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TÚNICAS DE CEGO

Nothomb: Imortalidade

O mundo sem morte

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Máximo da utopia para nós  , a ausência   de morte. Sob todas suas formas. No SEGUNDO RELATO da Criação (mais antigo que o primeiro relato (RELATO DOS SEIS DIAS->PNRSD) não é um mundo selvagem que Deus   cria para o Homem  . É um jardim (a estepe, a selva, a floresta virgem, isto será o exílio  ). Imortais de natureza, os hóspedes do jardim aí não envelhecem, aí não conhecem a vergonha   nem humilhação qualquer. Os animais ao redor deles não são carnívoros, nem ansiosos. Nenhum sangue   aí não é versado. O alimento   para todos é vegetariano como no primeiro relato. Certo que no segundo relato a morte é evocada. E a única que o Homem do éden deve absolutamente   evitar. Evitar de suscitar. Pois sua liberdade vai até aí...

Sendo naturalmente imortal, o Homem não tem nenhuma ideia da morte. É porque Deus o põe solenemente em guarda   contra ele mesmo e o adverte do perigo que corria renegando sua natureza, isto que a liberdade lhe permite fazer. Renegar sua natureza seria morrer  , e é o que significaria simbolicamente a ruptura da árvore da qual Deus lhe diz: “Se dela comes, morrerás certamente” (Gn 2,17). Logo antes dela comer, e se dela não tivesse comido, não devia morrer. E após dela ter comido ainda Deus o impede de se aproximar da Árvore da Vida, notando que seria suficiente ao Homem dela comer como de um antídoto, para “viver   para sempre” (Gn 3,22). Logo mesmo depois de ter renegado sua natureza, o Homem permanece potencialmente imortal. Sobre esta simbólica existencial veja Árvores do Paraíso e Jardim do Éden.

Os meios que continuam tradicionalmente a se valer da Bíblia, aí compreendido a “Bíblia das Origens”, contestam mais e mais esta “natureza” imortal. Para os católicos a opinião   prevalece que criando a mais completa de suas criaturas, Deus não a dotou de imortalidade mas de uma “alma  ” imortal ou de uma “vocação à imortalidade” que ela não soube realizar e cuja realização  , com efeito, é remetida “ao final dos tempos”. Protestantes, entre os mais “ortodoxos”, não hesitam a professar que o Homem foi criado mortal, e que seus descendentes que somos não podem, assim como Adão  , esperar saborear um dia a “vida eterna” a não ser pela graça, depois da “ressurreição dos mortos”. O judaísmo em seu conjunto  , mais sóbrio nesta matéria remete também a resposta   ao “mundo a vir [olam]”. Em todos como em semântica, a morte prece   necessariamente a improvável imortalidade.

Sem dúvida é o ponto de vista do “bom senso”. E deve-se dizer que a deplorável tradução da “Bíblia das Origens” em vigor desde a Septuaginta parece lhe dar razão  . A começar pelo famoso “Crescei e Multiplicai-vos”, que não se trata em absoluto   no RELATO DOS SEIS DIAS de um apelo à reprodução humana implicando a morte. Mas há sobretudo nesta adesão geral ao “bom senso” dos “crentes do impossível” que são teoricamente os cristão e os judeus, um terrível desconhecimento disto que é existencialmente a morte na “Bíblia das Origens” como para cada indivíduo  . Não é um termo, mas um estado  . Não é um fim da vida consciente (pois a vida inconsciente ignora a morte) mas sua assombração sem fim. Quando ele “come da árvore” apesar do aviso divino anunciando que se comesse morreria, o Homem “morre” efetivamente, quer dizer se torna mortal. Se ele “vive” em seguida ainda muito tempo  , é em sursis e disto sabendo. Não é mais a mesma vida. Antes era a verdadeira Vida, sem usura, sem morte. Doravante é a “vida-para-a-morte” (v. Martin Heidegger.

Para a Bíblia das Origens, portanto, a imortalidade precede a morte que o Homem, e não Deus, introduziu no mundo. É capital. É decisivo. Se se pensa ao contrário, em todo caso assim penso, é impossível “crer em Deus” pelo menos em um Deus “bom” como aquele do qual nos falam judeus e cristãos. Como! Mesmo em vistas de uma imortalidade-recompensa   no futuro, o “bom Deus” teria condenado deliberadamente sua única criatura plenamente consciente a morrer quer dizer a “viver” anos (Adão 930 anos!) na perspectiva da morte, da degradação física e mental, do envelhecimento, do sofrimento   que implica o processo biológico lúcido! Seria totalmente monstruoso e o autor de semelhante crueldade gratuita mereceria a execração ao invés de louvores, orações e suplicações das religiões judia e cristãs. Além do mais que estas lhe prestam uma pré-ciência absoluta de todas as atrocidades que vão cometer no curso das eras os homens que diz ter criado livres, o que os impede disto se abster posto que ele não pode se enganar! Este teocrata infalível, pior   que o destino cego, eu recuso.

Mas a “Bíblia das Origens” também o recusa. Se pelo menos sabe-se lê-la de outro modo que ensina a tradição   de aceitação, vide de glorificação da “condição humana” que se exprime já na moral da retribuição e do castigo   divino recheado de promessas para uma “boa conduta”, da Bíblia histórica e profética. E que a tradução de nossas bíblias faz remontar à Criação ela mesma.