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Evdokimov Deus Forma

terça-feira 29 de março de 2022

El arte del ícono — Teología de la Belleza, Paul Evdokimov, Publicaciones Claretianas, colección Teología 2 — Ortodoxia II, Madrid, 1991, 364 pp., ISBN 84-86425-98-0

Contribuição e tradução de Antonio Carneiro do Capítulo VIII — páginas 205-213, Evdokimov Fundamento Ícone - O FUNDAMENTO DOGMÁTICO DO ÍCONE

“O Espírito santo é o grande Doutor da Igreja”, disse São Cirilo de Jerusalém [1], Doutor, pois é Ele quem garante e assegura o “charisma veritatis certum” da Igreja. Um Concílio é ecumênico porque o espírito da Verdade, pela boca do Povo da Igreja, identificou este Concílio em Cristo-Verdade. Como resposta à “epiklesis” do rito da santificação do ícone, o Beleza - Espírito da Beleza identificou a semelhança com Cristo e da imagem fez o ícone, a Beleza contemplada do Verbo. “O Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem, Senhor.’” A “epiklesis” do reino é a que introduz nas bodas místicas de Cristo com a Igreja, mas também nas bodas místicas de Cristo com toda alma, pessoalmente, nominalmente. O Ícone da Déesis abre-se sobre esta visão ante a qual toda palavra se detém para deixar o posto ao silêncio do Verbo, ao fulgor de sua Luz sem ocaso.

A oração da santificação do ícone diz: “Senhor, Deus, Tu criaste o homem à tua imagem, a qual o embaçou, mas pela Encarnação de teu Cristo feito homem, a restauraste e assim restabeleceste à teus santos a sua primeira dignidade. Venerando-os, veneramos tua imagem e tua semelhança, e, por meio deles, Te glorificamos como seu Arquétipo”. Se a consciência dogmática afirma a verdade do ícone em função da Encarnação, esta está condicionada pela criação do homem “a imagem de Deus”, pela estrutura “icônica” do ser humano. Cristo não se encarna em um elemento estranho, heterogêneo, mas sim que volte a encontrar sua própria imagem celeste e arquetípica, pois Deus criou o homem olhando a humanidade celeste do Verbo (1 Cor 15, 47-49), preexistente na Sabedoria de Deus.

Em sua divindade o filho é a Imagem consubstancial do Pai, em sua humanidade Cristo é o ícone de Deus: “Aquele que me viu, viu ao Pai”; as duas naturezas em cristo, divina e humana, se remontam a sua Hypostasis, e portanto à única Imagem, mas que se expressa de duas formas diferentes. A imagem é uma, como a Hypostasis é uma, mas esta unidade salvaguarda a distinção do incriado e do criado.

Contra a indigência de um espiritualismo excessivo, há que se afirmar que em Deus a ausência da imagem seria uma falta de plenitude. Deus é a Forma de toda forma, o Iconografia - Ícone de todo ícone, o Arquétipo onicontinente. A apophasis não é uma pura negação, quer dizer que Deus é um Meta-Ícone, segundo a terminologia de Dionísio o Areopagita  , um Híper-Ícone. Os iconoclastas mostram uma estranha insensibilidade em relação ao realismo sagrado do ser, uma ruptura docética entre o espiritual e o encarnado. Na presença do simbolismo icônico, acentuam o vertical apofático e rompem o equilíbrio perdendo sua coordenada horizontal catafática, e, por outra parte, seu racionalismo intransigente se fecha para a capacitação do verdadeiro simbolismo.

Uma única via negativa é insuficiente. Efetivamente, segundo São Gregório Palamas “só é uma intelecção do que parece diferente de Deus; não leva a imagem do inexpressável” (Tríadas , 1, 3, 19.). Seguindo, Deus está por cima de toda afirmação, mas também por cima de toda negação, o que significa em último caso um sim apofático. Palamas sintetiza o personalismo da Teognosia patrística. Deus é incognoscível, radicalmente transcendente em sua essência, mas é experimentável enquanto existente, presente em suas energias que a Encarnação faz imanentes ao ser inteiro do homem.

A visão cara a cara do século futuro, segundo São Anastácio o Sinaíta, será a visão da Pessoa do verbo encarnado. Por isso a afirmação fundamental dos Padres precisa que não é a natureza divina nem a natureza humana, mas sim a “Hipóstase de Cristo a que nos aparece” nos ícones. Deste modo, o culto dos ícones inaugura a visão do Oitavo Dia (v. Dia). [2] Segundo Teodoro Estudita, a imagem sempre é diferente do Protótipo no que diz respeito à “essência”, mas lhe é semelhante naquilo que é em relação à Hipóstase e ao Nome.

“Cristo é imagem de Deus invisível, o primogênito da criação” (Col 1,15). Continuando, inclusive os primeiros defensores do ícone separavam de maneira simplista as duas naturezas e situavam o visível na humanidade de Cristo, e o invisível em sua divindade, mas a imagem não se divide segundo as naturezas, pois se remonta à Hipóstase em sua unidade. Uma Hipóstase em duas naturezas significa uma Imagem em dois modos; visível e invisível. O divino é invisível, mas se reflete no visível humano. O ícone de Cristo é possível, verdadeiro e real, já que sua imagem segundo o modo divino — as duas constituem os dois aspectos da única Hipóstase — Imagem. Segundo São João Damasceno, as energias das duas naturezas, do criado e do incriado, se compenetram. Na união hipostática, a humanidade deificada de Cristo participa na glória divina e nos faz ver a Deus. A pericoresis [3] cristológica — intercâmbio de idiomas — evoca a mesma e recíproca penetração das duas naturezas e explicita o mistério da “única imagem” segundo os dois modos de suas expressões, até o ponto de que é “a humanidade de Cristo a imagem de sua divindade”; uma vez mais: “Aquele que me viu, viu ao Pai”, não a Deus, mas sim ao “Pai”, pois o filho é a imagem do Pai e, por isso, a expressão da Trindade; desta maneira a única Hipóstase possui a única Imagem-Ícone em dois modos de expressão: vista por Deus e vista pelo homem.

No momento da Transfiguração, “a medida de sua receptividade, os discípulos viram tua glória”, canta o ofício, sublinhando que esta visão pressupõe um “dom” que transfigura a vista. “A imagem de Deus invisível”, a única realidade teândrica na Hipóstase do Verbo encarnado manifestada aos discípulos; esta visão tabórica é a que condiciona e fundamenta dogmaticamente o ícone de Cristo e o ícone em geral.

O ícone surge também da teologia bíblica do Nome. O Nome de Deus é seu ícone oral, não se pode “pronunciar em vão”, pois Deus está presente em seu nome. A “oração de Jesus” está arraigada nesta noção bíblica. No rito de santificação, o fato de “nomear ao ícone”; “Esta imagem é o ícone de Cristo” e “este ícone está santificado pelo poder do Espírito Santo”, significa que a “semelhança” afirmada sacramentalmente confere ao ícone o carisma da presença inerente ao Nome. Os ícones do mesmo Protótipo, e sobre tudo de Cristo, são inumeráveis, mas o único Nome os identifica, cada um é um de seus aspectos. A eucaristia opera a mudança da matéria deste mundo em realidade celeste e transcendente. O ritual do ícone não opera nenhuma metamorfose, mas sim que identifica o ícone com sua própria realidade de semelhança, com o Nome desenhado, como seu lugar e o Centro energético de sua irradiação.

A “matéria” do ritual não é a “lâmina”, mas sim a “semelhança” que remete ao ícone “não feito por mão humana”. Após a Ascensão, Cristo, dizendo “Estarei convosco até o fim do mundo”, aparece em sua Palavra pela audição, na eucaristia pela consumação, no ícone pelo encontro orante. Com efeito, a oração conserva todo seu valor inclusive sem ícone, os grandes espiritualistas no deserto falavam diretamente com Deus. No cume, inclusive a oração se cala, “se ora mais além da oração”; “quando o Espírito Santo desce tem que deixar de orar”, aconselha São Serafim de Sarov, para chegar a ela Deus oferece os meios de sua graça e o ícone é um deles.

Os iconoclastas citavam a palavra de São Gregório de Nazianzo  ; “a fé não está nas cores, mas sim no coração”. É uma advertência para evitar a superstição e a idolatria. Adora-se a Deus “em espírito e em verdade”. Mas o homem é a imagem de Deus precisamente na própria estrutura de seu espírito e por isso pensa, contempla, “imagina” e cria a beleza, seus símbolos e seus ícones. “Em verdade” pode desta forma designar a Arte sagrada imantada pela Beleza transcendente. Deus se veste de Beleza e faz dela o lugar de seu Advento, Arquétipo de todas belezas do mundo terrestre e celeste.

É evidente que o ícone está no ponto oposto da imagem naturalista e da aparência carnal. O corpo é a forma do espírito e toda arte verdadeira penetra “por trás do véu” dos fenômenos para traduzir o conteúdo espiritual o “logos”. Os grandes pintores diziam; “há que pintar a realidade tal como não é”. Serov, fazendo um retrato, dizia de vez em quando: “agora, há que se enganar em algum lugar”... [4]

Um iconógrafo, traçando o rosto humano de Deus, transpõe a visão da Igreja, pois, assim é como a Igreja contempla o Mistério de Deus. Esta arte é sinergética, o Espírito-Iconógrafo divino “inspira” o homem. Com efeito todos os ícones de Cristo dão a impressão de uma semelhança fundamental, se reconhece imediatamente, mas esta semelhança não é retratística. Justamente, não é a individualidade humana mas sim a Hipóstase de Cristo a que se revela a cada iconógrafo de uma maneira única, eclesial e pessoal por sua vez, como os aspectos múltiplos das aparições do Ressuscitado. A Igreja conserva em sua memória a única Santa Face “não feita por mão humana” e existem tantas Santas Faces quantos iconógrafos.



[1XVI Catequesis Mistagogica.

[2Versículo dos últimos dias: Levítico 23, 8; 23, 39; vide também Lucas 2, 21. Cristo ressuscitou no oitavo dia domingo ou um dia após o sábado. No Catecismo Católico encontra-se a seguinte definição para o oitavo dia: D.19 DIA; D.19.2 Dia da ressurreição de Jesus; 2.174 Jesus ressuscitou dentre os mortos "no primeiro dia da semana" (Mc 16,2). Enquanto "primeiro dia", o dia da Ressurreição de Cristo lembra a primeira criação. Enquanto "oitavo dia", que segue ao sábado, significa a nova criação inaugurada com a Ressurreição de Cristo. Para os cristãos, ele se tomou o primeiro de todos os dias, a primeira de todas as festas, o dia do Senhor ("Hé kyriaké hemera", "dies dominica "), o "domingo": Reunimo-nos todos no dia do sol, porque é o primeiro dia (após sábado dos judeus, mas também o primeiro dia) em que Deus extraindo a matéria das trevas, criou o mundo e, nesse mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dentre os mortos.

[3Vide: “Introduction à la théologie trinitaire basée sur Christ : Deuxième partie — Perchoresis” perichoresis

[4Karvasine, Reflexiones sobre el Arte, “El Mensajero” no. 68-69, 1963.