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O HOMEM IMORTAL

Nothomb: Serpente

A SERPENTE OU A FASCINAÇÃO LÓGICA

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

A figura mitológica da serpente   do relato do Jardim do Éden deu lugar a muitas especulações. Que representa este animal   falante? Satã, o Adversário, o Espírito do Mal, o anjo Samael? Contrariamente ao que deixa entender a tradução corrente, o texto não diz que é uma criatura de Deus  . Deve-se ler (Gen 3,1): “A serpente era mais astuta que todos os animais que YHWH tinha feito” e não “o mais astuto de todos os animais selvagens...”. O adjetivo astuto, que caracteriza esta criatura fictícia é ainda mais significativo. Traduzindo “aroum” em hebreu tem a conotação pejorativa em francês. Mas se referirmos às dez   outras ocorrências deste adjetivo na Bíblia nota-se que duas vezes somente é traduzido com esta conotação, e oito vezes com a conotação oposta.

Os oito casos positivos se encontram no Livro dos Provérbios e cada vez a Bíblia de Jerusalém traduz aroum por “avisado”, “precavido”. Entre as citações há uma bem interessante para esclarecer nosso texto: “As pessoas avisadas [aroumim] se fazem do saber (Daat) uma coroa” (Pr 14,18). É um elogio. A princípio o substantivo   correspondente ao adjetivo "aroum" não é apreciado pela Sabedoria ela mesma:

Eu a Sabedoria habito com a sagacidade   (orma)
invento o saber (daat) e as astúcias (Pr 8,12)

O verbo "invento" está em um tempo   verbal de não completude e se poderia traduzir: "invento continuamente". Traduzo orma por "sagacidade, a Bíblia de Jerusalém traduz por "savoir-faire", mas se poderia também traduzir por "sutileza". É em todo caso uma qualidade   segundo o contexto.

Qualidade ou deficiência  , avisado ou astuto, o que une estas duas conotações é a inteligência  , a sutileza de espírito  . E o sentido sutil domina na Bíblia. A serpente astuta ou sutil personifica uma faculdade intelectual   em relação com o saber (daat) ou a ciência (daat) é a mesma palavra em hebreu e é aquela da famosa árvore se aí se junta “em tudo”. Nenhuma dúvida é possível. A serpente não é um porta-voz da tentação   moral ou do instinto sexual, como não se para de dizer. É a voz interior  , ou melhor uma das vozes interiores do debate   contínuo   do pensamento reflexivo na lida consigo mesmo, que, se debatendo com os limites que a realidade   aponta a seus conceitos, tem tendência de querer os ultrapassar na pseudo realidade da linguagem por um movimento   de vai e vem, tese, antítese, síntese, que se chama dialética.

“A Mulher viu que a árvore era (...) desejável para adquirir o entendimento” (Gen 3,6). Eben Ezra, o racionalista, comenta: Ela viu em seu coração  ”. O coração é o órgão da inteligência na Bíblia. Se chocando com os limites que aponta para seu conceito de “aquilo que é bom” a realidade — aqui a ordem de Deus interditando de comer desta árvore —, a Mulher  , sensível   ao argumento   da serpente (quer dizer a sua sutilidade) que é um argumento linguístico, segundo o qual a onisciência analiticamente, quer dizer o conhecimento do “tov” e do “ra”, do bom mas também do mau, “vê no seu coração”, imagina que este suplemento ao “tov”, do qual ela ignora até aqui totalmente a natureza mas que, pelo fato único que se junta ao tov, lhe parece “desejável para adquirir o entendimento” — um entendimento que vai além do conceito do “tov”, ao qual se limita a realidade essencialmente boa criada por Deus.

Certamente, poderia se ter dúvida, a palavra "onisciência" é menos rica, menos sugestiva que a expressão   hebraica dual que tenta traduzir. Corrige o sentido moralista ou puramente pragmático, que prestam ao drama   do Jardim do Éden  , das traduções, tais como "conhecimento do Bem e do Mal" ou "conhecimento da felicidade   e da infelicidade". Faz da transgressão de nossos primeiros pais   seu caráter de "pecado contra o espírito  " que ela reveste antes de tudo. Mas deixa na sombra o papel desempenhado pela linguagem nesta passagem da unidade   à dualidade que é a "Queda". Pelo ouvido hebreu que entende tov-wara, mesmo se compreender que isto quer dizer "em tudo", há por trás do tov que isolado significa "bom", ra que isolado quer dizer "mau" mas que evoca também uma raiz consonântica conexa que quer dizer "outro". Como se este ra fosse o "outro" do tov, seu duplo, seu reflexo, sua face oculta e atrativa.

O "diálogo  " que a serpente engaja com a Mulher nada tem de espontâneo  . É uma démarche reflexiva essencialmente lógica  . A habilidade   consiste em pôr   então a questão em termos muito generosos, no modo interrogativo, como se se tratasse de dissipar um mal-entendido. "Ela diz à Mulher: Deus verdadeiramente disse: Não comereis de todas as árvores do jardim?" (Gen 3,1). Ela exclama: "Do fruto   das árvores do jardim comemos; é do fruto da árvore que está no meio do jardim que Deus disse: dele não comereis e aí não tocareis, em receio de morreres" (Gen 3,2-3). Ora, segundo o texto, o que Deus disse ao Homem  , antes que a Eva   - Mulher exista, a respeito da Árvore da Onisciência, é: "Dela não comerás, pois o dia que dela comerdes morrereis certamente" (Gen 2,17).

A exegese   judia desde muito tempo notou esta diferença de formulação, que um midrash explica assim:
Desconfiando da curiosidade de sua mulher, o Homem a instruiu da interdição divina nisto adicionando por conta própria uma proibição suplementar, aquela de não tocar na árvore. Esta informação mentirosa, inspirada pela prudência  , a perdeu, pois a Mulher, não sem hesitação, e talvez como por inadvertência, começou por se aproximar mais e mais da árvore, a roçá-la e enfim tocá-la. Nada de incômodo se produzindo, ela disto deduziu que ela poderia também dela comer, e que a advertência de Deus não se verificava. O Homem foi pego de certa maneira na armadilha de sua própria astúcia.

Constatemos que o Adam e a Mulher substituíram seu raciocínio à realidade da Palavra Divina, e que no caso do Adam foi para "melhorá-la".

De pronto a serpente se animou. "Não, não morrereis, Mas Deus sabe que o dia que dela comerdes vossos olhos se abrirão, e serei dotados de onisciência como Deus" (Gen 3,5; Abriram-se os Olhos). Eis, enfim nomeada, a verdadeira tentação. Traduzir: "Sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal", como em Segond, a faz aparecer   metafísica e moral, enquanto ela é intelectual. A forma adjetival no plural "dotados de onisciência" ("conhecendo o bem e o mal") se relaciona a "vós" (o Homem e Mulher) e não a Deus, que deve portanto permanecer no singular. No Éden o Homem e a Mulher não têm qualquer desejo de se tornar "deuses" ou "seres divinos". Eles já o são demais, posto que vivem no Jardim de Deus. Mas a ambiguidade   da onisciência, que concebem logicamente como um ideal e como um atributo divino  , os atrai. E na medida que a Mulher, raciocinando a partir da informação errada que lhe transmite o Homem, crê que ela nada tem a temer, ela decide.

O que é mais chocante neste drama, é o papel completamente   passivo que desempenha o Homem. Ele aí está presente   do início ao fim (a Mulher diz: "Comemos", a serpente: "Sereis"; o texto precisa mesmo: "ela deu também a seu homem que estava com ela"). E ele não pronuncia uma palavra. Como uma cabra hipnotizada por uma cobra, não esboça a menor resistência. É ele no entanto que ouviu da boca de Deus a advertência, que lhe pareceu tão grave que creu bom "reforçá-la" em a comunicando em seguida à Mulher. E ele não tem a desculpa da Mulher que, enganada por ele, deduziu depois de ter tocado a árvore, que ela podia dela comer impunemente. Ele sabia, ele, que não era interdito tocar na árvore, mas somente dela comer. E ele dela come certamente, imitando sua mulher em lugar de pará-la em seu gesto, de dissuadi-la antes que não fosse muito tarde, como se estivesse subitamente "ausente", em um estado   de estupor   total. Que se passou? Foi sua mulher que o seduziu, como alega em seguida? Deus parece repreendê-lo a princípio: "Por que escutaste (obedeceste a) voz de tua mulher" (Gen 3,17). Toda uma tradição   misógina se tomou desta "desculpa" do Homem e desta reprimenda de Deus para dar a Mulher, de geração em geração, a etiqueta de "tentadora".