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Stethatos Capítulos Práticos 21-30

terça-feira 29 de março de 2022

21. Nosso sentido de tato não é parcial no sentido que sua atividade é restrita a uma parte do corpo, como é aquela dos outros sentidos; é em geral, sentido englobante pertencendo ao todo do corpo. Assim se enquanto ainda apegados à lubricidade das coisas tocamos algum objeto desnecessariamente, pensamentos carregados de paixão perturbam o intelecto, mas se, depois de renunciar tal apego e elevando-se acima do reino do sensível, tocamos algo de acordo com uma necessidade inerente em nossa natureza, então nosso sentido de tato não tem tendência a seduzir os órgãos de percepção da alma.

22. Quando o intelecto está estabelecido no reino do que está além da natureza, os sentidos, assumindo seu papel natural, comunga impassivelmente com as fontes de paixões; buscam somente suas atividades e qualidades enquanto não estando apegadas a elas ou acidentalmente atraída por eles em uma maneira que é contrária à natureza.

23. As lutas e trabalhos espirituais geram satisfação na alma, na medida que as paixões tenham sido acalmadas; pois o que é difícil para aqueles que ainda estão dominados pelos sentidos é fácil e mesmo deleitoso para uma alma aspirante que através de suas santas exerções adquiriu um anseio por Deus e está ferida com desejo pelo conhecimento divino. Para os dominados pelos sentidos, os trabalhos e esforços por virtude, opostos como são à facilidade e indulgência corporais em prazeres sensuais, são difíceis e parecem muito duros, pois em tais pessoas o salobro gosto do prazer ainda não foi lavado pelo fluxo das lágrimas. Mas a alma que abomina o prazer indutor de dor e rejeitou o conforto juntamente com o amor-próprio do corpo, sente a necessidade e abraça tal trabalho e esforço. Uma coisa apenas a perturba: relaxamento em seus trabalhos e indolência em seus esforços. Assim o que para aqueles ainda dominados pelos sentidos é a fonte da satisfação corporal é para a alma que aspira ao que é divino uma causa de perturbação. E o que para a alma aspirante é a uma causa de alegria espiritual é para os dominados pelos sentidos a causa de dor e angústia.
24. Labuta ascética é inicialmente dolorosa para todos aqueles recém engajados no combate espiritual; mas para aqueles exercitados no crescimento da virtude e que alcançaram o ponto médio de seu caminho, tal labuta é prazerosa e produz uma estranha sensação de alívio. Quando a vontade mortal da carne é tragada pela vida imortal (Cf. 2Co 5,4) conferida através da morada do Espírito Santo naqueles verdadeiramente esforçando-se pela perfeição da virtude, eles são plenificados com alegria e satisfação inefáveis, pois uma fonte de lágrimas abriu-se dentro deles, e correntes de doce compunção fluem sobre eles do alto.

25. Se queres avançar às fronteiras da virtude e encontrar um caminho sem erro que leve a Deus, não permita teus dormir ou suas pálpebras fechar ou dar repouso a sua fronte (Cf. Sal 132,4) até que, com tua alma fendida por labuta e lágrimas, tenhas alcançado a terra da apatheia e tenhas entrado no santuário do conhecimento de Deus. Pois então, desprendido de tudo que está abaixo, em tua grande sede terás subido como um varão às altas montanhas da contemplação e através da Sabedoria personalizada de Deus terás afirmado o alcance supremo da vida humana.

26. Para aqueles recentemente engajados no combate espiritual o caminho rápido para a recuperação da virtude consiste no silêncio dos lábios, o fechamento dos olhos e cerramento dos ouvidos; pois então o intelecto alcançou esta espécie de intermissão e selou-se das entradas externas a si mesmo, ele começa a compreender a si mesmo e suas próprias atividades. Imediatamente se põe a interrogar as ideias nadando no mar noético de seu pensamento, tentando discernir se os conceitos que irrompem na cadinho da mente são puros, misturados com nenhuma semente amarga, e concedidos por um anjo de luz, ou se são taras, híbridos, lixos, emanando do diabo. Assim mantendo-se como um soberano mestre no meio de seus pensamentos, os julgando e separando o melhor do pior, o intelecto aceita aqueles que são bem-testados no fogo do Espírito e saturados com água divina, os absorvendo em suas ações e prática e os armazenando em seu tesouro espiritual; pois por estes pensamentos é alimentado, fortalecido e plenificado de luz. Os outros pensamentos lança nas profundezas do esquecimento, erradicando sua amargura. Isto é o trabalho somente de alguém que espiritualmente embarcou no caminho que leva sem erro aos céus e a Deus, e que rasgou o manto lúgubre das paixões obscuras.

27. Uma vez que a alma tenha desviado a si mesma da malícia e de sua fútil propensão a arrogância barata, e através da morada do Paracleto tenha adornado o coração com simplicidade e inocência, imediatamente irá ser restaurada para Deus e para si mesma. E posto que agora passou além dos poços infernais da incredulidade e da malevolência, aceitará sem hesitação o que ouve e vê como confiável e verdadeiro.

28. A fé enraizada profundamente é preeminente entre as virtudes, posto que tal fé retira a alma da dúvida e a livra completamente do amor-próprio. Pois nada previne mais alguém recém engajado no combate espiritual da prática dos mandamentos como este vício pernicioso do amor-próprio. Previne mesmo o progresso daqueles bem adiantados no caminho espiritual, pois sugere doenças a eles e ferimentos corporais malignos, de modo que seu ardor esvanece e eles são persuadidos a desistir da labuta ascética com base em que seu estado susceptível é perigoso. Amor-próprio é amizade inana pelo corpo, que acaba por fazer o monge um amante dele mesmo — de sua própria alma e corpo — e assim o estranha para Deus e para com o Reino de Deus, de acordo com a frase do evangelho «Aquele que ama sua vida a destruirá» (Jo 12,25).

29. Aquele que diligentemente pratica os mandamentos de Deus, e com desejo ardente respalda o jugo de luz do ascetismo (cf. Mt 11,30), não poupa sua saúde corporal, ou esquiva-se das demandas da virtude, ou recolhe-se da exerção, ou aceita a preguiça e a negligência de outros. Ao invés, qualquer que seja a dureza, fervorosamente cultiva as virtudes, atendendo somente a si mesmo e aos mandamentos de Deus. Cada dia, com lágrimas trabalha e semeia a terra da vida (Cf. Sal 126,5) até que os primeiros brotos da apatheia germinem dentro dele, misturados com divino conhecimento, sustentem o grão do Logos e frutifiquem, em Sua retidão.

30. Nada, penso, assim promove a progresso rápido da alma como a fé — não apenas a fé em Deus e em Seu unigênito Filho, mas fé que é profundamente enraizada. Com esta fé acreditamos na verdade das promessas do Cristo, feitas e mantidas em prontidão para aqueles que O amam (Cf. 1Co 2,19), assim como também acreditamos na verdade das ameaças e das punições infernais preparadas para o diabo e seus cúmplices (cf. Mt 25,41). Esta fé inspira a alma esforçada com a esperança que atingirá o estado dos santos, sua bendita apatheia, subindo às alturas de sua santidade e se tornando um co-herdeiro com eles do reino de Deus. Com tal certeza a alma assiduamente e sem titubear aumenta sua prática dos mandamentos, imitando os trabalhos dos santos e perseguindo sua perfeição por meio de esforços similares.


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