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Stethatos Centúrias Físicas 81-90

terça-feira 29 de março de 2022

81. Se voluntariamente engajas nas obras de virtude e zelosamente persegues o caminho ascético, serás gratificado grandes dons por Deus. Enquanto aproximas da marca do meio, receberás revelações divinas e visões, e quanto maior teus esforços mais pleno de luz e sabedoria te tornarás. Ao mesmo tempo, maior as alturas da contemplação que alcanças, mais provocarás a inveja destrutiva dos demônios, pois eles não podem suportar ver um ser humano alcançar uma natureza angélica. Assim eles irão enganosamente te atacar com pensamentos de presunção. Mas se percebes sua intenção, e te prevines, tomas refúgio na fortaleza da humildade, escaparás a destruição do orgulho e entrarás no paraíso da salvação. Falhando isto, e abandonado por Deus, será entregue aos espíritos punitivos; e porque não te puseste voluntariamente à provação, eles te castigarão contra tua vontade. Carnais e amantes do prazer, cheios de malícia e raiva, estes espíritos cruelmente te humilharão com seus ataques até que reconheças tua própria fraqueza e, tomado de dor, te liberes da arapuca, dizendo com Davi: «É bom para mim que Tu tenhas me humilhado, de modo que eu possa aprender Teus mandamentos» (Sal 119,71, LXX).

82. Deus não nos quer sempre sendo humilhados pelas paixões e caçados por elas como caças, fazendo dEle somente nossa rocha e refúgio (cf. Sal 104,18); caso contrário Ele não teria afirmado, «Eu disse, vós sois deuses; e todos vós sois filhos do Altíssimo» (Sal 82,6). Mas Ele nos quer correndo como veados nas altas montanhas de Seus Mandamentos (cf. Sal 104,18, LXX), sedentos pelas águas criadoras de vida do Espírito (cf. Sal 42,1). Pois, dizem, é da natureza do veado comer serpentes; mas pela virtude do calor que eles geram através de estar sempre em movimento, eles estranhamente transformam o veneno das serpentes em almíscar e não lhes faz nenhum mal. De modo similar, quando pensamentos imbuídos de paixão invadem nossa mente deveríamos trazê-los a submissão através de nossa ardente perseguição dos mandamentos de Deus e do poder do Espírito, e assim transformá-los na prática fragrante e salutar da virtude. Desta maneira podemos tomar todo pensamento cativo e fazê-lo obedecer Cristo (cf. 2Co 10,5). Pois o mundo celestial deve ser preenchido, não com pessoas que são materialistas e imperfeitas, mas com aqueles que são espirituais e perfeitos — aqueles que avançaram à estatura da humanidade perfeita na plenitude de Cristo (cf. Ef 4,13).

83. Uma pessoa que continua girando e girando no mesmo lugar e não quer fazer qualquer progresso espiritual é como uma mula que gira e gira operando um moinho de água. Estar sempre batalhando com as proclividades carnais e estar ocupado somente com disciplinar o corpo através de várias formas de trabalho ascético é confundir o propósito de Deus e não intencionalmente infligir grande dano a ti mesmo. «O ganho a ser obtido da disciplina corporal é apenas limitado», diz São Paulo (1Tim 4,8) — de qualquer modo enquanto a vontade terrena da carne não tiver sido engolida em lágrimas de arrependimentos, enquanto a vivificadora mortalidade do Espírito não tiver prevalecido em nosso corpo, e a lei do Espírito não reine em nossa carne mortal. Mas a verdadeira devoção da alma alcançada pelo conhecimento espiritual das coisas criadas e de suas essências imortais é como uma árvore da vida dentro da atividade espiritual do intelecto: é «benéfico em todas as coisas» (cf. 1Tim 4,8) e em toda parte, concedendo pureza de coração, pacificando os poderes da alma, dando luz ao intelecto e castidade ao corpo, e conferindo restringimento, autocontrole todo abarcante, humildade, compunção, amor, santidade, conhecimento celestial, sabdeoria divina, e a contemplação de Deus. Se, então, como um resultado de grande disciplina espiritual tiveres alcançado tal perfeição de verdadeira devoção terás cruzado o Mar Vermelho das paixões e terás entrado a terra prometida, da qual flui o leite e o mel do conhecimento divino (cf. Ex 3,8), e o inexaurível deleite dos santos.

84. Se persistes em agir de uma maneira que é unilateral e de benefício limitado e não escolhes fazer o que é benéfico a todo modo, ainda — em conformidade com o grau elevado de Deus — comerás pão grosseiro com o suor de tua testa (cf. Gen 3,19). Tua alma não sente apetite pelo maná espiritual e o mel que flui para Israel da fenda na rocha (cf. Deut. 32,13; Sal 81,16). Se, entretanto, ouvistes as palavras, «Eleva-te, vamos assim» (Jo 14,31); se, em resposta à chamada do Mestre, pões de lado trabalho assíduo e paras de comer o pão, repudiando a percepção meramente material e saboreando a tigela da sabedoria de Deus, então saberás que o Cristo é o Senhor; pois, tendo preenchido a lei dos mandamentos através do ministério ao divino Logos, terás ascendido na câmara superior e estará esperando a vinda do Paracleto (cf. Atos 2,1-4).

85. Devemos sempre progredir de acordo com os níveis e degraus de uma vida dedicada à sabedoria e ascender assiduamente em direção ao mundo superior avançando em direção a Deus e nunca estático em nossa aspiração em direção a beleza supernal. Devemos avançar da prática ascética à contemplação das essências dos seres criados, e assim para o conhecimento místico do divino Logos. Lá podemos desapegar de todas as formas externas de disciplina corporal, posto que teremos nos elevado acima do estado inferior do corpo e teremos sido agraciados a lucidez da verdadeira discriminação. Se ainda não tivermos sido agraciados essa lucidez não saberemos como tomar o próximo passo e perseguir o que é mais perfeito. Estaremos em uma ainda pior condição do que aqueles «no mundo»; pois muitos deles não estabelecem qualquer limite a suas ambições, e não param em sua ascensão, até que tenham alcançado o nível mais alto de todos; e só então ficam satisfeitos.

86. Purificados através do trabalho ascético fervoroso, a alma é iluminada pela luz divina e começa pouco a pouco a perceber a beleza natural que Deus originalmente a concedeu e expandir em amor por seu Criador. E como através de sua purificação os raios do Sol da retidão crescem mais lúcidos nela, e sua beleza natural é crescentemente a ela revelada e reconhecida, a fim de que se torne ainda mais pura estende sua prática ascética. Desta maneira adquire uma visão clara da glória do dom que recebeu, e retoma sua nobreza anterior e restaura para seu Criador Sua própria imagem pura e imaculada. E continua a adicionar a seus trabalhos até que tenha se limpado a si mesma de toda mácula e impureza e é privilegiada a contemplar e comungar com Deus.

87. «Abra meus olhos e perceberei as maravilhas de Tua lei» (Sal 119,18). Assim aquele que ainda é coberto pela bruma de sua vontade terrestre clama a Deus. Pois a ignorância de seu mente mundana, toda nebulosa e obscura, recobre a visão da alma de modo que não pode apreender coisas sejam divinas ou humanas; não pode perceber os raios da luz divina e desfrutar as bençãos que «o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e o coração do homem não apreendeu» (1Co 2,9). Mas quando através do arrependimento sua visão foi restaurada, ela vê estas coisas claramente, as ouve com compreensão e as intui intelectualmente. Não apenas isto, mas também assimila coisas mais exaltadas que, aprontadas por estas intelecções, elevam-se em seu coração; e, tendo saboreado sua doçura, seu conhecimento cresce mais lúcido. Pode então, na luz da sabedoria de Deus, explicar a todos a natureza das benção divinas «que Deus preparou para aqueles que O amam» (1Co 2,9); e exorta todos a seguir o caminho de luta e lágrimas a fim de compartilhar com eles.

88. A Escritura enumera sete dons do Espírito, começando com a sabedoria e terminando com o temor divino do Espírito; pois fala do «espírito de sabedoria, do espírito de compreensão, do espírito de aconselhamento, do espírito de força, do espírito de conhecimento divino, do espírito de reverência, do espírito do temor de Deus» (cf. Isa 11,2). Mas nós de nossa parte deveríamos começar com o temor que purifica — quer dizer, com o temor de punição; desta maneira, primeiro repudiando o mal e através do arrependimento das máculas do pecado, possamos alcançar o puro temor do Espírito. Tendo uma vez alcançado isto, podemos pôr de lado nossas lutas pela virtude.

89. Se começas com o temor do julgamento e através das lágrimas de arrependimento avança para a pureza do coração, serás primeiro preenchido com sabedoria, posto que, como está escrito, temor é «co princípio da sabedoria» (Prov 1,7). Será então preenchido simultaneamente com o espírito da compreensão e do aconselhamento, e isto te capacitará a resolver questões no caminho que é melhor para ti. Tendo alcançado este estágio através da prática dos mandamentos, então avanças para a apercepção espiritual do ser criado e recebes a mais exata compreensão de coisas divinas e humanas. Doravante, inteiramente transformado em um tabernáculo de santidade, ascendes à citadela de amor e és feito perfeito. De pronto o puro temor do Espírito te apreende, de modo que podes guardar o tesouro do reino do céu do qual te tornastes um repositório. Tal lágrima possui grande poder salvador; pois quando tiveres sido exaltado ao pináculo do amor de Deus ela te faz temeroso e pleno de inquietude enquanto escapas deste amor e és jogado uma vez mais no temor terrível da punição.

90. A leitura das Escrituras significa uma coisa para aqueles que recentemente abraçaram a vida de santidade, outra para aqueles que alcançaram o estado do meio, e outra para aqueles que estão movendo rapidamente em direção à perfeição. Para o primeiro, as Escrituras são pão para a mesa de Deus, fortalecendo seus corações (cf. Sal 104,15) no santo combate pela virtude e os preenchendo com força, poder e coragem em sua batalha contra os espíritos que ativam as paixões, de modo que podem dizer, «Para mim Tu preparastes uma mesa com alimento contra meus inimigos» Sal 23,5). Para o segundo, as Escrituras são vinho do cálice de Deus, alegrando seus corações (Cf. Sal 104,15) e os transformando através do poder do significado interior, de modo que seu intelecto é elevado acima da letra que mata e conduzido em busca nas profundezas do Espírito (cf. 2Co 3,6; 1Co 2,10. Desta maneira eles são capacitados a descobrir e dar a luz ao significado interior, de modo que adequadamente podem exclamar, «Teu cálice me deixa embriagado com o vinho mais forte» (Sal 23,5), LXX). LXX). Finalmente, para aqueles se aproximando da perfeição as Escrituras são o óleo do Espírito Santo (cf. Sal 104,15), ungindo a alma, a fazendo gentil e humilde através do excesso da iluminação divina que confere, e elevando-a integralmente acima da baixesa do corpo, de modo que em sua glória ela pode clamar, «Tu ungistes minha cabeça com óleo» (Sal 23,5) e «Tua misericórdia deve me seguir todos os dias de minha vida» (Sal 23,6).


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