século XV, mesmo sem mencionar Eckhart entre os heréticos alertava contra o «modo de falar profano e abusivo» de suas obras, perigoso e nocivo para os fiéis; em 1430 os mestres da faculdade teológica de Heidelberg — nos informa Trithemius — «denunciaram os mesmos erros condenados publicamente junto com todos os demais». E a oposição não se limitava tão só a isto: quando o papa Gregório XI e Carlos VI decidiram extirpar a heresia   e com a ordenança imperial de 17 de junho de 1369 condenaram à fogueira livros, tratados e sermões em língua vulgar  , também os escritos eckhartianos deviam destruir-se ou dispersar-se.

Mas não faltaram tampouco as valentes defesas: o pensamento   eckhartiano se recorda e exalta no Convivium magistri Eckhardi atribuído a Johannes Tauler  , no Librito de la verdad de Henri Suso  , a quem o Mestre apareceu. Também recordam com veneração Eckhart o jovem, o desconhecido   autor de Von der wirkenden und moglichen Vernunft, Isabel Stagel, a monja dominicana autora do poema publicado por Jundt e Höfler. Alusões similares se acham nos inumeráveis Sprüche disseminados pelos manuscritos das cidades místicas da Alemanha. E se a condenação papal obrigava aos admiradores de Eckhart a difundir   de forma anônima seus sermões e tratados, por outro lado a admiração  , sempre viva, atribuía às vezes a paternidade eckhartiana a obras místicas não autênticas, criando assim aos críticos modernos confusões inextricáveis.

Tampouco faltam os imitadores: Jordanus Von Quedlinburg aproveita com abundância   a Expositio Evang. Johannis de Eckhart em seus Sermones de tempore; imitações e semi-plágios das obras de Eckhart se encontram na exposição alemã do evangelho In principio (Joh. 1, 1-4) do franciscano Marquart von Lindau. Os sermões de Nicolás von Landau se baseiam — como demonstrou Zuchhold — em passagens ou sermões inteiros de Eckhart. Também o Libro del divino consuelo foi imitado em seu Consolatio   theologiae por João von Dambach, que trata, no entanto, de reproduzir muito bem as expressões suspeitas.

Mas, se deixarmos de lado as obras dos anônimos, imitadores e plagiários para considerar os místicos conhecidos e mais ou menos originais, nos deparamos com nomes, não menos numerosos, de escritores e predicadores cujas vidas não nos é possível tirar do esquecimento   histórico. Assim, muito pouco sabemos do dominicano Eckhart o jovem, monge   dos mais eminentes do convento   de Erfurt, falecido em 1337. Possuímos dele dois   sermões e uma carta, onde, os motivos fundamentais da mística eckhartiana, despojados de suas fórmulas equívocas, se repetem em expressões muito nítidas e sintéticas, especialmente com respeito à doutrina   do desapego   e da desindividualização, pela qual é concedido ao homem   encontrar sua liberdade na sua natureza humana universal  , indivisa e indistinta. Preger — que identificou Eckhart o jovem com Eckhart de Gründig — lhe atribui também O tratado Von der wirkenden und moglichen Vernunft que, contudo, no argumento   que lhe serve de título, reflete antes a influência de Teôdorico de Friburgo que a de Eckhart. Mas a atribuição de Preger é muito insegura.

Strauch nos faz conhecer alguns fragmentos de um certo Eckhart Rube, em seu Paradisus anime que reúne sermões, não só de Meister Eckhart como também de Florencio de Utrecht, de Hermann de Loveia, de Hane o carmelita, de João Franck, de Tomás de Apolda, de Alberto de Trifurt. São igualmente desconhecidos — mas estão também sob a influência eckhartiana — Henrique de Egwint, Kraft de Boyberg, o irmão   Frankede Colônia e aquele Giseler de Slatheim, a quem Preger atribui o núcleo central da obra Buch von der heiligen Leben, que em geral se atribui a Hermann de Fritzlar. Quase desconhecido é também o Irmão Henrique de Erfurt, cuja Apostilla, cuidadosamente analisada já por Spamer e redescoberta depois por Quint no manuscrito 150 da Staadtbibliothek de Augsburgo, tem uma importância particular para a constituição do texto crítico das obras alemãs de Meister Eckhart.


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