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Stethatos Centúrias Físicas 71-80

terça-feira 29 de março de 2022

71. Onde o fruto do Espírito está presente em uma pessoa, a oração é de tal qualidade; e onde há tal qualidade, a quantidade na recitação dos salmos   é excelente. Onde não há fruto espiritual, a qualidade é sem seiva. Se a qualidade é árida, a quantidade é inútil: mesmos se disciplina o corpo, para a maioria das pessoas não há ganho a ser disto obtido.

72. A medida que oras e cantas os salmos   ao Senhor, atentes para a perfídia dos demônios. Ou nos enganam a dizer uma coisa ao invés de outra, raptando a atenção da alma e virando os versos dos salmos   em blasfêmias, de modo que dizemos coisas que não deveríamos dizer; ou, quando começamos com um salmo  , nos causam saltar para o final dele, distraindo o intelecto daquilo que se encontra entre; ou também nos fazem voltar toda vez ao mesmo verso, através do lapso mental nos impedindo de ira ao que vem a seguir; ou, quando estamos no meio de um salmo  , subitamente se dá um branco na memória do intelecto da sequência dos versos, de modo que não podemos nem mesmo lembrar que verso do salmo   estávamos dizendo, e assim o repetimos de novo. Assim fazem para nos fazer negligentes e agitados, e privar-nos dos frutos de nossa oração por nos persuadir que não podemos ir adiante por causa do tardar da hora. Devemos perseverar fortemente, entretanto, e continuar o salmo   mais lentamente, de modo que através da contemplação podemos colher o benefício da oração dos versos e ficarmos ricos com a luz do Espírito Santo que enche as almas daqueles que oram.

73. Se algo como tal acontece para ti quando estás «louvando com compreensão» (cf. Sal 47,7), não te tornes apressado ou agitado. Não opte pelo descanso corporal ao invés do benefício do espírito, assim justificando com base no tardar da hora. Mas quando realizas que teu intelecto se tornou distraído, pare a recitação; e embora possas estar próximo ao fim do salmo  , bravamente volte ao início, diligentemente o reinicie, e o recite de novo, mesmo se, por causa da distração, tenhas que repetir este processo várias vezes em um única hora. Se assim fazes os demônios, incapazes de suportar tua paciente perseverança e teu ardor, ficarão envergonhados e te deixarão.

74. A oração incessante é a oração que não deixa a alma dia ou noite. Não consiste no que é exteriormente percebido — mãos elevadas, postura corporal, ou expressão verbal — mas em nossa concentração interior na atividade do intelecto e na concentração em Deus nascida da compunção inabalável; e pode ser percebida noeticamente por aqueles capazes de tal percepção.

75. Podes te devotar constantemente à oração somente quando teus pensamentos são conjugados sob o comando do intelecto, prescrutando em profunda paz e reverência dentro das profundezas de Deus e buscando lá o sabor das águas doces da contemplação. Quando esta paz não está presente, tal oração é impossível. Somente quando os poderes da alma são pacificados através do conhecimento espiritual podes alcançar a oração constante.

76. Se enquanto estias louvando uma oração de louvor a Deus, um de teus irmãos bate na porta de tua cela, não optes pelo trabalho da oração ao invés daquele do amor e ignore teu irmão, pois assim agir seria estranho a Deus. Deus deseja a misericórdia do amor, não o sacrifício da oração (cf. Hos 6,6). Ao invés, ponha de lado o dom da oração e fale com amor que cura ao teu irmão. Então com lágrimas e um coração contrito uma vez mais ofereça teu dom de oração ao pai dos poderes espirituais, e um espírito reto será renovado dentro de ti (cf. Mt 5,23-24; Sal 51,10,17).

77. O mistério da oração não é consumado em um certo tempo específico ou lugar. Pois se restringes a oração a tempos ou lugares particulares, desperdiçarás o resto do tempo em buscas vãs. A oração pode ser definida como a interação incessante do intelecto com Deus. Sua tarefa é engajar a alma totalmente em coisas divinas, seu preenchimento — adaptar as palavras de São Paulo   (cf. 1Co 6,17) — jaz em assim casar a mente a Deus de modo que ela se torne um espírito com Ele.

78. Embora tenhas morrido para teu eu mundano, e embora a vida tenha sido gerada em tua alma pelo Espírito Santo e Deus tenha te agraciado dons supernais, deverias ainda não deixar tua mente desocupada. Acostumes ela a pensar continuamente em teus pecados passados e as tormentas do inferno, e olhes a ti mesmo como um condenado. Se te preocupas a ti mesmo com estas coisas e olhas para ti deste modo, preservarás um espírito contrito e dentro de ti uma fonte de compunção fluirá com graça divina. Deus terá consideração por teu coração e o suportará com Seu Espírito.

79. Jejum controlado, acompanhado por vigílias, meditação e oração, rapidamente te traz para as fronteiras da apatheia. Neste ponto tua grande humildade libera a fonte de lágrimas dentro de ti e vagabundearás com amor por Deus. Quando tiveres alcançado este estado, entras na paz do Espírito que transcende todo intelecto destemido Fil 4,7) e através do amor estas unido a Deus.

80. Nenhum rei delicia-se tanto sobre sua glória e reino, ou exulta tanto em seu poder, como faz o monge sobre a apatheia de sua alma e sobre suas lágrimas de compunção. Pois o júbilo do rei se desvanecerá com seu reino, enquanto o monge será acompanhado por ilimitadas eras pela bendita apatheia e a alegria que alcançou. Ele move como uma roda entre homens durante a vida presente, tocando só levemente a terra e as coisas nela — e então simplesmente porque suas necessidades corporais o demandam; seu intelecto ascendendo através deste movimento circular inteiramente dentro da esfera celestial, em seu princípio é seu fim; e, coroado com a humildade, carrega em si mesmo os frutos da graça. Sua mesa está repleta com a contemplação das essências das coisas criadas, sua bebida é do cálice da Sabedoria e seu repouso está em Deus.


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